OPINIÃO

Como é possível que alguém ainda esteja satisfeito com o bolsonarismo?

O documentário “O dilema das redes” popularizou uma compreensão bastante real para o nosso tempo. Nossa presença e nossas interações – postagens, curtidas, testes, fotos, comentários – nas redes sociais, alimentam sistemas incrivelmente sofisticados de coleta e processamento de dados. O uso que se faz desses dados é ainda primordialmente econômico. Quando uma empresa de artigos esportivos paga para exibir um anúncio no facebook, os algoritmos cuidam para que esse anúncio seja exibido para pessoas que tenham maior probabilidade de comprar os produtos em questão.

Esse tipo de tecnologia torna completamente obsoletas as fantasias paranoicas noventistas sobre governos, alienígenas ou empresas multinacionais que pudessem ter o interesse de instalar “chips” em nossos corpos ou em nossos cérebros para fins de vigilância e controle. Hoje cada um de nós compra o próprio chip, não desgruda dele nem por um segundo e passa o dia inteiro, desde o primeiro despertar até o último sono do dia, o alimentando com dados pessoais ininterruptamente. Cada teste divertido, cada foto postada, cada curtida e comentário revelam detalhes pessoais de nossas vidas, de modo que hoje, para monitorar minuciosamente a vida de qualquer cidadão, não é preciso ser um hacker, e nem muito menos um alienígena.

Um dos efeitos mais comuns desse processamento algorítmico é constituir a forma atual da produção “bolhas” sociais no interior das quais opiniões parecidas sobre os mais diversos assuntos são constantemente reafirmados por feedback positivo. Isto é, rolando infinitamente a timeline das suas redes sociais, você verá constantemente opiniões e posições que confirmam a sua própria, aquela que com compartilhamentos, comentários e likes, você próprio indicou aos algoritmos que é a sua.

É preciso resistir aos ideais românticos da racionalidade que querem fazer crer que antes das redes sociais as pessoas viviam em franca convivência e diálogo com grupos diferentes, confrontando amistosamente opiniões e visões de mundo diversas e bem dispostas a corrigir e reformular constantemente as próprias posições. As “bolhas” e polarizações são na verdade a experiência mais comum para uma espécie que é muito mais tribal do que propriamente universalista, apesar de todos os ideais cristãos e iluministas que se esforçaram em promover, ao menos num plano superficial, projetos universalistas.

Quando acontece de “cairmos” acidentalmente dentro de uma “bolha” bolsonarista, ou quando temos a estranha oportunidade de conversar com um de seus assíduos frequentadores, tendemos a nos surpreender com a descoberta de que há muitas pessoas felizes com o bolsonarismo. Aliás, os descontentes não são “70%”, como se inventou recentemente. A soma das abstenções, nulos e brancos com os votos em Haddad não podem ser tão simplesmente somadas. Afinal, com 100 milhões de votos computados, os votos válidos são como a maior pesquisa Ibope de todos os tempos, de maneira que como as abstenções não tiveram nenhum recorte ideológico (se fossem impedidos de votar apenas os universitários ligados a movimentos sociais ou os filhos de militares, aí então sim faria sentido computar as abstenções para um lado ou para o outro), é um fato estatisticamente estabelecido que, caso os que se abstiveram votassem, o resultado seria 55 a 45 para Bolsonaro, com uma margem de erro ínfima.

Por isso quando algum “furo” em nossa bolha nos põe em contato com um dos contentes, diante desse verdadeiro encontro com o “outro”, retornamos cabisbaixos para nossas próprias bolhas de autoconfirmação afetiva e compartilhamos com nossos companheiros toda a nossa perplexidade em discursos mais ou menos exaltados: afinal, é impossível que alguém não esteja percebendo que as condições gerais de vida de todas as pessoas pioraram muito.

Isso é fato. As condições materiais-objetivas de vida de todos os brasileiros – à exceção dos super-ricos – piorou consideravelmente – mesmo em relação aos tão vilipendiados últimos e dramáticos anos do governo Dilma. O dólar e gasolina passando dos 6 reais, todos os alimentos, especialmente as carnes, encarecendo e o gás de cozinha beirando ou batendo os 100 reais nos dão uma boa medida do nosso desastre. No entanto, ainda assim, pelos furinhos que ocasionalmente atravessam a bolha, podemos ver pessoas de todas as classes sociais bastante felizes com todo o panorama atual. Como explicar esse curioso fenômeno?

Acontece que a medida da felicidade humana não depende de circunstâncias objetivas universalmente reconhecíveis. É um vício marxista acreditar que apenas condições “materiais-objetivas” do campo econômico determinam verdadeiramente a vida – e o nível de satisfação ou insatisfação de cada um com a própria existência. Muitas outras circunstâncias entram nessa conta, todas elas atravessadas em alguma medida por nossos desejos e fantasias de onipotência, o que torna o “cálculo da felicidade” infinitamente mais complicado do que o “felicitômetro” de Bentham poderia sonhar. Como nos lembra muito bem o historiador Yuval Harari “A descoberta mais importante de todas é que a felicidade não depende de condições objetivas de riqueza, saúde ou mesmo comunidade. Em vez disso, depende da correlação entre condições objetivas e expectativas subjetivas. Se você quer uma carroça e consegue uma carroça, fica contente. Se você quer uma Ferrari zero e só consegue um Fiat usado, sente que algo lhe foi negado.”

Ora, por mais que a classe média esteja empobrecida, por mais que as classes mais empobrecidas estejam flertando cada vez mais abertamente com a miséria, há muita gente satisfeita por razões morais, religiosas, tribais que se expressam em discursos do tipo: “mas pelo menos temos um homem de verdade no poder”, “mas pelo menos temos um autêntico defensor da família e dos bons costumes”, “mas pelo menos temos um verdadeiro cristão”, “mas pelo menos temos um homem simples que, à imagem e semelhança do povo, despreza os requintes no trato social, diz o que sente, assina com bic e come pão com leite condensado”, “mas pelo menos não temos a esquerda”, “mas pelo menos nos livramos do PT”.

Mais um ponto na exposição de Harari parece convir muito bem à realidade brasileira. Passamos por duas décadas de considerável melhora das condições materiais-econômicas durante os governos de PSDB e PT. O problema é que, como Harari indica, o incremento das condições materiais não se faz necessariamente acompanhar por um aumento de “felicidade”. Pelo contrário. O mais comum é que, melhorando as condições materiais-econômicas, as expectativas se tornem mais altas e mais imperativas, contribuindo para uma diminuição geral do nível de satisfação social.

 

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Diogo Bogéa
Diogo Bogéa é doutor e mestre em Filosofia Pela PUC-Rio. Graduado em História pela UERJ-FFP. Professor de Filosofia e Psicanálise na UERJ. Autor de “Oficina de Filosofia”, escreveu também "Metafísica da vontade, metafísica do impossível: a dimensão pulsional como terceiro excluído".

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