DEMOCRACIA

Com democracia sob risco, ativistas criam movimento em defesa da liberdade de expressão

Consolidar a garantia da liberdade de expressão como valor indissociável ao funcionamento da democracia. Foi com este objetivo que o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte sediou, na noite de quarta-feira (25), a plenária de pré-lançamento do Movimento em Defesa da Democracia e da Liberdade de Expressão.

Dezenas de pessoas, entre jornalistas, juristas, artistas, líderes sindicais e representantes da sociedade civil organizada prestigiaram o evento e assinaram uma carta de adesão ao movimento, que deverá ser lançado em outubro.

A articulação desse grupo de ativistas em Natal é parte de um movimento nacional, iniciado pela Agência Brasileira de Imprensa (ABI) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), explica o presidente do Sidjorn, Alexandre Oton. Segundo ele, “exatamente na defesa da liberdade de imprensa e contra os ataques que o presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz, sofreu por parte do presidente Bolsonaro”.

A agenda e a postura de Bolsonaro desembocou no engajamento de pessoas dos mais diversificados perfis da sociedade norte-rio-grandense num movimento de reação. “Pessoas comuns que participavam de atos de protestos contra a política do governo atual, baseado em fake news, manipulação ideológica, discursos de ódio, preconceito e discriminação, ao debaterem essas questões, decidiram que era chegada a hora de uma reação conjunta da sociedade, e daí, surgiu a ideia de criação de um movimento plural, suprapartidário”, esclarece Graça Campos, servidora pública e precursora das discussões para a formação do grupo na capital potiguar.

Segundo Jan Varela, representante do grupo de Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania – ADJC Potiguar, e também um dos articuladores do movimento, “a ideia é envolver instituições, entidades da sociedade civil organizada e personalidades que tenham como marca a defesa da democracia e liberdade de expressão em uma ampla frente”.

Jornalistas e ativistas de várias áreas prestigiaram o pré-lançamento do movimento em defesa da Democracia e da Liberdade de Expressão (foto: Mário Takeya)

O ato contou com a participação de diversas instituições que expressaram o compromisso com a defesa da Democracia e prestaram solidariedade ao jornalista norte americano Glenn Greenwald, editor chefe da agência de notícias The Intercept Brasil, que tem sido alvo de sistemáticos ataques desde o início das publicações sobre a operação Lava Jato.

Manifestações de desagravo ao cancelamento, sem esclarecimentos às motivações, do espetáculo Abrazo, do grupo potiguar Clowns de Shakespeare, que seria exibido em Recife, no início de setembro, e às declarações de Bolsonaro (PSL) ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, ao afirmar que “se o presidente da OAB quiser saber como o pai desapareceu no período militar, eu conto pra ele”, em referência a Fernando Santa Cruz, desaparecido político da ditadura, desde 1974, também marcaram a plenária.

Os atores Camille Carvalho e Dudu Galvão, integrantes do Clowns de Shakespeare, fizeram a leitura de um manifesto apresentando a trajetória e desafios enfrentados pelo grupo que, em 25 anos de existência, traz no currículo importantes conquistas que conferem uma posição de referência na cena potiguar e nordestina. Seus espetáculos já passaram por cerca de 80 de cidades brasileiras, dentre elas, 24 capitais e o Distrito Federal, e percorreu mais de 30 cidades do interior do Rio Grande do Norte. Além disso, atravessou as fronteiras do país, levando as peças para Portugal, Espanha, Chile, Equador, Uruguai. O grupo recebeu prêmios nacionais, a exemplo do SHELL, APCA, dentre outros.

“Temos muito orgulho de ser um grupo de teatro do Nordeste, que sobrevive há 25 anos em uma cidade, estado e país onde sabemos que as políticas públicas e o apoio à cultura é tão escasso. Temos uma longa trajetória de existência e sabemos que podemos mais. Estamos resistindo, mas não queremos sobreviver e sim viver de teatro”, afirma o documento.

Camille Carvalho e Dudu Galvão, do Clowns de Shakespeare, levaram manifesto em nome do grupo. (foto: Graça Campos)

João Arthur Santa Cruz, tio do presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, fez um relato das violências sofridas pela família desde a prisão do pernambucano Fernando Santa Cruz, em 1974, seu assassinato pelo Estado, a busca incessante da sua mãe pelos restos mortais e agora, os ataques do presidente Bolsonaro à sua memória. Para João Arthur, as declarações mostram o desapreço de Bolsonaro pelos valores democráticos e desrespeitam mortos e desaparecidos na ditadura civil-militar.

“O Movimento pela Democracia e Liberdade de Expressão busca promover a união das pessoas que percebam a democracia como um valor maior, uma conquista civilizatória ameaçada hoje no Brasil, no intuito de acolher aqueles que sofrerem em decorrência da política que está sendo implementada pelo Governo Federal, denunciar os ataques aos direitos dos cidadãos, bem como esclarecer à sociedade sobre o que está ocorrendo, para que ela efetivamente comece a defender a si e ao nosso país”, avalia Graça Campos.

Para o presidente do Sindjorn Alexandre Oton, o movimento deverá contribuir, ainda, para a garantia de livre exercício da profissão do jornalista, “defendendo qualquer tipo de ataque ao profissional de comunicação, zelando pela informação correta e combatendo as Fake News”.

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