CULTURA

Codinome Breno: filme retrata busca pelas memórias de ex-militante político na ditadura

Assim que saiu da cadeia, dois anos após sucessivas sessões de tortura, Borges ficou sem saber o que fazer. Um amigo lhe alertara sobre os perigos de uma liderança política andar pelas ruas no início dos anos 1970, período em que a ditadura militar no Brasil aumentou a repressão contra quem discordava e lutava contra o regime.

Exímio orador e um dos responsáveis pelo setor de mobilização do Comando de Libertação Nacional (Colina),  organização de extrema esquerda criada em 1967 por estudantes universitários mineiros para combater a ditadura, Borges lembrou de um dos irmãos que trabalhava numa empresa de mineração, no município de Currais Novos (RN).

O trauma provocado pela tortura ainda ardia a pele e mexia com a cabeça do militante comunista. Após um contato telefônico, o sonho da luta armada foi adiado e a mudança preparada para o Rio Grande do Norte. Em Natal, ele voltou a ser outra pessoa. Enfim, pôde usar a própria identidade.

Borges foi o codinome usado, entre o final dos anos 1960 e a primeira metade da década de 1970, pelo jornalista mineiro Jorge Batista Filho. Natural de Cássia, mudou-se para Belo Horizonte ainda jovem para seguir os estudos na Faculdade de Filosofia da universidade. Carismático, em pouco tempo foi eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFMG, cargo quase tão importante quanto um mandato legislativo na época, e acabou cooptado para o Colina pelo militante Carlos Alberto Soares de Freitas, codinome Breno. Dois anos mais tarde, com Jorge Batista já preso, a Colina e a VPR de Carlos Lamarca se fundem e criam a VAR-Palmares.

 

Edição do Diário da Tarde, de Minas Gerais, sobre a organização Colina, de Jorge Batista

 

A atuação de Jorge no Colina, grupo que defendia a luta armada, durou até 12 de outubro de 1968, quando ele foi preso junto com mais de mil estudantes e 100 lideranças de esquerda no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, realizado clandestinamente num sítio de Ibiúna, no interior de São Paulo. Durante os dois anos de prisão, o militante ficou entre São Paulo e Minas Gerais.

Na capital potiguar, Jorge Batista casou com a estudante de sociologia Ana Valderez e, juntos, tiveram dois filhos. O mais velho ganhou o nome de Breno, uma homenagem ao amigo e principal referência de Jorge durante a luta armada contra o regime militar. O caçula recebeu o nome do avô Manoel e hoje trava sua luta particular: transformar em filme a busca por informações sobre a trajetória política do pai e do principal mentor dele durante a ditadura.

A batalha de Manoel Batista, jornalista como o pai, é pontuada por uma tragédia familiar. Numa viagem na véspera do Natal de 1986, próximo ao município de Uberaba (MG), um acidente na estrada matou Jorge Batista, Ana Valderez e Breno. Único sobrevivente, Manoel tinha 8 anos de idade quando perdeu o pai, a mãe e o irmão. Na bagagem, além das malas, a família levava os presentes que seriam distribuídos na ceia daquela noite. O caçula ainda guarda na casa da avó o disco da banda Iron Maiden que Jorge Batista não pôde entregar ao filho. Life After Death (Vida Após a Morte, em português) é o título do álbum.

Durante as últimas três décadas, Manoel juntou sem um objetivo definido informações e material sobre o pai. A ideia do filme nasceu em 2014, quando o filho de outro militante político o localizou pela internet e o convidou para o lançamento, em Belo Horizonte, do livro Seu amigo esteve aqui, da jornalista Cristina Chacel, sobre Carlos Alberto Soares de Freitas. Durante o evento, Manoel descobriu que haviam pelo menos mais cinco Brenos batizados em homenagem a uma das principais lideranças da VAR-Palmares.

Carlos Alberto Soares de Freiras era conhecido por Breno

O contato com amigos, familiares e militantes que participaram da luta armada com Jorge Batista instigaram em Manoel o desejo de transformar as informações e o material que reuniu ao longo do tempo numa obra audiovisual. A primeira versão, bem caseira, foi apresentada em 2012 como trabalho de conclusão de curso do jornalista potiguar. Agora, ao lado dos amigos Luara Schamó e Wallace Yuri, prepara o lançamento de um curta-metragem que vai incorporar ficção à parte documental.

Codinome Breno está na fase final de montagem, tem produção executiva da Casu Filmes e estreia prevista para o segundo semestre de 2018. O filme foi aprovado no edital de roteiros do Cine Natal, ação de fomento audiovisual da secretaria municipal de Cultura de Natal.

Durante o processo de produção, uma das inquietações de Manoel era sobre o fio condutor do filme. A ideia não é filmar uma espécie de cinebiografia do pai, mas fazer um filme que retrate a época com a ajuda de dois personagens centrais: Jorge e Carlos Alberto.

– Ficamos em dúvida sobre a abordagem. E achamos como solução fazer o relato da minha vivência sobre o resgate dessa memória. O filme não é sobre a história do meu pai e, apesar do nome, também não é sobre a história do Breno, codinome do Carlos Alberto Soares de Freitas. Decidimos fazer um filme sobre essa busca pela memória do meu pai, do Breno e de uma época importante para o país.

 

 

O projeto do filme foi aprovado em 2014 pelo edital da prefeitura de Natal, mas o dinheiro do prêmio (R$ 50 mil) só foi liberado na segunda metade de 2017. Nesse período, a Comissão da Verdade criada pelo governo Dilma concluiu o relatório sobre os desaparecidos políticos e Manoel teve acesso ao dossiê do pai.

O curta-metragem terá entre 15 e 20 minutos e trará depoimentos importantes para entender o movimento de esquerda contra a ditadura militar. A VAR-Palmares era uma das organizações mais importantes da época e contava com militantes que ficaram bastante conhecidos, a exemplo do guerrilheiro Carlos Lamarca, que se integrou ao grupo a partir da inclusão da VPR, e da ex-presidenta Dilma Rousseff. Uma das ações mais conhecidas do grupo foi o famoso sequestro do cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, com aproximadamente 2,4 milhões de dólares.

Um dos testemunhos mais preciosos do filme é o de Dilma Rousseff. Manoel, Luara e Wallace aproveitaram a vinda da ex-presidenta a Natal em agosto de 2017, convidada pelo projeto Na Trilha da Democracia, da ADURN-Sindicato, e conseguiram entrevistá-la.

– Entramos em contato com a assessoria da ex-presidenta e esperamos. Alguns dias depois meu telefone tocou e era a própria Dilma dizendo que tinha muita coisa para falar sobre o meu pai e também sobre a minha mãe. Claro que eu tomei um susto. Ela nos recebeu muito bem e conseguimos conversar durante 40 minutos. Pediu para ver as fotografias da época. Mesmo cansada, a Dilma falou sobre o Breno, a diferença de postura entre ele e o meu pai, e elogiou bastante a minha mãe. Voltamos com um material que não esperávamos porque, além de mais detalhes sobre meu pai, pude conhecer coisas sobre minha mãe que eu não sabia.

 

Ex-presidenta Dilma Roussef relembrou histórias da mãe de Manoel e comparou personalidades de Jorge e Carlos Alberto

 

Uma das dúvidas que Manoel pôde tirar com a ex-presidenta era sobre as diferenças entre Jorge Batista e Carlos Alberto. Segundo Dilma, os dois tinham personalidades bem diferentes. Enquanto Jorge era um grande orador e mobilizador de massas, Carlos Alberto era estrategista e uma liderança mais velha dentro da organização revolucionária.

Uma pista da importância de Carlos Alberto Soares de Freitas para o grupo pode ser medido pelo discurso de posse da então presidenta Dilma Rousseff, em janeiro de 2011. É o primeiro nome que ela cita no discurso ao se referir aos militantes que lutaram contra a ditadura militar. A última prisão de Breno foi em 15 de fevereiro de 1971 e, provavelmente desta vez, acabou morto pelos militares nos porões do regime. O corpo dele nunca foi encontrado, a exemplo de outras centenas de militantes assassinados após intensas sessões de tortura física e psicológica.

Entre os materiais encontrados durante a pesquisa também está outra raridade. Manoel achou uma fita-cassete com a gravação do batizado do irmão mais velho na igreja da Redinha, praia urbana bastante frequentada em Natal nos anos 1970. No áudio, Jorge Batista explica porque decidiu dar o nome de Breno ao primeiro filho. O filme começa exatamente a partir daí. A voz de Jorge Batista falando sobre a homenagem a Carlos Alberto Soares de Freitas é o detonador da saga de Manoel para reconstituir parte da memória daquela época.

 

 

Jorge Batista foi condenado a 18 anos de prisão

 

A partir do relatório final da Comissão da Verdade, Manoel teve acesso aos arquivos sobre o pai e Carlos Alberto. A ficha de Jorge Batista encontrada nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) revela que Jorge Batista Filho foi indiciado em 30 de junho de 1969 porque “participou do Congresso da extinta UNE e pertencia a uma organização clandestina subversiva, cujos integrantes se tornaram responsáveis por uma série de assaltos e roubos de armas privativas das Forças Armadas”.

Segundo o documento, o julgamento ocorreu em 2 de junho (estranhamente, pela ficha, antes do indiciamento). O Conselho Permanente de Justiça o condenou a 18 anos de prisão.

Em agosto de 1970, ainda preso, Jorge Batista e outros estudantes assinaram um manifesto enviado ao Sindicato Nacional dos Jornalistas Profissionais protestando contra as prisões, condenações, julgamentos e etc. Pela ousadia, de acordo com a ficha, foi condenado a mais 12 meses de cadeia.

Já Carlos Alberto foi indiciado em 30 de junho de 1969 ao lado de Cláudio Galeno Magalhães, Dilma Vanna Rousseff e outros. Segundo a ficha no DOPS, Carlos Alberto tinha mais de um codinome. Além de Breno, era conhecido também como Gustavo e Coronel. No processo contra ele, o inquérito militar apurou que a organização cometeu assaltos a indústrias, bancos, roubo de armas privativas de uso das Forças Armadas e atentados terroristas. Carlos Alberto também usava o nome falso de Fernando Sá de Souza.

 

 Relação com Natal

Assim que desembarcou em Natal, no início dos anos 1970, Jorge Batista logo se estabeleceu na cidade. Aos poucos, a atividade política adormecida após a traumática prisão foi dando lugar a um desejo de ampliar a participação na sociedade. Foi quando as virtudes de orador e comunicador falaram mais alto.

Como jornalista, Jorge conseguiu emprego como professor na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza, ligada à época na Fundação José Augusto, de onde foi demitido pouco depois em razão de suas ligações políticas. Antes de sair, no entanto, ajudou a criar e a consolidar o programa Xeque-Mate, realizando entrevistas com personalidades políticas da época. Também escreveu para o caderno Módulo 3, encartado no jornal O Poti, edição dominical do já extinto Diário de Natal, e participou da produção de um jornal feito pelos moradores do bairro de Mãe Luíza, na periferia de Natal, além de escrever para jornais de sindicatos.

 

Jorge Batista escreve na redação da faculdade de jornalismo Eloy de Souza, em Natal

 

Nos anos 1980, com a pressão popular por eleições Diretas, mudou com a família para São Paulo. Ao lado de amigos da época da VAR-Palmares e novos militantes, Jorge Batista foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.

Como tinha apenas oito anos de idade quando Jorge Batista morreu, Manoel lembra de pouca coisa da convivência com o pai. Mas não esquece o entra e sai de políticos barbudos na casa da família em São Paulo.

– O Lula eu não via tanto, mas lembro que o Eduardo Suplicy, o João Paulo Cunha e o José Dirceu apareciam com frequência lá em casa. Quando foi para São Paulo meu pai também voltou a escrever para jornais que faziam oposição aos crimes cometidos pela ditadura, como o Jornal Movimento, que marcou época.

Após a derrota da emenda Dante de Oliveira, que impediu eleições diretas para presidente após o fim do mandato do general João Batista Figueiredo, o desejo de entrar para a política institucional acendeu uma esperança em Jorge Batista. Em 1986, haveria a escolha dos deputados constituintes que ficariam responsáveis pela revisão da Constituição Federal, em 1988.

 

Panfleto de Jorge Batista na campanha para deputado constituinte contava com apoio de Marilena Chauí e Paulo Freire

 

 

Apesar da campanha e dos apoios importantes conquistados, como o da socióloga Marilena Chauí e do educador Paulo Freire, Jorge Batista ficou na primeira suplência. A derrota abateu o jornalista. Triste com a derrota eleitoral, pegou a família e decidiu visitar um irmão que voltara a morar em Minas Gerais. Aquela seria a última vez que Jorge cortaria São Paulo em direção ao estado de origem.

– Meu pai ficou bem triste por causa da suplência e resolveu fazer essa viagem. Lembro de acordar no hospital com os braços, as pernas e o maxilar quebrados. O pessoal estava evitando me contar, mas depois eu tive que saber a história toda. E me falaram que eu não teria mais meus pais, meu irmão, a escola, os amigos e viria morar com a família da minha mãe aqui em Natal. Fui muito bem acolhido pela minha avó, uma amiga da minha mãe também praticamente me adotou. E a ideia do filme é essa minha procura pela memória que eu não tive do meu pai, assim como outros filhos de militantes da época também não tiveram. É esse resgate que vamos fazer.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"