OPINIÃO

Como sobreviver à atividade física

Seu corpo rejeita a atividade física? Sofre de uma espécie de intolerância a exercícios? Sei bem como isso se processa e trago aqui boas dicas pra quem, como eu, precisa começar a se mexer, por recomendação médica. Reforço que não tenho a menor formação ou capacidade pra fazer aqui uma espécie de manual, nem plano de treino. Na verdade, os conselhos que aqui estão se baseiam unicamente na minha experiência de anos de autossabotagem, que vivencio sempre que me vejo obrigada a encarar esse necessário sacrifício.

Por isso desenvolvi, ao longo do tempo, algumas técnicas pra evitar essa autossabotagem de costume. Primeiro: busque um lugar perto de você. Isso vai eliminar algumas das suas inúmeras desculpas, que vão desde “parece que vai chover” até o imbatível “tenho muito trabalho hoje, melhor deixar pra outro dia”… Mas já não vai poder usar aquela velha máxima: “a academia fica longe”.

Me disseram que o mais importante era buscar algo que eu gostasse de fazer, mas sinceramente isso nunca adiantou muito. Gosto de dançar, de beber, de comer, de fazer sexo. Tirando dançar, o resto não se pode fazer numa academia, e nem tudo emagrece. E nem sempre as músicas que rolam na academia são as que gosto de dançar. Por vezes, fui forçada a dançar axé e funk com letras um tanto ridículas e passos pra lá de comprometedores. Ok, uma vez na vida, a gente até leva numa boa, mas o risco daquela porra daquela música grudar na sua mente pra sempre e te impregnar de mau gosto o resto da semana não vale o sacrifício.

Além disso, alerto que a motivação não tem que vir da vizinha escrota que te encontra no elevador e pergunta de quantos meses você está grávida, nem do desconhecido que te dá lugar no transporte público imaginando o mesmo, muito menos da balança que aponta um aumento de mais de 20 quilos desde o doce tempo de faculdade, ou sequer dos amigos e parentes que acham que estão te ajudando ao insistir nessa coisa de “tem que malhar”, como se isso fosse uma religião.

No meu caso, a força pra começar essa batalha surgiu não apenas do resultado dos meus exames, até razoáveis, mas da vontade de sobreviver mais alguns anos, pra ver as realizações da minha filha, quem sabe conhecer meus netos, e poder continuar tomando minha cervejinha até o final da minha vida, claro. Aliás, foi isso que eu disse quando o instrutor da academia me perguntou quais eram meus objetivos. “Sobreviver e tomar cerveja”, contei.

E é essa imagem da cerveja do final de semana que persigo ao correr na esteira, na minha mente. Apenas um dos artifícios que utilizo pra conseguir me manter num lugar onde os corpos sarados nos assustam a um ponto que quase chego a pensar que preciso malhar muito antes, dentro da minha própria casa, pra poder conquistar o direito de estar ali.

Mas como sobreviver aos exercícios propriamente ditos? Imaginar que alguns movimentos feitos nos aparelhos se assemelham a posições sexuais também me ajuda bastante. Outra técnica infalível é fingir sempre que está morrendo. Assim, o instrutor não aumenta a carga, as repetições ou o tempo de cada atividade. Não ouse responder a ele durante uma corrida, por exemplo, sem estar extremamente ofegante.

Sempre achei muito foda essa insistência do personal em bater um papo com a pessoa que está ali em pleno limite do corpo e da mente, frágil, apenas tentando sobreviver. É quase tão irritante quanto o dentista que, mesmo sabendo que sua boca precisa ficar aberta enquanto ele coloca o motorzinho na sua obturação, te faz um monte de perguntas aleatórias, te obrigando a responder toda babada, numa língua impossível de se traduzir.

Como morrer não é meu objetivo, embora inevitável um dia, considero que o grande segredo pra fazer uma atividade física é começar devagar, e sempre. Tem dias que chego na academia e não tenho tempo pra fazer muita coisa. Mesmo sob os olhares repressores dos instrutores, corro uns 20 minutos na esteira, faço mais dez minutos de bicicleta, e saio de fininho. Mas vou todos os dias, desde que comecei, há exatas duas semanas! rsrsrs…

Também sou completamente contra essa coisa de resultado rápido. Por isso, por regra, não me peso. Uma vez uma nutricionista ficou brava comigo porque eu só reduzi um quilo em um mês, quando uma outra paciente dela que acabava de sair da clínica, uma senhora bem mais velha que eu, havia reduzido cinco quilos. Eu respondi que não tinha problema em reduzir um quilo por mês, afinal isso significava 12 quilos em um ano. E ainda acrescentei que talvez aquela senhora não tivesse tanto tempo assim pra viver, por isso a pressa. Lógico que nunca mais voltei à clínica.

Tudo bem que o texto acima somente comprova minha total falta de know-how pra servir de inspiração motivacional pra qualquer pessoa. Só que preciso lembrá-lo que em nenhum momento me prestei a tal façanha. Não me cabe incentivar a atividade física, apenas informar que sim, é possível sobreviver à ela. E se quiser tomar uma cervejinha, não se esqueça de me chamar!

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