DEMOCRACIA

Ciro provoca, petistas rebatem e “barraco” marca debate em Recife

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O debate sobre Segurança Pública mais aguardado do I Congresso Nacional dos Policiais Antifascismo terminou em confusão generalizada entre o ex-candidato à presidência da República Ciro Gomes (PDT), a deputada federal Maria do Rosário (PT) e simpatizantes do ex-presidente Lula.

O evento foi realizado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Além de Ciro e de Maria do Rosário, a mesa principal contou ainda com a presença do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco Áureo Cisneiro, e do delegado e coordenador do movimento nacional dos policiais Antifascismo Orlando Zacconi. O Congresso termina nesta terça-feira (28). A agência Saiba Mais está cobrindo o evento.

O auditório estava dividido entre jovens simpatizantes do PDT, PT e PSOL, além de estudantes da própria UFPE e policiais do movimento Antifascismo. Um telão foi instalado fora do auditório para os que não conseguiram entrar.

Foi o primeiro encontro público de representantes de centro-esquerda após as eleições de 2018. Era o momento de lamber as feridas da derrota eleitoral. Em fevereiro deste ano, Ciro já havia sido vaiado na Bienal da União Nacional dos Estudantes após criticar o ex-presidente Lula, mas em Recife a mesma era bastante representativa. Estavam ali representantes do PDT (Ciro Gomes), PT (Maria do Rosário) e PSOL (Marcelo Freixo). A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) foi convidada, mas não pôde comparecer. De surpresa, o metalúrgico e ex-candidato à presidência da República pelo PSTU Zé Maria também apareceu e fez uma saudação ao público que prestigiou o Congresso.

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(Foto: @ninjafotografia)

Último a falar, Ciro Gomes avisou desde o início que faria provocações e não mentiu. Ele disse que seria o chato da noite e não falou nada que já não vinha dizendo desde que as eleições terminaram. Só quem não acompanha a trajetória e as estratégias eleitorais do ex-governador do Ceará não imaginaria o que iria acontecer durante o debate.

O quadro de tensão já começou a se desenhar nos discursos de Marcelo Freixo e Maria do Rosário, que defenderam a unidade do campo progressista na luta contra o fascismo. Era um recado claro ao debatedor que estava na ponta direita da mesa.

Ciro olhava, esboçava um sorriso e escutava.

Quando pegou o microfone, o líder do PDT fez elogios aos colegas, especialmente a Marcelo Freixo, a quem reconheceu como um dos melhores quadros da política nacional. Mas repetiu que estava ali para provocar o debate. A estratégia de Ciro Gomes é simples: de olho em 2022, ele avança sobre os votos do PT apostando no desgaste da inviabilidade eleitoral do ex-presidente Lula, preso há mais de um ano em Curitiba após a condenação em 2ª instância no polêmico processo do tríplex do Guarujá.

O PDtista iniciou o discurso lembrando que houve um salto na população carcerária durante os governos do PT, saindo de 250 mil para 750 mil. E fechou a análise destacando que a gestão petista não fez nada pela segurança pública do país:

– Vocês sabem o que mudou na Segurança Pública do país entre 2002 e 2016 ? Nada ! E se mudou, foi para pior”, disse.

Sobre a “unidade” sugerida pelos debatedores que o antecederam, foi curto e grosso:

“Unidade para quê, cara-pálida ? Para fazer o mesmo ? Não conte comigo, não. Dessa unidade estou fora para sempre”, afirmou já subindo o tom e dividindo o público.

A primeira reação negativa mais incisiva sobre a fala de Gomes partiu da deputada Maria Rosário quando o representante do PDT disse que não via diferença entre os projetos de Segurança Pública dos governos Lula e Bolsonaro.

Com as queixas de Rosário, Ciro passou o microfone para a deputada que fez uma defesa do governo petista. Na réplica, disse que não falara mal do ex-presidente e passou a comentar a condição de preso condenado de Lula.

A cada menção ao nome do ex-presidente, Maria do Rosário interrompia e Ciro lhe passava o microfone em tom de deboche.

– “Sabe porque eu falo ? É porque o presidente Lula não está aqui para se defender”, retrucou a parlamentar do Rio Grande do Sul, aplaudida pelos petistas da plateia.

(foto: @ninjafotografia)

Àquela altura, o relógio chegava perto das 23h e o debate sobre Segurança Pública já havia descambado para as feridas eleitorais ainda não cicatrizadas de 2018 e as autocríticas que parte da esquerda cobra do PT.

Era uma autêntica lavagem de roupa suja com transmissão ao vivo pelo coletivo Mídia Ninja. As provocações de Ciro Gomes então incitaram a plateia, que passou a provocar o ex-presidenciável.

 – Se juntasse seus votos e os do Haddad o Brasil não estava nessa situação”, gritou um estudante.

Ciro então passou a criticar a escolha de Haddad como candidato em substituição a Lula e incendiou o debate quando disse que para isolá-lo da disputa presidencial, o PT sacrificou a candidatura ao governo de Pernambuco de Marília Arraes, que liderava as pesquisas de intenção de voto (durante a pré-campanha eleitoral, o PDT vinha costurando uma aliança com o PSB, mas um acordo nos bastidores do PT com os socialistas, chancelado por Lula, garantiu apoio à candidatura de Haddad sacrificando várias candidaturas estaduais onde o PSB tinha chance de vencer a disputa).

Os ânimos se exaltaram e Ciro subiu o tom ainda mais quando Maria do Rosário disse que ele ainda estava magoado com o resultado eleitoral de 2018:

“Você está magoado e a mágoa não é boa conselheira”, afirmou para logo em seguida ouvir a resposta de Gomes: “Pode dizer que estou magoado. Satanize a o carteiro, mas agora leia a carta. O PT sacrificou Marília Arraes aqui em Pernambuco. Bolsonaro se elegeu por erro nosso ! Não vou mudar discurso porque quem não vê a realidade é louco”, disse com parte do auditório já de pé.

O tempo fechou de vez quando um policial de Alagoas pediu para Ciro “parar de chorar” e voltar para o debate sobre Segurança Pública. O ex-candidato do PDT rebateu a provocação pedindo para o público esquecer a paixão por Lula e pensar com a cabeça:

“É a realidade. Unidade é o cacete, eu conheço vocês !”, gritou.

O ex-comandante da polícia militar de Alagoas,  um coronel da reserva, entendeu a frase como um desrespeito à Maria do Rosário e os dois começaram bater boca.

Ciro Gomes ainda tentou explicar que cacete, no Ceará, era um pedaço de pau e perdeu completamente a razão quando passou a ofender o policial que, da plateia, falava com o dedo apontado para o líder do PDT:

– Coloque esse dedo no bolso, seu bosta ! Coloque esse dedo no bolso, seu merda ! Então venha aqui, agora!”, gritava Ciro Gomes, ao microfone, chamando o policial para a briga.

(Foto: @ninjafotografia)

Já passava das 23h, a plateia estava de pé, um tumulto foi formado em frente à mesa dos debatedores e o mediador tentava controlar os ânimos. Da plateia, o antropólogo Luiz Eduardo Soares pediu a palavra como homem mais velho do evento e em tom pacificador explicou que o inimigo de todos ali é outro e, exaltando as trajetórias dos componentes da mesa, afirmou que aquele era um momento importante de exercício da democracia.

Quando tudo parecia levar para o encerramento do evento, a organização do Congresso decidiu voltar abrindo o debate para falas de cinco policiais do movimento antifascismo e as considerações finais dos palestrantes.

Com todos mais calmos, os policiais que se revezaram ao microfone destacaram a importância daquele momento para a construção do movimento e a necessidade dos partidos de esquerda se abrirem para as pautas de Segurança Pública e Direitos Humanos. A maioria se queixou da invisibilidade do movimento dentro do próprio campo de esquerda.

Nas considerações finais, Ciro Gomes, Maria do Rosário e Marcelo Freixo exaltaram a importância dos policiais antifascismo.

Principal provocador da noite, o representante do PDT disse que o papel dele era suscitar os debates:

– Não faço mais discurso de sobremesa, meu papel é suscitar debates. Não vim falar para corações, mas para mentes. Se isso fere alguém, isso é paixão. Quem me convidou sabe que eu vim para dizer o que eu penso, e não o que os outros querem ouvir”, disse.

Maria do Rosário lembrou o que é o fascismo e o desafio que o campo progressista tem pela frente:

– Se vocês são os movimentos antifascismo é bom lembrar que o fascismo é o da direita e quer a eliminação do outro. Diferente de nós”, comentou.

O deputado federal Marcelo Freixo admitiu que ficou em pânico quando o clima esquentou.

– Estou trabalhando muito para a unidade. E não é uma unidade eleitoral, mas de luta. Fiquei em pânico. Pensei comigo: “não é possível que isso vai acabar assim”. Era uma mesa de risco desde o início. E não encarar (nossas divergências) não é dar trato a elas. Somos minoria, temos um problema social a tratar. Na maioria das polícias somos estranhos. O desafio do movimento dos policias antifascismo é construir uma alternativa”, encerrou.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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