CIDADANIA

Mulheres ainda ocupam menos cargos de chefia na ciência, mas estão derrubando mitos e virando espelho para novas pesquisadoras

Em seu quadro docente, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) tem um total de 1.136 mulheres (50,5%) e 1.113 homens (49,5%). Elas são maioria no índice geral, no entanto, são eles, os homens, os líderes na coordenação de projetos de pesquisa. Do total de 1.359 pesquisadores da UFRN que coordenaram projetos em 2020, com e sem financiamento, 664  (48,86%) são mulheres e 695  (51,14%) são homens.

Na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), a discrepância entre o número de homens e mulheres é ainda mais evidente.  De um total de 356 docentes com algum tipo de projeto de pesquisa, seja na coordenação ou como membro, 225 (63%) são homens e 131 (37%) são mulheres. Uma desproporção que se repete em todas as suas unidades: Angicos (22 homens/ 14 mulheres), Caraúbas (18 homens/ 12 mulheres), Pau dos Ferros (34 homens/ 12 mulheres) e Mossoró (149 homens/ 85 mulheres).

Entre as universidades públicas, a estadual é a exceção. Na UERN, a porcentagem de homens no quadro de professores é maior. De um total de 788 docentes efetivos, 421 são homens (53,42%) e 367 são mulheres (46,57%). No entanto, a coisa muda de figura quando analisamos os docentes que têm projetos de pesquisa. Dos 256 professores (a) pesquisadores (a) com projetos vinculados ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), 137 são mulheres (53,51%) e 119 são homens (46,48%).

Aparentemente, os números gerais sobre a proporção de homens e mulheres dentro do universo acadêmico podem até não parecer muito distantes. Mas é ao ajustar a lupa da paridade de gênero que a gente enxerga como as mulheres ainda estão atrás nos cargos de chefia e liderança de equipes de pesquisa. Levantar dados sobre a posição de liderança de homens e mulheres na ciência não é algo simples, na maioria das vezes é possível observar, apenas, estatísticas gerais sobre contratações.

Na UFRN, os homens são os que mais publicam artigos científicos nos cursos de áreas mais técnicas, como o Instituto Metrópole Digital (IMD), o Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET), o Centro de Tecnologia, a Escola de Ciências e Tecnologia (ECT), a Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ), o Centro de Biociências (CB), o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), o Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), a Escola de Música (EMUFRN), o Instituto do Cérebro (IC) e o Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES).

Gráfico da produção científica no Instituto Metrópole Digital da UFRN I Imagem: cedida

Já as mulheres, têm mais publicações nos cursos do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Centro de Educação (CE) e Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (FACISA).

Gráfico da produção científica no Centro de Educação da UFRN I Imagem: cedida

Influência política é critério de exclusão para mulheres

No Brasil, segundo levantamento feito pela pró-Reitora de Pesquisa da UFRN Sibele Pergher, as mulheres são maioria até a graduação (53%). No setor de tecnologia, por exemplo. Mas, conforme a questão política passa a ser fator de influência, como na ocupação de cargos dentro dos Centros, elas vão perdendo o protagonismo. Um dos motivos é a forma de avaliação, que privilegia o modelo masculino de carreira:

“As mulheres são menos produtivas? Têm menos liderança? Menos mérito? Não! O que acontece é que essa é uma avaliação que leva em conta a produtividade e exige um compromisso de tempo integral com o trabalho, relações acadêmicas competitivas e um profissional mais dedicado à pesquisa do que a si mesmo e à família. As mulheres acabam tendo que se adaptar para serem bem sucedidas na carreira”, avalia Sibele Pergher.

No gráfico, elaborado pela Pró-Reitora de Pesquisa da UFRN Sibele Pergher, quanto maior a influência política, menor é a presença de mulheres em cargos de liderança. Male (homem) está em laranja e female (mulher) em azul.

Maioria das bolsas é concedida aos homens

As mulheres também têm desvantagem na concessão de bolsas de pesquisa. Elas ficam com algo em torno de 36% a 24% das bolsas, no caso daquelas que exigem maior nível. Por causa da maternidade e das multitarefas, como cuidar da casa, fazer supermercado e organizar as contas da casa, as mulheres acabam não tendo tempo para dedicação exclusiva à carreira e vão perdendo posições mais estáveis e de destaque no universo científico:

“Como mudar isso? Uma das questões seria trabalhar dentro do próprio sistema para transformá-lo. O grupo ‘Mulheres e Ciências’ da Universidade Federal Fluminense levantou sugestões que foram apresentadas no Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Química. A proposta é aumentar a representação feminina em espaços de decisão; levar em conta a parte da maternidade, agora a plataforma Lattes já coloca no sistema o período em que a pesquisadora teve de licença maternidade, porque isso diminui a nossa produção científica e deve ser considerada, também, nos concursos; auxílios para dependentes para bolsas no exterior; editais destinados a pesquisadoras mães ou que estão de licença maternidade; premiações e, outra importantíssima, é promover políticas institucionais de tolerância zero à discriminação e ao assédio sexual na academia”, sugere Pró-Reitora de Pesquisa da UFRN, Sibele Pergher.

“As mulheres são menos produtivas? Têm menos liderança? Menos mérito? Não! O que acontece é que essa é uma avaliação que leva em conta a produtividade e exige um compromisso de tempo integral com o trabalho, relações acadêmicas competitivas e um profissional mais dedicado à pesquisa do que a si mesmo e à família”

Pró-Reitora de Pesquisa da UFRN, Sibele Pergher

Ocupar papeis de liderança é fundamental para a autoestima, avalia neurocientista premiada no exterior

Natália Mota, pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN I Imagem: cedida

Como é difícil encontrar mulheres liderando equipes de pesquisa, há um hiato na formação de cientistas mulheres, até pela falta de identificação. Natália Mota foi a única cientista na América do Sul indicada a receber o prêmio Nature Research Award, de 2019. O prêmio é voltado, justamente, para mulheres na ciência que servem de inspiração para outras mulheres. Pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN, ela conta que, no caso da ciência, essa identificação das mulheres com os papéis de liderança é fundamental até para autoestima das cientistas:

“Quando você não se sente representada naquela função, isso naturalmente vai te atacar na auto-estima, que é importante pra uma pesquisadora no início da carreira. O que acontece com a maioria das mulheres, principalmente as negras que são pouco representadas nos cargos de liderança, é que quando você tá começando um mestrado ou um doutorado e olha para as coisas das quais precisa abdicar porque precisa dedicar muito tempo pra o seu trabalho de pesquisa, você olha para o final da ponta e se pergunta: por que não estou procurando um emprego mais comum na minha profissão? Por que me lançar para a inovação, para a pesquisa e não estou executando o que fui treinado a fazer como mão de obra? Você pensa nos ícones que te inspiram e muitas vezes não há identificação com isso, o que te coloca numa posição em que você fica reforçando aquilo que a sociedade coloca desde sempre para as mulheres. É um ciclo que se regenera e amplifica essa discrepância tem contexto social muito mais determinante do que, propriamente, a performance das pessoas”, critica Natália Mota.

“Quando você não se sente representada naquela função, isso naturalmente vai te atacar na auto-estima, que é importante pra uma pesquisadora no início da carreira”

Natália Mota, cientista e pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN

Pesquisas científicas, uma delas publicada na revista Science of Learning, do conceituado grupo Nature, apontam que meninos e meninas têm a mesma habilidade para aprender matemática, por exemplo. Logo, pontua Natália, são as experiências de vida que vão moldar quais habilidades serão desenvolvidas:

“Homens e mulheres têm a mesma capacidade de gerar conhecimento, mas quando a gente fala em inovação, é um funil muito estreito. É na hora de julgar se uma pessoa cabe a um cargo ou não que entra aquela avaliação subjetiva que tem raiz social muito importante. O avaliador pensa: tem essa mulher aqui com todo esse currículo que é ótimo, mas também tem um homem aqui com um currículo equiparável. Eu consigo vê-lo alcançar cargos mais altos no futuro e não consigo ver essa mulher ter a mesma projeção. Por que isso? Porque olhamos para o passado quando fazemos essas projeções. Isso acontece também com a aluna, a mulher na ciência em início de carreira também se sabota nesse sentido, de olhar e se perguntar ‘o que estou fazendo aqui? Se no meu departamento, onde estou começando essa pesquisa e que é tão dura essa vida, eu só vejo homens em cargos de liderança, talvez seja muito mais difícil pra mim como mulher, então, talvez seja impossível’. O que as pessoas não falam é que essas seleções têm esse viés inconsciente que precisamos romper. É falando sobre isso, divulgando dados e mostrando que não há sentido lógico nessa discrepância, que isso vai terminar”, defende a pesquisadora.

“O avaliador pensa: tem essa mulher aqui com todo esse currículo que é ótimo, mas também tem um homem aqui com um currículo equiparável. Eu consigo vê-lo alcançar cargos mais altos no futuro e não consigo ver essa mulher ter a mesma projeção. Por que isso? Porque olhamos para o passado quando fazemos essas projeções”

Natália Mota

Pesquisadora só percebeu desigualdade de gênero no doutorado

Fernanda Palhano, pesquisadora do Instituto do Cérebro I Foto: Anastácia Vaz

Cursos onde os homens são maioria tanto entre estudantes quanto entre professores ainda são uma realidade nos dias de hoje. Fernanda Palhano, que hoje integra a equipe de pesquisa do Instituto do Cérebro, passou a graduação sem se dar conta de que da turma de 45 estudantes, apenas ela e mais duas colegas eram mulheres:

“Só vim me dar conta dessa desigualdade de gênero no doutorado. Tínhamos uma turma unida e éramos boas alunas, o que certamente diluiu o preconceito ou descrédito por sermos mulheres. Claro que tive aula com professor que era conhecido por dar em cima de aluna, mas nem me dei conta, talvez, pelo fato de estar sempre na defensiva. Nós crescemos assim, sem nos darmos conta. Na época isso não chamou a atenção como hoje chamaria. Na graduação, durante todas as disciplinas específicas, não tive uma única professora. É a questão da representatividade, como imaginar que seria professora se não tinha nenhuma mulher ensinando no meu curso? As quatro professoras que ainda tive eram de disciplinas do básico”, conta Fernanda, que pesquisa o uso terapêutico da ayahuasca para tratar depressão no Instituto do Cérebro, onde dos 22 pesquisadores, 18 são homens e 4 são mulheres, o equivalente a apenas 22% do corpo acadêmico.

“Na graduação, durante todas as disciplinas específicas, não tive uma única professora. É a questão da representatividade, como imaginar que seria professora se não tinha nenhuma mulher ensinando no meu curso? As quatro professoras que ainda tive eram de disciplinas do básico”

Fernanda Palhano, engenheira elétrica e pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN

Fernanda Palhano se formou em Engenharia Elétrica pela UFRN e no Instituto do Cérebro é responsável, entre outras coisas, pela análise de sinais, de dados de computação. Quando começou a pesquisa, havia apenas outros dois estudos preliminares com ayahuasca no país, mas ambos com número menor de pacientes e sem controle de casos:

“A desvantagem desse tipo de pesquisa é que muitos pacientes melhoram por causa do efeito placebo, e não farmacológico. Em doenças psiquiátricas o efeito placebo pode ser da ordem de até 40%. O padrão ouro é, justamente, o tipo de ensaio que fizemos. Nem o paciente, nem a equipe médica sabem o que o paciente vai receber. Nosso ensaio clínico foi entre pacientes que tinham resistência ao tratamento convencional. Fizemos teste com metade tomando placebo e a outra, a medicação. Sete dias depois, 64% dos pacientes que tomaram ayahuasca responderam ao tratamento, enquanto só 27% do placebo respondeu, isso sete dias depois de uma única dose. Chama atenção a ação rápida da ayahuasca, enquanto a maioria dos antidepressivos demora duas semanas para ter efeito. Em 24 horas já observamos as primeiras mudanças e o efeito máximo sete dias depois”, explica a pesquisadora do Instituto do Cérebro.

Dificuldade é maior para pesquisadoras negras

Bióloga, Aléxia Micaella é mestranda em Neurociências na UFSC / Foto: Cícero Oliveira

A bióloga Aléxia Micaella, 23 anos, não demorou muito para perceber que, embora convivesse com várias mulheres fazendo pesquisa, poucas ocupavam cargos de chefia. Ela integrou a equipe do Instituto do Cérebro da UFRN e hoje faz mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina, onde desenvolve estudos sobre aspectos neuroinflamatórios de um modelo animal para a doença de Huntington. Aléxia sonha em ser professora na área, mas pretende conciliar o trabalho em sala de aula com a pesquisa. Ver outras mulheres atuando, segundo ela, contribuiu nas decisões profissionais que tomou. Especialmente porque a bióloga faz parte de um grupo ainda mais restrito na ciência: o de mulheres negras:

– Então, eu faço parte desse meio científico a menos tempo do que muitas mulheres que conheço, mas o que me chamava a atenção era o fato de terem muitas mulheres envolvidas em pesquisas, e poucas em cargos de chefia desses laboratórios. Não vou dizer que não enfrentei nenhuma dificuldade por ser mulher, porque o viés implícito existe, então algumas oportunidades podem ter sido tiradas de mim e eu ter pensado apenas que era por minha causa, ou falta de competência para aquilo, mas era o viés implícito agindo. Tenho como dizer que a presença de mulheres nessas pesquisas ajudou muito a continuar querendo fazer pesquisa. Não é como se fosse algo decisivo “ah só vou fazer porque tem mulheres fazendo”, mas é por um sentimento de pertencimento, e esse facilita muito quando aparecem dificuldades que nos fazem repensar a permanência naquele local. E isso diz muito sobre o período que fiquei no Instituto do Cérebro, lá eu fui muito bem acolhida e incentivada a permanecer, e até hoje essas pessoas, mesmo distantes fisicamente, me ajudam a permanecer e lutar pelo meu lugar nesses locais que ainda são tão pouco ocupados, principalmente por mulheres negras”, reflete.

“A presença de mulheres negras nas Neurociências é algo que precisa ser repensado, porque nós precisamos sentir que fazemos parte desses locais também, e acredito que a minha permanência, a minha luta por essa reafirmação, pode, de certa forma, ajudar outras a perceberem que esse lugar também é delas. É o seu eu espero”

Aléxia Micaella

Sobre a presença de mulheres negras na ciência, ela defende mais reflexões na academia sobre o tema:

– Mais uma vez, não tenho como dizer que por ser mulher negra, fui tratada de maneira diferente dentro da academia, mas o viés implícito existe e eu acredito que essa percepção, ainda que inconsciente, sobre a não presença da mulher negra nas neurociências, influenciou minha vida, influenciou a definir onde eu iria parar. E aqui em Florianópolis, onde desenvolvo meu projeto de mestrado, tenho o prazer de ser orientada por uma mulher, e fazer parte de um laboratório 100% feminino. É ótimo ver tantas neurocientistas como eu, mas ao mesmo tempo tão diferentes. Como eu disse, a presença de mulheres negras nas Neurociências é algo que precisa ser repensado, porque nós precisamos sentir que fazemos parte desses locais também, e acredito que a minha permanência, a minha luta por essa reafirmação, pode, de certa forma, ajudar outras a perceberem que esse lugar também é delas. É o seu eu espero”, diz.

“Nossa sociedade foi consolidada nas bases do racismo”, destaca pesquisadora

Numa sociedade fundada no trabalho escravo, ser mulher e cientista é um sonho distante para muitas mulheres e meninas. Mas ser cientista, mulher e negra, parece ser a exceção que confirma a regra.

“Isso é fruto da estruturação da sociedade brasileira. Não podemos esquecer que ela foi consolidada nas bases do racismo, do patriarcado, do classismo e é preciso levar em conta esse contexto. Ao longo dos anos, o espaço da mulher esteve associado a papéis sociais muito específicos: a ficar em casa, realizar atividades domésticas, o que se reflete, ainda hoje, até no âmbito acadêmico. Enquanto pesquisadora negra, percebi reflexos que perpassam por questões de gênero, classe e raça”, conta Denise Carvalho, pós-doc no Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia.

Com experiência em diferentes universidades do país, Denise conta que os alunos ainda se surpreendem quando veem que a professora da disciplina é uma mulher negra. Ela também desabafa que o fato de ter nascido mulher, negra e numa família pobre, acabou atrasando sua vida acadêmica, que ela ainda luta para construir.

– Tive uma carreira tardia, acredito que também por questões de classe perpassadas por questões de raça, de falta de acesso ao conhecimento que permitisse com que eu avançasse rápido na carreira acadêmica. Isso não aconteceu, a minha carreira não é tão precoce como a de outras pessoas e acredito que isso tem relação com o fato de ser mulher, negra e de família pobre. Esses fatores influenciam muito na nossa trajetória”, diz.

“Ao longo dos anos, o espaço da mulher esteve associado a papeis sociais muito específicos: a ficar em casa, realizar atividades domésticas, o que se reflete, ainda hoje, até no âmbito acadêmico. Enquanto pesquisadora negra, percebi reflexos que perpassam por questões de gênero, classe e raça”

Denise Carvalho, pós-doc no Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia

Políticas de ações afirmativas, como as cotas, trouxeram avanços, com maior ingresso de pessoas negras nos bancos acadêmicos. Mas, para que esse tipo de política pública tenha o efeito esperado, é preciso dar os passos seguintes:

– Como mulher negra sinto que tenho que me esforçar muito mais e ter um desempenho sempre excelente e adquirir cada vez mais experiência para que numa situação de possível seleção, não seja suplantada por uma pessoa que tenha um perfil que já é mais conhecido na universidade, que ainda tem um corpo docente ainda muito branco. De repente, inconscientemente, pra uma banca é mais fácil ela se identificar com a carreira daquela pessoa que tem um perfil mais familiarizado ao ambiente universitário, isso devido àquelas questões estruturais. Que nossa geração ainda possa ver que a nossa constituição fenotípica, no futuro, não seja um elemento que traga tanto significado em qualquer tipo de oportunidade de trabalho. Que isso não suplante nossa capacidade profissional”, deseja a pesquisadora.

Denise Carvalho, pós-doc no Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da UFRN I Foto: Alice Andrade

Reprovada no mestrado, apesar das maiores notas, Samuraí Brito deu a volta por cima

Samuraí Brito após ser aprovada na tese de Doutorado / foto: acervo pessoal

Outra cientista potiguar de destaque que sofreu alguns perrengues por causa da gravidez durante a vida acadêmica foi Samuraí Brito. Sua pesquisa sobre internet quântica foi capa da Physical Review Letters, uma das mais importantes publicações na área da física. No artigo, Samuraí propõe o primeiro modelo de redes para internet quântica e prova que para criá-la é preciso criar uma estrutura diferente da atual.

Samuraí engravidou quando fazia licenciatura em Física, na UFRN. Se ausentou por um período para cuidar do filho porque não tinha qualquer tipo de auxílio. Ao retornar, concluiu o curso e tentou o mestrado, mas apesar de notas maiores do que outros candidatos aprovados, foi reprovada:

“Eu tinha nota para passar, mas não fazia mais parte do núcleo acadêmico. Quando voltei, não tinha mais contato com os professores por causa da minha vida corrida. A licenciatura era na parte da noite e acaba que a gente não tem contato com o departamento porque nada funciona à noite. Então, fiquei meio que isolada, não tinha mais apoio de docentes, a seleção exige isso. São os professores que vão apontar se você tem ou não potencial para entrar e eu não tinha isso“, detalha.

Determinada a seguir na carreira acadêmica, Samurai fez reingresso para o bacharelado com uma determinação: tirar as notas mais altas possíveis para chamar atenção do Departamento de Física e dos professores para que enxergassem nela, um potencial. A estratégia funcionou:

Tirei notas altíssimas no reingresso do bacharelado, inclusive na disciplina de física quântica, que era opcional e pedi para pagar como ouvinte. O professor da disciplina era uma das autoridades do Departamento e ele passou para o coordenador da pós-graduação que eu tinha chamado a atenção dele porque minhas notas estavam muito interessantes e maiores até do que os alunos que já estavam nivelados no bacharelado. No final do ano recebi um convite do Programa de Pós-Graduação para ingressar no mestrado“, conta.

No doutorado, Samuraí voltou a engravidar sem ter planejado e, mais uma vez, teve que provar sua capacidade em retomar a atividade científica. Dessa vez, contou com o apoio da família que pôde estar mais presente:

As pessoas pensam que porque a mulher engravida ela se torna impotente, ela não consegue mais realizar o papel de cientista, pesquisadora, ou mesmo como estudante tão bem como aquelas pessoas que não têm filho porque, no geral, para o homem nada muda. Ele é pai e continua o trabalho, a vida acadêmica, as colaborações. Mas, para a mulher, não. Nesse sentido, me preocupei muito. Mas, minha mãe já estava trabalhando em casa, minha cunhada também e tive um apoio muito forte da minha família“, conta Samuraí.

“As pessoas pensam que porque a mulher engravida ela se torna impotente, ela não consegue mais realizar o papel de cientista, pesquisadora, ou mesmo como estudante tão bem como aquelas pessoas que não têm filho porque, no geral, para o homem nada muda”.

Samuraí Brito, cientista e pesquisadora da UFRN

Hoje, passado os perrengues e com dois filhos; Davi, que vai fazer 15 anos, e a sapeca Samara, de sete aninhos, a história de Samuraí não só deu certo, como tem encorajado outras mulheres que enfrentam situações parecidas:

“No doutorado as pessoas diziam ‘mas agora você vai parar?’ É até desanimador, mesmo mostrando que  consegui decolar na Física, até na segunda gestação, permaneceram os olhares de dúvida se eu conseguiria seguir em frente na carreira. Deu super certo e eu faço questão de dizer isso. Sou mãe e meus dois filhos foram gerados durante a minha carreira acadêmica e isso não me impediu de crescer, muito pelo contrário. Me senti mais forte, mais determinada. O meu tempo diminuiu, mas a dedicação foi muito mais produtiva do que quando não era mãe. Meus filhos me deram a garra para seguir em frente. Eu tive colegas que passaram por situação similar depois e vieram buscar apoio em mim porque me viam como uma pessoa que tinha conseguido passar por tudo isso. Todas elas também conseguiram concluir o doutorado. Foi uma experiência boa, também, por servir de exemplo para outras garotas que passaram pela mesma situação e não receberam nenhum apoio acadêmico”, avalia.

“Sou mãe e meus dois filhos foram gerados durante a minha carreira acadêmica e isso não me impediu de crescer, muito pelo contrário. Me senti mais forte, mais determinada. O meu tempo diminuiu, mas a dedicação foi muito mais produtiva do que quando não era mãe. Meus filhos me deram a garra para seguir em frente”

Samuraí Brito

 

Pesquisadora defende projeto de acolhimento para estudantes que engravidem durante carreira acadêmica

Samuraí Brito com o marido e os filhos I Imagem: cedida

Samuraí chegou a fazer dois concursos nos quais ficou em segundo lugar: um para a Escola Agrícola de Jundiaí e outro para o departamento de Física do Campus Central da UFRN. Apesar de ter tido a maior nota entre os candidatos na apresentação, acabou ficando para trás por causa da pontuação no currículo:

Um dos projetos que levaria, caso entrasse, seria o de criar um núcleo de apoio para meninas na área de exatas, ciência e tecnologia que viessem a engravidar durante a graduação, mestrado ou doutorado. Falta esse tipo de incentivo dentro da universidade. Muitas meninas passam por isso e acham que é o fim do mundo, principalmente, porque o ambiente competitivo e o homem, como já falei, não tem nada modificado em sua rotina. Fiquei em segundo na soma de pontuação do currículo lattes. Essa é uma questão técnica, não tem como mudar. Minha pontuação não teve como superar a dele porque, de fato, ele tinha um currículo exemplar. A pausa que fiz por causa da maternidade com certeza influenciou nesse resultado, ele se formou, mais ou mesmo, no mesmo período em que a minha deveria ter acontecido, se não tivesse parado. Mas costumo pensar que tudo isso contribuiu para que eu pudesse vivenciar esse momento maravilhoso da minha carreira. Claro que já chorei muito porque você acha que esse momento travou sua carreira ou impediu que tivesse crescido mais. Mas muita coisa só vivi por causa do nascimento dos meus filhos“, reforça a pesquisadora que ainda faz uma dura crítica ao pensamento dominante nas universidades:

Não posso falar de todas as áreas, mas dentro de exatas, em particular na área de Física, acho que falta humanidade, sentir a necessidade do outro, ver que a maternidade faz parte da nossa trajetória e isso não tem que estar descorrelacionado da vida acadêmica. Pelo contrário, tem que ser uma trajetória natural. Tem uma frase que digo nas oportunidades que é que nenhuma mulher deveria escolher entre sua carreira e maternidade. Eu posso ser mãe, cientista e o que eu quiser, não são os olhares que determinam o que você é, é o que você quer alcançar e o tempo que você vai precisar pra isso também não deve ser determinado pela academia. Cada um tem um tempo natural de fluir e conseguir conciliar maternidade com carreira”.

“Tem uma frase que digo nas oportunidades que é que nenhuma mulher deveria escolher entre sua carreira e maternidade. Eu posso ser mãe, cientista e o que eu quiser, não são os olhares que determinam o que você é, é o que você quer alcançar e o tempo que você vai precisar pra isso também não deve ser determinado pela academia”.

Samuraí Brito

Depois de quatro anos como pós-doc do Instituto Internacional de Física, Samuraí recebeu proposta de trabalho do Itaú/Unibanco para desenvolver tecnologias para o banco. Ela já é funcionária da instituição desde janeiro de 2021 e não precisou deixar Natal para seguir no novo emprego. Apesar da mudança na vida profissional, Samuraí pretende manter a vida acadêmica ativa e viabilizar colaborações entre a empresa e a universidade.

“Tive a surpresa de ser procurada pelo Itaú/ Unibanco para desenvolver pesquisas dentro dessa área em que atuava de física quântica, com o propósito de desenvolver tecnologias para o banco. Eles têm um projeto bem forte nessa área, então, desde o dia 4 de janeiro sou funcionária do banco. Tudo foi feita de forma virtual porque já estavam assim por causa da pandemia, depois só terei que viajar a São Paulo a cada dois meses para ter contato com o pessoal. Sobre a universidade, como não tenho mais vínculo acadêmico, vou tentar abrir o leque e desenvolver uma parceria entre a empresa e a universidade. Meus filhos me trouxeram até aqui, para que eu tivesse todas essas oportunidades e estou amando o momento em que me encontro hoje. Não me arrependo das escolhas que fiz!”, conta a mãe e cientista orgulhosa.

Constrangimento por amamentar em público nos EUA

Mãe de dois filhos, Natália Mota já enfrentou o machismo em eventos de neurociência dentro e fora do Brasil / foto: cedida

Deixar os projetos pessoais de lado para dar prioridade à carreira científica é um pensamento corrente entre quem planeja se tornar uma referência em sua área de pesquisa. Para as mulheres, a situação é um pouco mais complicada porque, apesar dos avanços no comportamento, o corpo ainda impõe limites às mulheres que optam por ter filhos mais tarde para evitar interrupções nos projetos acadêmicos. Quem enfrenta esse dilema, encontra resistência e discriminação:

“Quando comecei a frequentar os congressos e uma coisa que me tocava muito como mãe é que a Sociedade Internacional de Pesquisas para Esquizofrenia sempre colocava em seus eventos a mensagem: “aplicações de mulheres, de mães e minorias são bem vindas”. Isso é um detalhe, uma frase que te faz se sentir acolhida. Já passei por situações difíceis de ter que levar meus filhos para congressos porque estava amamentando e só podia participar de um número limitado de eventos que ofereciam salas de amamentação, por exemplo. Você acaba dependendo do bom senso das pessoas. Uma vez fui a um congresso nos Estados Unidos que não tinha nenhum preparo para receber uma mãe com um bebê. As pessoas ficaram muito incomodadas quando me viram amamentando em público porque amamentar lá é totalmente diferente de amamentar aqui. Fui assim mesmo e as pessoas ficaram chocadas. Deu muito burburinho e fiquei muito constrangida. O episódio encorajou um professor do Canadá a levar o filho dele para outro evento em Lisboa, também nada preparado para receber pesquisadores pais e mães. Eles não queriam deixar o filho dele ficar na sala e a criança já tinha 5 anos, nem dava mais trabalho. Foi outra luta e ele ficou tão constrangido que quis desistir, mas eu disse: ‘não, você não desisti nessa hora!’ Ele respondeu que não tinha noção de como era difícil para nós, mulheres. Achava que era fácil e que só a partir dali ele estava entendo por que tem tanta discussão sobre essa questão. Ele entendeu que essa é uma discussão de pais, não só de mães!, conta Natália Mota.

“Uma vez fui a um congresso nos Estados Unidos que não tinha nenhum preparo para receber uma mãe com um bebê. As pessoas ficaram muito incomodadas quando me viram amamentando em público porque amamentar lá é totalmente diferente de amamentar aqui”

Natália Mota

Além da representatividade, ter mulheres em postos de chefia e liderança no mundo acadêmico é uma janela de possibilidades para que outras mulheres adentrem esse universo, desde que políticas sejam adotadas nesse sentido:

Quando você está num posto de decisão e não tem uma mulher que seja sensível a isso, é uma grande população de outras mulheres que não vão poder participar. São esses detalhes que resultam nessa discrepância que vemos nas estatísticas. Elas fazem o trabalho pesado, mas na hora de apresentar o projeto, de concorrer às chefias de laboratório, a cargos de liderança nos departamentos, elas ficam em desvantagem porque não foram aos congressos, não fizeram sua rede de colaboração. É o que a falta de representatividade faz. Diz que você não pertence àquele lugar, que não é bem-vinda. Um homem que nasceu branco, com privilégios e que nunca precisou passar por isso, não sabe o que significa. Foi o que aconteceu com meu colega, ele não queria nem ter que falar com aquelas pessoas, mas não é por elas, é por outras pessoas para que conheçam coisas diferentes e é aqui que a gente muda essa visão”, acredita Natália.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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