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Policiais garantem que clima é de tranquilidade e não há espaço para golpe ou comemoração de ditadura entre tropas do RN

O golpe militar de 1964, que instalou uma ditadura que durou 21 anos no Brasil (1964 – 1985), aconteceu na madrugada do dia 31 para o 1º de abril. O assunto, que é a tônica do governo Bolsonaro (sem partido) tem sido lembrado com frequência a cada vez que decisões do presidente levam o país ao rumo da instabilidade, seja ela, política, social ou econômica.

Na última segunda (29) a notícia era da morte de um policial militar em Salvador que, depois de um surto no qual atirou contra os próprios colegas com um fuzil, foi atingido e morreu no hospital depois de uma longa tentativa de negociação. A ocorrência se deu no domingo (28), mas na segunda, uma deputada da base aliada do presidente tentou manipular a informação e espalhar que o policial tinha sido morto porque se recusou a prender trabalhadores. A intenção era a de provocar um motim na tropa da polícia militar da Bahia, mas diante da mentira flagrante, a própria deputada retirou a postagem do ar poucas horas depois.

No Rio Grande do Norte, o clima entre os policiais é de tranquilidade, sem espaço para motins ou tentativas de golpe, segundo membros das corporações da Polícia Militar, Civil e Corpo de Bombeiros.

“Não tem clima, nem é o que tem sido abordado dentro do círculo. Claro que há os fanáticos que não enxergam a própria missão que eles têm, mas houve um enfraquecimento de Bolsonaro dentro dos quadros policiais. Claro que esse contexto pode mudar em 2022, alguns mais fanáticos poderiam adoçar ações desse tipo, mas agora os policiais estão desapontados com a Pec 186, a reforma da previdência e a perspectiva de uma reforma administrativa que atingiria os policiais. O mar de rosas que já existiu entre Bolsonaro e os policiais, hoje, já não é mais uma realidade”, conta Pedro Paulo Chê, policial civil que faz parte do grupo de Policiais Antifascistas (Antifas).

A impressão é a mesma de Dalchem Viana, ex-Presidente da Associação de Bombeiros Militares do RN, ex-coordenador do Fórum Estadual de Segurança Pública do RN e ex-coordenador de Mobilização da Associação Nacional de Praças.

“Essa tentativa de mudar a interpretação do que aconteceu na Bahia foi frustrada porque muito das condições mentais e psicológicas dos operadores da segurança pública já são conhecidas pela tropa, então surtos como aquele não são novidade. Outra coisa é que o vídeo circulou entre os policiais e a tentativa de se criar um fato político na tropa não surtiu efeito nacionalmente. Tanto é, que a Feneme [Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais] e outras associações lançaram nota orientando que não deveria ser criado um fato político com essa história”, avalia Dalchem Viana.

O golpe militar de 64, que completou 57 anos nesta quarta (31), é outro assunto que não costuma ter repercussão entre os policiais potiguares.

“Isso é bem esfriado entre os militares estaduais, o clima é de muita tranquilidade até porque as associações não convocaram nenhum ato, nem emitiram nenhuma nota. O clima é bem tranquilo em todo o país, a verdade é essa”, revela Dalchem.

Lembrar o que aconteceu, aliás, parece ser a dificuldade de algumas pessoas, que chegaram a sair às ruas de Natal nesta quarta, pedindo a volta da ditadura.

“As pessoas muitas vezes falam, mas não sabem nem do que estão falando ou não têm noção do terror que aconteceu. O Brasil ficou estarrecido quando começaram a matar os filhos da classe média, mas temos antecedentes. Você conhece alguma tribo indígena no Rio Grande do Norte?”, questiona Roberto Monte, numa referência ao massacre dos indígenas que habitavam o território do Rio Grande do Norte por Domingos Jorge Velho, também responsável por dizimar o quilombo de Zumbi dos Palmares.

Roberto Monte atua na área de direitos humanos desde a década de 80 e preside a Comissão 100 anos Luiz Maranhão.

“A classe média não tá nem aí, mas quando acontece um assalto ela fica nervosa, ao mesmo tempo em que se faz de doida porque na periferia, essa coisa de derrubar porta e entrar atirando sempre aconteceu. Qual a diferença entre o General Girão e um capitão do mato?! Pra quem conhece a história do Brasil, essa é a prática. Isso choca porque uma coisa é você falar de tortura, genocídio e etnocídio como algo distante, mas outra é se dar conta de que muitas vezes isso está acontecendo ao nosso lado. Todo o aparato repressivo no país serve para conter uma possível rebelião das pessoas, contra a emancipação dos povos”, critica Monte em relação ao uso de forças policiais contra a população.

Apesar do longo tempo passado, muito pouco se sabe sobre a história da ditadura no Rio Grande do Norte. Pelo levantamento que vem sendo realizado por Roberto Monte e que será compilado em livro, alguns presos políticos levados para a base aérea de Parnamirim eram torturados com pregos martelados em suas cabeças.

“Em 15 de janeiro de 1953, existia em Natal um prefeito chamado Creso Bezerra. Enquanto as pessoas enlouqueciam no campo de tortura de Parnamirim, Creso que era um outro capitão do mato, estava dando o título de cidadão natalense ao chefe dos torturadores, um coronel chamado Koeler. Estou falando de algo que já tem 68 anos, mas que as pessoas de Natal ainda não sabem o que aconteceu”, exemplifica Roberto Monte.

O pesquisador também lembra que a cada 30 anos, o Brasil costuma passar por golpes. Como exemplo, ele cita o Estado Novo de 1935, 1964 e o golpe de 2016.

“Estamos falando de um processo civilizatório. Essa canalha que mantém a capa de cachorro vira-lata dos impérios e aprendeu a fumar maconha nos Estados Unidos, é hoje quem fala em Deus, pátria e família. É uma grande hipocrisia desse povo travestido de bom rapaz. Você pega um tarado de olho crispado e coloca na capa de um jornal como assassino potencial, mas qual a diferença dele para esse rapaz cheirosinho que passa a vida de quatro sendo peça subserviente desses impérios carcomidos? Espero que de alguma maneira superemos isso”, desabafa Monte, que também comentou sobre a atual situação do Brasil em relação à pandemia de covid-19.

“A desmoralização dos militares veio com a covid e a falta de gerenciamento da vacinação. Mas, eles não estão nem aí para a população, o negócio desses caras é dinheiro e poder! Eles se perderam nesse mundo de mudanças com Brics e Rota da Seda. A pandemia e esse governo de Bolsonaro está mostrando o cheiro de chorume daqueles metidos a limpinhos. É quase uma servidão voluntária dessa classe dominante que sempre furou a fila e está começando a morrer por falta de hospital, porque até quem vai pro Sírio Libanês de jatinho não tá conseguindo vaga! As coisas estão ficando legais, porque estamos podendo vê-las do jeito que elas são! Precisamos é de anticorpos de cidadania e acabar com a goga dessa canalha que se veste de verde”, finaliza Roberto Monte.

Estimativa da organização Human Rights Watch aponta que, pelo menos, 20 mil pessoas foram torturadas no Brasil durante o golpe militar de 1964. Apesar disso, o vice-presidente Hamilton Mourão comemorou os 57 anos da ditadura em suas redes sociais.

Imagem: reprodução redes sociais

Alguns dos potiguares mortos na ditadura militar de 1964:

Foto: Dicionário dos excluídos da história

Anatália de Sousa Alves Melo: nasceu em 9 de julho de 1945, na cidade de Martins. Era filiada ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Foi presa junto com o marido em dezembro de 1972 em Recife, pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Morreu em janeiro de 1973, seu corpo foi encontrado na cela com as partes íntimas carbonizadas. O laudo dizia que ela morreu por enforcamento.

Foto: Dicionário dos excluídos da história

Djalma Maranhão: nasceu em novembro de 1915 em Natal e morreu em 30 de julho de 1971 em Montevidéu, Uruguai. Djalma é tido como um dos mais queridos prefeitos de Natal, também foi jornalista, fundador e diretor de jornais, além de professor de educação física. Militou no Partido Comunista Brasileiro, no Partido Trabalhista Nacional e no Partido Socialista Brasileiro. Com o Golpe de 64, foi deposto da prefeitura. Morreu exilado, aos 56 anos.

Foto: Internet

Édson Neves Quaresma: nasceu na cidade de Itaú em dezembro de 1939 e morreu em São Paulo, em dezembro de 1970. Foi guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária que participou da luta armada contra a Ditadura Militar.

Foto: Dicionário dos excluídos da história

Emmanuel Bezerra dos Santos: nasceu em São Bento do Norte em junho de 1947 e morreu em São Paulo em setembro de 1973. Emmanuel foi estudante, poeta e militante político.

Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa: nasceu em 1950 na cidade de Caicó e morreu em maio de 1973, aos 23 anos, em São Paulo. Era estudante de medicina quando se envolveu com o movimento estudantil, tornando-se militante político.

Hiran de Lima Pereira: nasceu em Caicó em outubro de 1913. Era jornalista, ator, poeta e foi deputado federal. Também foi dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Morreu em São Paulo, em janeiro de 1975.

José Silton Pinheiro: nasceu em maio de 1949 em São José de Mipibu e morreu em dezembro de 1972, no Rio de Janeiro, durante uma ação comandada pelo Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

Foto: Internet

Lígia Maria Salgado Nóbrega: nasceu em julho de 1947 em Natal e morreu em março de 1972 no Rio de Janeiro. Era militante política e integrante da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-PALMARES). Lígia tinha 24 anos e estava grávida de dois meses quando foi executada pelos órgãos de segurança da Ditadura Militar. O episódio ficou conhecido como a Chacina do Quintino.

Foto: arquivo

Luiz Ignácio Maranhão Filho: nasceu em janeiro de 1921 em Natal e não há informações sobre sua morte. Foi advogado, jornalista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, membro do Partido Comunista Brasileiro e deputado estadual pelo Partido Trabalhista Nacional. Foi preso pela primeira vez em Parnamirim no ano de 1952 e torturado pela Aeronáutica. Foi preso mais uma vez até desaparecer em 3 de abril de 1974, em São Paulo.

Virgílio Gomes da Silva: nasceu em agosto de 1933 em Sítio Novo e morreu em setembro de 1969, em São Paulo. Foi metalúrgico e sindicalista, além de guerrilheiro. Entrou para a luta armada e participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Virgílio foi o primeiro preso político a desaparecer depois da edição do Ato Institucional número 5 (AI-5).

Foto: site dhnet

Zoé Lucas de Brito: nasceu em São João do Sabugi em agosto de 1944 e morreu em junho de 1973, em São Paulo. Era professor e militante político contra a ditadura. Sua morte até hoje não foi esclarecida e seu nome consta na lista de desaparecidos políticos no Brasil durante o período do regime Militar.

 

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