ENTREVISTA

Cipriano Maia: “O pico da epidemia no RN está previsto para ocorrer no início de maio”

O Governo do Rio Grande do Norte trabalha com a projeção do ápice da crise provocada pela pandemia do novo Coronavírus acontecer no início de maio. Até lá, há uma corrida contra o tempo para ampliar a oferta de leitos e estrutura para atender os pacientes que devem precisar de atendimento. A estimativa mais atualizada revela que o Estado pretende buscar mais 600 leitos, sendo 151 de UCI, 166 de UTI e 273 de leitos clínicos. Para tanto, são necessários recursos financeiros e humanos.

A verdade é que se dependesse só do Governo Federal, o Rio Grande do Norte estaria numa situação ainda pior. Aproximadamente R$ 10 milhões entraram no fundo estadual de Saúde vindos da União. A essa verba somam pelo menos mais R$ 60 milhões em emendas da bancada federal e outro montante de doações em dinheiro e equipamentos de empresários, instituições públicas e privadas, além de doações individuais.

Nesta entrevista, o secretário de Estado de Saúde Pública Cipriano Maia fala sobre projeções de mortos, estrutura, busca por leitos e recursos, hospital de Campanha e o legado da pandemia para o mundo, para o Brasil e, em especial, para o Rio Grande do Norte:

Agência Saiba Mais: “Dificuldade” e “problema” são duas palavras corriqueiras quando se debate saúde pública no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Norte. Até aqui, com 2.261 pacientes suspeitos, 215 casos confirmados e seis mortes, o sistema tem dado conta ou já chegamos ao limite ?

Cipriano Maia: Até agora temos dado conta de atender as demandas porque, principalmente porque boa parte dos pacientes têm sido atendidos nos serviços privados em função de que muitos pacientes oriundos de extratos de maior renda da sociedade contraíram a doença em viagens, congressos, inclusive profissionais de saúde e boa parte tem sido atendida no setor privada. Em relação ao setor publico estamos ativando os leitos previstos no Plano de Contingenciamento e até então não temos tido o esgotamento dessa capacidade.

Pesquisadores entrevistados pela agência Saiba Mais que desenvolveram um modelo para prever o comportamento da Covid-19 no Estado afirmaram que o pico da doença está previsto para o final de abril. É com esse prognóstico que a Sesap trabalha ? As ações que vem sendo tomadas são no sentido de suportar o período de pico ?

Exatamente. Estamos acelerando a implementação dos leitos que já começaram a ocorrer através do hospital Giselda Trigueiro e terá sequencia com a ativação dos leitos do hospital da Polícia Militar e João Machado em Natal, do hospital Rafael Fernandes em Mossoró, que terá ativação de leitos na UTI já nesse fim de semana, depois em hospitais filantrópicos contratados pelo SUS e também hospitais privados. A tendência é essa de que o crescimento do número de casos será fins de abril e primeira quinzena de maio e estamos nessa corrida para implantar aumento de leitos através de hospitais de campanha como está sendo feito por alguns municípios e também pelo governo do Estado.

O secretário-adjunto Petrônio Spinelli afirmou que o Governo trabalha com a projeção de 300 mortes por Covid-19 nos próximos 30 dias. É possível reduzir isso ?

A projeção de óbitos está ancorada em modelos matemáticos estatísticos que leva em conta proporção de infectados dependendo do cenário de contenção, de supressão e inação, que é não fazer nada, onde você tem estimativa de infectados, de doentes graves e de letalidade que já é relativamente conhecida porque no Brasil esses números têm seguido essa tendência. A única forma de reduzir essa mortalidade é diminuir o contágio, a transmissão, com medidas de intensificar o isolamento social, a contenção. O desejado seria fazer a supressão, como alguns países na Europa já têm feito. Mas isso dependeria de uma decisão do estado nacional para que realmente tivéssemos a restrição maior ainda da circulação das pessoas e dos contatos. Os decretos e as portarias dos estados fortalecem isso, mas exigiria um reforço de medidas de âmbito nacional para que pudéssemos efetivar isso.

Das quatro mortes confirmadas, três foram em Mossoró, o equivalente a 75%. Qual a explicação para esses números ? Problemas em relação ao isolamento social ? Rede de saúde ineficiente ? Diante desses números há previsão de mais investimento em Mossoró pelo Estado ?

Na verdade já temos seis óbitos confirmados. Além de Mossoró, tivemos em Tenente Ananias e Taipu. A explicação da maior ocorrência em Mossoró, uma das hipóteses é a proximidade com o Ceará, que realmente tem o maior número de casos confirmados no nordeste e esse contato proximal pode ter explicado o maior numero de casos e, proporcional, o número óbitos. Nossa proposta é ativar os 20 leitos do hospital Tarcísio Maia, até 18 leitos de semi-intensivo no hospital Rafael Fernandes, pelo menos mais 10 leitos de UTI na APAMIM, uma instituição filantrópica conveniada ao SUS, além de contratação de leitos no hospital privado em Mossoró tanto de UTI como de observação, com isso ampliando a oferta de leitos para atendimento a Covid. Na região, em torno de 100 leitos.

Em que pese as dificuldades, há muita solidariedade também. Empresários, sindicatos, entidades, voluntários individuais ou em grupo estão organizando doações de equipamentos como respiradores, insumos, EPIs. Essas doações têm ajudado a suprir as deficiências do sistema ? Tem como quantificar o que já chegou ?

Essa solidariedade, o apoio de todas as organizações, do poder judiciário, do Ministério Público, empresariado, entidades sindicais, das pessoas têm sido fundamental para que a gente possa fortalecer nosso sistema de saúde e superar algumas debilidades, dificuldades que se impõe inclusive pela restrição do mercado. A dificuldade de adquirir EPI, respiradores, insumo, hoje está presente em todos os estados, no mercado nacional, em função da disputa internacional onde os países ricos tem bloqueado vendas, tem restringido fluxo de mercadoria tudo isso dificultando mais ainda para as regiões mais fora do eixo sul, sudeste no caso do Brasil. E essa solidariedade, doações têm sido importantes para suprir deficiências imediatas que vão se refletir na abertura de alguns leitos seja com respiradores que foram recuperados, implementos que às vezes você não tinha agilidade de compra e que certamente contribuiriam e muito para acelerar a abertura desses leitos. Bem como, no caso dos EPIs que têm sido produzido por várias iniciativas como a do SESI na construção de máscaras de proteção facial e várias outras iniciativas que tem chegado, doações de vestuários para os hospitais. Essa quantificação estamos levantando, não dá pra informar ainda, mas será disponibilizada em breve nas páginas das secretarias e anunciadas no sentido de reconhecer essas instituições que têm traduzido grandes contribuições. Por exemplo, muitos juizados têm destinado recursos pecuniários para hospitais específicos ou fundo estadual de Saúde. O Ministério Público do Trabalho tem reorientado recursos de multas também para fundos ou para hospitais que irão em muito contribuir para a gente estar arcando com esse volume de despesa necessária para incrementar leitos.

Quantos leitos só para pacientes diagnosticados com a Covid-19 estão previstos, ao menos em Natal ?

A expansão de leitos para o enfrentamento do Covid num primeiro momento previa 171 leitos com 83 de UTI, 86 de UCI e 2 de leitos clínicos. Depois essa expansão foi atualizada com várias possibilidades e chega a um total de 600 leitos em todas as regiões, sendo 151 de UCI, 166 de UTI e 273 de leitos clínicos. Lógico que essa projeção, para se concretizar, depende de respiradores e monitores, depende de ter pessoal suficiente que vem sendo incorporado com chamamento do concurso, chamamento emergencial, com contratos de cooperativas e empresas de serviços profissionais médicos que já prestam serviço para o Estado e também com a garantia dos EPIs. Mas além desses 600 leitos da rede pública, que inclui oferta dos municípios todos, inclusive dos hospitais de campanha previstos em Natal, São Gonçalo do Amarante, o do Governo do Estado na Arena das Dunas e também leitos contratados na rede privada. Temos cobrado da rede privada incremento de leitos para atender os usuários e beneficiários de planos de saúde e alguns já tem apresentado expansão de ofertas para usuários e planos de contratos de saúde. Então, além da oferta pública também temos esse incremento da oferta privada. Contudo, se caminharmos para o pior cenário, teremos risco de sobrecarga e estrangulamento do sistema assistencial.

O RN terá fabricação própria de EPIs e ventiladores ?

 Realmente o Estado tem limites. O que tem havido são iniciativas junto ao parque da indústria de confecções no sentido de produzir máscaras. Mas sabemos que há restrição de matéria-prima para máscaras cirúrgicas e de proteção para os profissionais. No entanto, tem havido estimulo para produção de máscara para uso pessoal, a chamada mascara de barreira que pode ser feita até com tecido. Em relação a EPI houve alguma oferta de possibilidades a partir de experiência de universidades públicas, mas não sabemos se haverá tempo de concretizar essa produção em escala para vir atender as demandas do sistema.

O Giselda Trigueiro não possui tomógrafo, o que tem levado alguns pacientes para o Huol. Há previsão desse equipamento chegar ? A falta de um tomógrafo na rede estadual tem atrasado também o resultado dos exames ?

Realmente o Giselda não tem tomógrafo e, em caso de necessidade de diagnostico, o que tem é a remoção do paciente para um dos hospitais públicos da rede, como Walfredo Gurgel como o hospital Universitário, em breve conseguiremos ativar o hospital da Polícia Militar que também tem tomógrafo, então esse suporte dentro da rede pública ou privada contratada, já é previsto e ocorre no cotidiano. Mas não acreditamos que isso será limitante para a garantia da assistência.

A indicação da OMS é testar mesmo os casos menos sintomáticos e contactantes de pacientes positivos. Estamos nos encaminhando para isso ou continuaremos testando apenas aqueles que deram entrada no pronto-socorro com sintomas moderados a graves?

Em relação à testagem, temos um cenário bastante favorável no que diz respeito aos kits de PCR em tempo real que tem feito com que o Estado proporcionalmente tenha um número bem maior de confirmados que se deve a esse potencial ampliado de testagem desde que começamos a realizá-los na parceria com o Instituto de Medicina Tropical, que tem um laboratório e tem oportunizado isso. O limite para ampliação dessa testagem do vírus através do PCR na verdade são os kits que não estão disponíveis no mercado. Temos utilizado os kits distribuídos pelo Ministério da Saúde e aqueles adquiridos pelo Instituto de Medicina Tropical. Contudo, tem sido utilizados com critérios, seja aqueles recomendados pelo MS ou aqueles que definimos no âmbito da secretaria estadual, o que vem dando uma boa ideia da abrangência da epidemia no Estado. Em relação aos testes rápidos que é outra modalidade, ou seja, você vai testar o anticorpo que o indivíduo já desenvolveu após o contato com o vírus, ele só dá uma positivação mais segura a partir do sétimo ou nono dia. Então, começamos a receber, vamos fazer primeiro uma validação desses testes e a partir daí vamos aplicá-los segundo a recomendação do Ministério da Saúde. Essa primeira remessa é muito limitada, vamos utilizá-los para fazer testes com profissionais de saúde e agentes do sistema de segurança com base em amostragens e nas recomendações que o Ministério está para emitir.

Qual a quantidade de testes/dia que o governo do estado está realizando ?

Estamos fazendo em torno de 300 exames por dia, a resposta tem sido muito rápida. Não tem mais havido envio para o Instituto Evandro Chagas e isso se expressa em número de positivos no Estado, que já temos 215 casos confirmados e estamos razoavelmente bem nesse componente de confirmação diagnosticada pelo PCR. A questão do teste rápido vai depender de ter testes rápidos disponíveis, que são usados mais para descartar infecção no sétimo ou nono dia e para controlar os profissionais que tiveram problemas respiratórios que não tiveram confirmação pelo PCR.

Estamos vendo importantes iniciativas de universidades como Unicamp na construção de respiradores e testes. O governo do estado está se movimentando para aprender a tecnologia ou adquirir esses produtos?

Temos buscado através do consórcio Nordeste trabalhar formas de aquisição tanto no mercado nacional como internacional e, em surgindo oferta, não vacilaremos em adquirir esses insumos e equipamentos necessários a assegurar o acompanhamento da epidemia e diagnostico de casos e também a organização da assistência. Mas concretamente o que temos acompanhado no diálogo com os secretários estaduais de saúde do país é que essa oferta não está disponível. Esses anúncios são possibilidades da produção, mas não existe concretamente. Creio que uma grande iniciativa, que dependeria de ação do governo federal, era fazer uma reconversão produtiva do parque industrial brasileiro na área de eletroeletrônica que pudesse estar fazendo essa produção de forma acelerada, inclusive com a quebra de patentes, se fosse o caso, para contribuir e salvar vidas. Aqui no Estado o que temos feito é um inventário de todos os respiradores existentes iniciado com colaboração da iniciativa privada na reparação, conserto e manutenção de equipamentos que estava fora de uso. E isso tem oportunizado a instalação antecipada de muitos leitos que não conseguiríamos se não tivéssemos recuperado esses equipamentos.

É possível traçar um perfil dos casos no RN ? A ciência tem falado que os mais idosos morrem, além das pessoas com comorbidade. Aqui no Estado as vítimas tinham 61, 48 e 23 anos. O que dá pra falar sobre o perfil das vítimas ?

No geral a gente pode ter saído um pouco da curva, mas no geral atinge pessoas mais acima dos 60 anos, quanto mais avançada a faixa de idade, maior o risco de morte e também as comorbidades. Mas isso não significa que as demais pessoas não possam ter quadros graves e críticos e portanto estarem sujeitos ao risco de morrer. Contudo, temos reforçado e reiterado a importância das pessoas se protegerem e protegerem aos demais, principalmente os mais vulneráveis e idosos com medidos que venham protege-los da contaminação.

Por óbvio, os profissionais de saúde têm mais risco de serem infectados. O último óbito registrado foi de um enfermeiro. Dos casos confirmados, quantos são da área de saúde ?

O pequeno número de casos ainda não dá pra delinear perfil delineado entre os óbitos. Mas sabemos que a proporção dos profissionais de saúde contaminada é alta em todos os países. Contudo, aqui essa proporção que nos primeiros números chegava a quase um terço creio que tenha caído em função do aumento do numero de confirmações. Não era profissionais que estavam na frente assistencial, mas profissionais de saúde que tinham se contaminado em viagem para a Europa ou para o Sul ou sudeste do país ou participado de eventos profissionais. Então esse é um dado que a gente ainda vai aprimorar detalhes para ter esse perfil. Ainda assim, estamos reforçando as medidas de proteção e treinamento dos profissionais para diminuir os riscos durante os processo assistencial. E com certeza os relatos das ocorrência em outros países tem reforçado essa necessidade de melhorar os processos de proteção de biossegurança e manuseio e, com isso, diminuir a contaminação dos profissionais.

Há médicos e especialistas afirmando que a subnotificação é muito alta no país. Como a Sesap tem lidado com isso ? A orientação para as pessoas que sentirem algum sintoma segue sendo a procura, primeiro, da atenção básica e chegar à rede estadual apenas por recomendação da unidade de saúde ?

A recomendação é primeiro: se tem sintomas a leves permanecer em casa, fazer isolamento, quarentena, proteger as pessoas da casa para evitar contaminação domiciliar. Segundo, se tiver algum sinal de alarme, desconforto respiratório procurar o serviço de saúde, atenção básica inicialmente onde possa ser avaliado ou unidade de pronto-atendimento dependendo da situação do alerta e, partir daí, será encaminhado para o serviço de internação, se for o caso. Existe todo o processo de regulação onde as unidades que fazem o atendimento de primeira porta já tem o conhecimento e vai ser incrementado a partir da próxima semana. Então também tem o serviço de teleatendimento, tanto do Ministério da Saúde, como do Governo do Estado onde você pode estar fazendo uma testagem dos seus sintomas e respondendo questão que já vão te orientar sobre que conduta a tomar.

Quanto o Governo do Estado já recebeu do Governo Federal para a área de saúde e como esses recursos serão usados ?

Recebemos duas portarias, uma que descentralizou R$ 7 milhões, alocados no fundo estadual de saúde. Outra de R$ 10 milhões, dos quais pouco mais de R$ 7 milhões foi descentralizado para todos os municípios do Estado, com per capta de R$ 2 por município. Portanto, o que ficou no fundo estadual é em torno de R$ 10 milhões, o que é completamente insuficiente para o volume de despesas que o enfrentamento de despesas que o enfrentamento da epidemia nos coloca. Felizmente a bancada federal redirecionou um volume de recursos de emenda que vai incrementar o fundo de enfrentamento ao Covid e temos tido também doações, como já falei, dos juizados, do Ministério Público, de acordos na Justiça, além de doações pessoais. Houve também de distribuição de uma cota de equipamentos pequenos, distribuição de leitos de UTI, que serão alocadas em uma das nossas UTIs que serão abertas e a habilitação dos leitos que vão estar na rede assistencial também terão alocação de recursos para seu custeio. Mas todo esse balanço ainda mostra que os recursos são completamente insuficientes para o incremento da demanda de leitos que teremos. Basta ter uma ideia de que hoje o custo médio de um leito contratado pelo SUS no Rio Grande do Norte é superior a R$ 3 mil por dia. Se você vai incrementar um conjunto de mais de 200 leitos dá pra ter uma ideia do custo mensal e ao longo do curso da epidemia que ainda não temos ideia do tempo que permanecerá.

As declarações do presidente Jair Bolsonaro têm atrapalhado os Estados de alguma forma na condução do processo de enfrentamento à pandemia ?

Os secretários de saúde já se posicionaram no sentido de defender as recomendações da Organização Mundial de Saúde e da própria equipe técnica do Ministério de Saúde no sentido de fortalecer o isolamento e distanciamento social, evitar aglomerações e retardar o contagio para que a epidemia possa ter um curso mais alongado e não venha sobrecarregar o sistema de saúde e evitar que as pessoas tenham assistência devida. O que esperávamos da presidência da República é que houvesse uma condução organizada em parceria e colaboração com os estados, com os municípios, com todos os poderes, para mostrar essa unidade e uma atuação coordenada do Estado nacional com os entes federativos para ganhar a confiança da população, assegurando as medidas de assistência social, de benefício, como a renda de cidadania que o Congresso aprovou, para que as pessoas tenham a garantia da sua subsistência, de sua condição mínima de vida, e não entrar em situação de desespero e de carência que vem agudizar a miséria e a pobreza que já graça em boa parte da população brasileira.

Como esse comitê científico criado pelo Consórcio Nordeste pode ajudar os estados da região ?

Tem sido extremamente valioso para estar analisando e elaborando recomendações fundamentadas cientificamente, tecnicamente. E no caso do Consorcio Nordeste teremos um dialogo maior entre nomes da ciência nacional como o ex-ministro Sérgio Rezende, o cientista Miguel Nicolelis. E este consórcio reunido diversos cientistas de vários estados do Nordeste tem possibilidade de ampliar a compreensão da análise do curso da epidemia, da rede de assistência, dialogando com experiências cientificas internacionais e orientando e fazendo recomendações tanto para os governos como para organização de ações de vigilância de todos os estados de forma cooperativa e colaborativa.

Há alguma parceria para aquisição de equipamentos ou insumos firmada ou em processo de realização com a China ou outro país ?

Há articulação através do Consórcio Nordeste negociação com o governo da China outras organizações comerciais nesse campo e algumas negociações em contratação com recursos do governo cidadão que tem financiamento do Banco Mundial.

O governo do Estado chegou a anunciar que utilizaria a estrutura do PAPI e mudou de ideia. O que aconteceu ?

O que ocorreu é que ao adentrarmos no edifício e verificamos as condições se avaliou que a recuperação teria um custo bem maior e mais demorado do que se você instalasse um hospital de Campanha, no caso da Arena das Dunas, que já havia sido ofertada ao Governo do Estado em condições mais viáveis do que aquela estrutura hospitalar que se encontrava bastante deteriorada.

Na guerra contra o Coronavírus só se ouve falar na rede pública de saúde. Não está faltando mais parceria da rede privada de saúde para enfrentar essa guerra no Rio Grande do Norte ? De que forma a rede privada poderia contribuir mais ?

Em relação à rede privada, temos tido diálogo, já tivemos reuniões com diretores de operadoras de planos e hospitais onde estabelecemos processo de parceria. Solicitamos que os hospitais fizessem seu plano de contingência e pudesse apresentar ampliação de leitos para atender os usuários da saúde suplementar e avaliar a possibilidade de ofertar leitos para a rede publica poder contratar dentro da disponibilidade de recursos disponíveis. Então estamos fazendo esse diálogo permanente, inclusive monitorando a ocupação de leitos, e esperamos que ela venha a responder a contento, a manifestação de todos os diretores foi nesse sentido às demandas dos usuários da saúde suplementar.

Você tomou conhecimento que o Ministério Público abriu investigação para apurar licitação para a contratação da OS que vai montar o hospital de campanha na Arena das Dunas ?* Segundo a imprensa, falta publicidade e a comprovação da viabilidade técnica do hospital. O que você pode dizer sobre esse processo e a importância desse hospital na Arena das Dunas ?

A implantação do hospital de campanha da Arena das Dunas teve estudo de viabilidade técnica inclusive por parte de equipes de arquitetura hospitalar, da equipe da coordenação dos hospitais da secretaria que mostraram as condições favoráveis à implantação desse hospital com custo muito baixo, o custo de implantação dos leitos fica em torno de R$ 3 milhões. E toda celeuma se deveu em função de uma atitude de transparência. Quando fizemos uma chamada pública para contratar instituições filantrópicas ou organizações assistenciais que pudessem ofertar serviços fechados de pacote com equipamentos, insumos, EPIs, profissionais, coisa que hoje temos escassez não só nos Rio Grande do Norte como em todo o Brasil. Diferente de outros estados, que fizeram contratação direta, sem chamada pública, de OS, de todo tipo de organização, implantando hospitais de campanha. Basta puxar no Google que você vai encontrar mais de 40 hospitais de campanha sendo implantados no Brasil por estados e municípios, que esse não é um fato inusitado. A diferença é que nós fizemos uma chamada pública apresentando uma estimativa de custos com base na experiência de outros estados que, inclusive, mostram um custo, em média, menor do que aquele praticado pelo Estado ao comprar leitos SUS na rede privada.

*A entrevista ocorreu antes do acordo de cooperação entre o Governo do Estado e o Ministério Público para a implantação do Hospital de Campanha.

O Estado pode prescindir de um hospital de campanha como esse ?

A expansão desses leitos é essencial para complementar a oferta de leitos numa situação de pico da epidemia que está previsto para ocorrer no inicio de maio e realmente traria o aporte de quase 100 leitos, mais de 50 de UTI e os demais leitos de observação que viriam para ampliar a capacidade assistencial na região metropolitana de Natal, se somando à estrutura do hospital de campanha do município e dos demais municípios da região metropolitana.

Como estudioso e militante do SUS, qual sua avaliação sobre o sistema em meio à esse pandemia no Brasil ? É possível imaginar um cenário de guerra como esse sem o SUS ?

O Sistema Único de Saúde no Brasil está sendo posto à prova e tem mostrado a diferença dos países que tem sistema de saúde organizado. No nosso caso, o SUS iniciando pela atuação competente e articulada da vigilância em saúde que tem tipo um papel fundamental de identificar os primeiros casos, de promover a notificação, organização de todo o processo de vigilância, de quarentena e de monitoramento da evolução da epidemia. Segundo, a organização da rede assistencial mobilizando recurso das três esferas, municípios, estado e organismos federais, como os hospitais universitários. Então a importância de se ter um sistema é uma diferença fundamental que o Brasil apresenta. Em outros momentos epidêmicos, como na epidemia do H1N1 já mostrou essa efetividade e nós enfrentamos mesmo contexto de desfinanciamento, desestruturação do Estado, que encontramos um sistema completamente desestruturado, desfinanciado, mas temos mobilizado profissionais nas varias esferas de forma cooperativa avançado para fazermos o melhor no contexto desafiador para todos os sistemas de saúde do mundo. Quer dizer, mesmos os sistemas estruturados entraram em colapso. Nós estamos aqui acelerando os esforços, é bom destacar que aqui o Governo do Rio Grande do Norte assumiu a prioridade da saúde, mobilizou todo o Governo, todos os seus recursos para fortalecer as ações do SUS, da Sesap, com recursos, pessoal, saberes e dessa forma enfrentar da melhor forma a epidemia e mais do que isso: termos um ganho, um legado que fica em termos de estruturação do sistema como a ampliação da oferta de leitos de UTI e a organização do sistema nas várias regiões de saúde através da cooperação com os municípios.

Na sua avaliação, qual a principal lição que essa pandemia tem dado à nossa sociedade ?

A pandemia tem trazido uma lição para todo o mundo. De que estamos no mesmo barco, de que a solidariedade é fundamental para a convivência em sociedade, de que o bem comum e público é essencial ser assegurado pelo Estado, para que tenhamos direitos garantidos e possamos assim conviver de forma mais harmônica com condições básicas de vida para todos. Talvez a grande lição que a pandemia vai nos trazer é de que precisamos repensar nossas formas de convivência e reconstruir nossos modos de sociabilidade para que venhamos a ter um mundo mais justo, humano, fraterno, portanto, um mundo melhor para se viver.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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