OPINIÃO

Clara Nunes: arte, estética e engajamento 

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Esse mês completam 35 anos que o Brasil perdeu uma das maiores artistas de sua historia: Clara Nunes (1942-1983). Como autora que sou de uma Tese de Doutorado sobre a obra dessa cantora magnífica, além de uma fã apaixonada de toda sua trajetória, não podia não brindá-la na minha coluna nos 35 anos de saudades de Clara Nunes.

Meu encontro com Clara Nunes foi, posso dizer, quase que de amor à primeira vista. Aquela estética, aquele carisma, aquela atitude engajada, “despreconceitualizada”, consciente do lugar social de destaque para promover transformações do artista de massa que ela era e, portanto, fazendo jus ao seu mais conhecido apelido: “Guerreira”. Clara lutou contra as desigualdades sociais do Brasil, o preconceito contra os praticantes de religiões afro-brasileiras e contra a ditadura militar, configurando-se a atitude de uma artista engajada, consciente, que buscava um mundo e um Brasil melhor para todos.

Eu já era ativista de movimento social desde os 12 anos, quando em 1993 fiz minha estreia como militante do movimento estudantil secundarista (na época, os grêmios estudantis estavam sendo refundados depois dos anos de chumbo), prossegui no movimento estudantil universitário na primeira década desse século, mas posso dizer que foi somente depois de travar contato com a obra de Clara Nunes que ampliei minha consciência política, cidadã e, acima de tudo, atentei para o incrível potencial da arte de protesto como geradora de questionamentos, de mudanças, nos hábitos sociais na vida das pessoas, promovendo uma tomada de consciência ao mesmo tempo que fornecendo um alento existencial através do acalanto da arte.

De tão bonita e inspiradora biografia tragicamente interrompida pela morte precoce aos 40 anos em tão infeliz circunstância, como foi a da partida de Clara, resta-nos a saudade da voz de ouro da Sabiá (um dos seus muitos apelidos carinhosos), seu legado de respeito à diversidade, às diferenças culturais, regionais, religiosas, étnicas que sempre foram uma marca indelével do trabalho e dos valores cultivados por essa artista icônica.

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Num Brasil que hoje flerta com o fascismo a ponto de dar quase 20 pontos de intenção de voto ao candidato nazista tupiniquim (prefiro sequer citar o nome de tal escroque), que falta faz uma Clara Nunes cantando o afro, o pobre, a mulher, o samba, o nordestino, o povo simples. Apesar do risco de realmente jamais sabermos totalmente como ela mesma se posicionaria, creio que Clara Nunes hoje estaria contra toda essa agenda anti-povo que o governo Temer tem nos imposto, justamente por ela ter construindo uma trajetória que tinha como principal objetivo cantar as agruras e lutas do nosso povo:

De acordo com Clara: “Eu tenho uma responsabilidade, um compromisso muito grande com meu público… Isso não é de hoje, eu tenho que ser sincera com o povo, não posso enganá-lo, tenho que cantar o que eles precisam ouvir. Eu venho do povo, eu falo pra o povo, eu sou, essencialmente, povo”

Diferentemente do que a maioria dos demagogos da arte e da política de hoje possam afirmar, Clara Nunes, pelo seu exemplo, sua história, sua origem, sua atitude, era sim, alguém do povo, não era um discurso abstrato era algo visceral. Clara Nunes vinha do povo de fato, uma artista de origem socioeconômica muito humilde, mas dotada da grandiosidade que os grandes seres humanos exalam pela sua simples presença. Não por acaso seu apelido póstumo, “Um ser de luz”, alguém que era considerada por todos que tiveram a honra de partilhar de sua convivência em vida como uma pessoa que iluminava os lugares e as pessoas com sua atitude leve, bela, inspiradora, engajada.

Portanto, para celebrar os 35 anos de saudades da  “guerreira sabiá de luz”, anuncio nesse espaço a campanha de pré-venda do meu livro sobre Clara Nunes, resultado da minha Tese de Doutorado em Ciências Sociais pela UFRN sobre a vida e obra dessa artista, além de um tributo a Clara Nunes, a realizar-se no lançamento do livro (previsto para setembro) quando junto com o lançamento do livro teremos interpretes locais cantando Clara Nunes, além da exposição da escultura de Clara Nunes que está em processo de confecção pelo meu amigo e grande artista Guaracy Gabriel. Mantenham-se informados, setembro chega rápido, e venham participar, irão adorar, posso assegurar.

Aos que já conhecem a obra de Clara, muito axé, pois sabem o quanto ela representa tudo de bom. Aos que ainda não conhecem, não percam tempo, corram pra o youtube e vejam os vídeos dessa linda, incrível, maravilhosa cantora e aprendam com toda lição de vida que sua atitude e obra representam, seu legado, do qual todos somos direta ou indiretamente tributários.

Finalizo com os lindos versos de “Um ser de luz” uma última homenagem do viúvo, grande poeta da MPB, Paulo César Pinheiro e um dos melhores amigos de ambos, Clara e Paulo, o grande sambista João Nogueira, também já falecido:

 

“Um dia,

um ser de luz nasceu,

numa cidade do interior,

e o menino Deus lhe abençoou…

 

De manto branco ao se batizar

Se transformou num sabiá

Dona dos versos de um trovador

E a rainha do seu lugar

 

Sua voz então

A se espalhar

Corria chão

Cruzava o mar

Levada pelo ar

Onde chegava espantava a dor

Com a força do seu cantar

 

Mas aconteceu um dia

Foi que o Menino-Deus chamou

E ela se foi pra cantar

Para além do luar

Onde moram as estrelas

E a gente fica a lembrar

Vendo o céu clarear

Na esperança de vê-la, sabiá!

 

Sabiá

Que falta faz sua alegria

Sem você

Meu canto agora é só melancolia

 

Canta meu sabiá

Voa meu sabiá

Adeus meu sabiá

Até um dia

 

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Historiadora e Militante LGBT

2 Comments

  1. Clara Nunes foi sem dúvida uma das maiores intérpretes da nossa história e tu, Leilane, como grande pesquisadora da vida e obra dessa artista sempre tem muito a dizer sobre sua abrangência e brilhantismo. Parabéns pela coluna e em setembro quero estar lá no lançamento do teu livro!

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