OPINIÃO

Cinema nacional para quê? 

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Para entrar oficialmente em 2020 listando desejos e expectativas, vale a pena passar a limpo alguns pontos desse 2019 tão indigesto para a cultura brasileira, em geral, e para o cinema nacional, em particular. A coragem para lutar e resistir advém – estou certa – da inspiração criativa e do desejo, que a cultura sabe tão bem como expressar. Antevejo um ano de produções extremamente criativas em 2020, nas artes plásticas, na música, na literatura e, principalmente, no cinema. Vamos lá.

Em julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a intenção de extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine), órgão que tem por objetivos fomentar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica nacional. Depois de inúmeros protestos e notas de entidades representativas, voltou atrás.

Na mesma época, o Governo Federal já havia manifestado a intenção de impor filtro prévio aos projetos contemplados com financiamento via leis de incentivo, vetando a diversidade de temas, com exclusão de assuntos tidos como “esquerdistas” como as relações homoafetivas, o o racismo e o feminismo. Usando como mote o filme Bruna Surfistinha, o presidente criticou o que chamou de “uso do dinheiro público para fazer ‘filmes pornográficos’”, e defendeu financiamento público para filmes sobre “heróis brasileiros”.

Com o mesmo foco no controle, o presidente determinou, em julho, a subordinação do Conselho Superior do Cinema à Casa Civil, por meio de decreto. O conselho é formado por sete ministros (incluindo o da Justiça e Segurança Pública!), além de três especialistas em atividades cinematográficas e audiovisuais e duas pessoas da sociedade civil, com destacada atuação no setor audiovisual.

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Pode parecer contraditório, mas houve, até, veto à exibição do filme A Vida Invisível, o brasileiro inscrito para a disputa do Oscar em 2020, para servidores da Ancine. O evento serviria para capacitação dos que trabalham no órgão.

Apesar desse afã tão aguerrido de controle – que só pode resultar na inoperância das instituições ligadas à produção audiovisual, aposto – artistas e empresários se mantiveram ativos e o cinema nacional teve um aumento de quase 13% de renda de bilheteria, de acordo com dados divulgados na última quarta-feira (8) pela Ancine. A renda dos títulos brasileiros totalizou R$ 315,1 milhões.

Mesmo com um número de lançamentos 10,9% menor que em 2018, as produções nacionais bateram recordes de público, aumentando em 7,83% sua participação no mercado audiovisual. Os títulos brasileiros foram responsáveis por 11,5% da renda total dos cinemas no país.

De acordo com a agência, essa renda se deve principalmente ao desempenho dos longas Nada a Perder 2, que ultrapassou o sucesso de Tropa de Elite 2, com mais de 12 milhões de ingressos vendidos (se o filme foi mesmo visto, tenho minhas dúvidas, dada a origem do patrocínio desses ingressos), e Minha Mãe É uma Peça 3, que levou mais espectadores ao cinema na semana de seu lançamento que o último título da franquia Star Wars.

Os números cabem, aqui, para colocar o audiovisual dentro do espectro dos setores lucrativos da economia em 2019. Antes de se falar em leis de incentivo, em garantia constitucional de fomento à cultura, o cinema merece ser enxergado como negócio pelo governo federal, este mesmo que desconsidera a importância do incentivo à cultura como propulsor da educação e do desenvolvimento humano do país.

O presidente já disse que gosta de heróis brasileiros nas telas. Então que aplauda Guida e Eurídice, irmãs com vidas sufocadas pelo machismo em A Vida Invisível, que venceu a mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes 2019. Que exalte Wagner Moura, um dos heróis cubanos de WASP Network, filme inspirado em Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e também diretor de Marighella, dos maiores símbolos da resistência no país.

E que enalteça Teresa, Lunga e Plinio, heróis brasileiros de Bacurau, o filme que esteve na boca do povo ao longo de todo o ano. Eles geram dinheiro e fortalecem as famílias brasileiras, viu, presidente? Que o cinema nacional em 2020 seja resistente e heroico!

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