OPINIÃO

Com o diabo no couro

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Certo  dia, saindo mais cedo do Diário de Natal, ainda trabalhava no periódico mais respeitado do Estado na época, entrei num templo de evangélicos, creio que já era o embrião destes neo pentecostes que invadiram o mundo, infelizmente. Era um prédio aqui na Deodoro, se não me engano, onde hoje funciona o famoso Bar 294. Uma plateia daquele tipo de gente, esse mesmo que você vê defendendo Bolsonaro e sua trupe com unhas e dentes, compunha o público destinado a ver o “espetáculo”. Um amigo, mais por farra que outra coisa, disse que eles iriam fazer um tipo de exorcismo numa criatura que tinha o “diabo no couro”, segundo anunciaram.

Entrei para ver como era, sempre fui avesso às religiões, criado na fé católica, sendo obrigado a acordar cedo aos domingos para ir à missa do Galo, inclusive já contei uma história relacionando o fato, por isso, arredio. Era um palco pequeno, escuro, luzes somente na dupla – pastor e “endemoniado” . Fiquei pasmo, surpreso, absolutamente sem entender como as pessoas presentes podiam acreditar numa encenação tão ridícula e pobre. Qualquer grupo de meninos de quintal fariam uma pantomima melhor. Choros falsos, berros, imprecações, muitos palavrões e ameaças ao pastor ungido por Deus para livrar a pobre alma daquele poder maligno. Ele brandia uma espécie de chicote que fazia barulho, mas batendo no chão. O “possuído”, péssimo ator, era todo o tempo de cabeça baixa e bufando. Um nojo. Mas o pior de tudo é que a coisa se dava no bairro de Petrópolis, onde imaginei existirem pessoas minimamente esclarecidas, com oportunidades de estudar, ler, acreditando piamente naquela cena dantesca de mentiras. Claro, cinco minutos depois, com meu amigo, enojados daquilo, saímos. E quando saía, ridicularizando tamanha idiotice alguns nos olharam com furor.

Hoje, esse tipo de teatro de horrores se tornou comum. Assim como os “batizados”, ou “renascimentos”, e vocês certamente lembram a cena do repulsivo presidente levando um caldo de um desses bandidos travestidos de homens de Deus, para mim do demônio. Cenas de “exorcismo” são, para alguns desses embusteiros, o maior trunfo para enganar os crentes inocentes, débeis e engordar suas contas bancárias. Eles fazem de tudo – vendem espaço no céu, cobram por orações, sabonetes, água, perfume  e uma gama de produtos “abençoados” a preços absurdos. O mais incrível de tudo isso é a completa omissão das leis do país para coibir esses estelionatários que têm como espelhos tipos nocivos como Edir Macedo que, recentemente, não se sabe como e nem porquê, se livrou de uma investigação por lavagem de dinheiro. Tem o RR Soares, o picareta Valdomiro e os bandidos mais conhecidos, políticos, Crivella, Malafaia, Feliciano e o Magno Malta, que caiu em desgraça entre muitos outros. Todos eles usando a boa fé de um povo sofrido, ignorante, sofredor e vilipendiado, sempre, por, exatamente, tipos como eles.

Estou falando de todos essas torpes figuras lembrando de um caso que aconteceu em minha casa, de meus pais, na época ainda não era casado. Super engraçado, uma verdadeira comédia, mais ou menos nos moldes do que se passa nesses templos de safadeza espalhados pelo Brasil e, por isso, me lembrei de tentar contar aqui. “Mãe Fulô” era o nome de um senhorzinho raquítico, pequenino, conterrâneo nosso de São Tomé e que sempre fazia serviços gerais lá em nossa residência- limpeza de quintal, da caixa, poda de árvores e etc. Sem empregada por algum tempo, sobrecarregada apesar da ajuda das filhas, Toinha, minha mãe, pediu a ele para arranjar uma pessoa para fazer uma faxina completa lá em casa. “Mãe Fulô” era do tipo que quase não falava, lembrava até um pouco o ator Grande Otelo. Gostava muito de ficar conversando com ele, vendo-o sorrir de tudo.  Ele ficava escutando, olhando para o vazio, parecendo totalmente ausente, daqui a pouco…ôoohhh, dava uma “mussica”, sorria e respondia. Era muito divertido, todos nós gostávamos demais dele.  Nosso ator prometeu trazer uma pessoa limpa e trabalhadeira, atendendo o pedido.

Numa sexta-feira ela chegou. Anunciada, era seu nome, também de São Tomé, e, evidente, de família conhecida de meus pais e prima de “Mãe Fulô” que, até hoje, ele já deve ser falecido, nunca soube seu nome. Ela era uma mulher grande, lábios grossos, cabelo bem assanhado, espinhado, amarrado com um lenção colorido, tinha os olhos enviesados, era meio zarolha, como se diz. Disposta, começou com tudo a limpeza. Quartos, salas, banheiros,  móveis e até parte do quintal varrido e limpo. A cozinha ela deixou para o final da tarde. Depois do almoço, Toinha foi tirar seu cochilo, minhas irmãs saíram, meu pai foi para o trabalho, os outros irmãos na escola e Anunciada ficou praticamente sozinha. Lá para as tantas, minha mãe acorda com o barulho de cantos de candomblé, terreiros de macumba, como costumavam chamar os preconceituosos católicos e evangélicos. Anunciada dançava, se remexia, brincava, pulava, cantava nas alturas  e Toinha, claro, mais que assustada, aja chamar gente para ajudar. A contratada queria abraçá-la, beijá-la, iniciar minha velha nos passos de danças que, desde pequena, Toinha acreditava ser coisa do demônio. Juntou gente lá em casa. “A mulher que veio fazer a limpeza na casa de Dona Toinha estava manifestada, com o diabo no couro”, espalhavam na vizinhança. Aperreio daqui, dali, chama a polícia, não chama, e se lembraram de um senhor que trabalha com meu cunhado na Casa Vesúvio, na Rua João Pessoa, na Cidade Alta. Ele era espírita e daria um jeito.

Correm a chamar o ‘Irmão Espedito”,  todos depositando toda a confiança de que o carequinha resolveria o problema. Chega Espedito, faz uma oração, chama a “irmã” para orar, abraça Anunciada, pronuncia aquele palavriado todo, dá mais abraços e a mulher cada vez cantava mais alto e mais dançava, a coisa se tornava mais séria que se imaginava. Foi passando o tempo e nada da orações do irmão dar resultado. Já se falava no absurdo, quase todos concordando, de chamar mesmo a guarnição e levar a pobre mulher para a cadeia.  Depois de idas e mais vindas, cantorias, gaitadas e mais gaitadas, mas sem ofender ou agredir ninguém, lá para as tantas, cansada, Anunciada caiu sentada numa cadeira, parecendo desmaiada.

Nesse meio tempo chega “Mãe Fulô”, seu primo, olha com seu jeito manso, chega bem perto e diz: “é canjibrina!” Minha mãe e os presentes ficam sem entender, onde  aquela mulher iria achar bebida? Diante do olhar de todos na sala, Dona Toinha parece ter tido um estalo. Vai até o armário e abre, as doze latas de cervejas compradas pelo meu irmão para levar para o sítio, em São Tomé,  estão lá no mesmo lugar, arrumadinhas como antes… Mas, sem sem querer, mexendo, minha mãe  toca na lata da fileira de cima e todas caem, estavam vazias… Anunciada havia, literalmente, tomados todas e, indiferente ao fundunço todo que armou, roncava na cadeira, já não tinha mais nenhum “diabo no couro”, só ia acordar com uma tremenda ressaca por ingerir tanta “Brahma” quente.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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