OPINIÃO

Como seria viver sem jornalismo? Pergunte a um brasileiro

Parecia mais uma conversa de bar, dessas que não esperam chegar a lugar nenhum. Entre uma bebida e outra, a conclusão foi que vivemos em uma cidade que não tem jornalismo e que havíamos nos acostumado a viver sem jornalismo ao ponto de não percebermos a diferença que ele faz – ou poderia fazer – nas nossas vidas. Na semana em que todos os telejornais da principal rede de televisão ignoraram toda e qualquer interpretação que considerasse de cumprimento obrigatório a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, parece que aquele papo foi longe demais.

Se você está satisfeito com o que a mídia brasileira oferece como jornalismo e nem havia notado a falta que o jornalismo faz na sua vida, provavelmente não vai entender a gravidade da situação. Ou você pode estar no grupo de pessoas que já nem se espanta quando a mídia empresarial, na TV, no rádio, na internet, ignora temas relevantes para a sociedade para impor uma agenda conservadora ou para defender interesses privados dos donos da mídia. O jornalismo da mídia brasileira, em geral, não representa o brasileiro e fragiliza a democracia.

Foi o que, mais uma vez, aconteceu no último dia 17 de agosto. Os apresentadores do Jornal Nacional leram uma nota anunciando de forma bastante limitada a decisão do comitê e destacando as posições do Itamaraty e do ministro da Justiça, que não reconheceram a obrigatoriedade do cumprimento da decisão. Ao final, em uma frase curta, citaram uma nota do PT sem apontar a posição do partido sobre o tema. A imprensa brasileira também não repercutiu a declaração da jurista Sarah Cleveland, membro do comitê e uma das signatárias da decisão favorável a Lula, de que a decisão deveria ser obrigatoriamente cumprida pelo Brasil.

Episódios de ocultação da diversidade nos fatos veiculados pela imprensa são mais comuns do que se imagina. Em 2010, a pesquisa Vozes Silenciadas, realizada pelo Intervozes, analisou a cobertura da mídia sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou as ações do movimento. Nos seis meses de cobertura, mais de 300 matérias citaram o MST, quase 66% delas de forma negativa. Contrariando os padrões de objetividade do jornalismo, mais da metade dessas matérias usava adjetivos e 42% associavam MST a atos violentos.

Com a mídia que temos no Brasil, não dava para ser diferente. É que os donos da mídia também são donos de terra, associados a instituições financeiras, grupos religiosos e a grupos políticos conservadores. Não existe diversidade política, ideológica nem socioeconômica entre os donos dos nossos meios de comunicação. E isso pode ser confirmado pela pesquisa dos Repórteres Sem Fronteiras que analisou a propriedade dos maiores veículos de comunicação do país no rádio, TV, mídia impressa e internet. O resultado é pior do que todos os outros países pesquisados.

Por isso, quando ligar a TV ou o rádio, abrir um jornal impresso ou portal da grande imprensa na internet, desconfie de todas as manchetes. Especialmente das que falarem sobre os juros na economia, sobre os gastos do poder público, sobre o uso de agrotóxicos – que provavelmente terão outro nome –, sobre o aborto, sobre o processo judicial de Lula e, até mesmo, sobre a ONU. Por trás do que eles chamam de jornalismo, há sempre densas camadas de ideologia, interesses privados e muito autoritarismo.

Ah, e se for destilar sua raiva, evite apontar para os colegas jornalistas do “chão de fábrica”. Estão todos atolados de trabalho, com salários baixos, longas jornadas de trabalho e tanta pressão que eles mal têm tempo de pensar no que estão fazendo.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo