OPINIÃO

Como superar trauma de dentista

Como todo bom brasileiro, fujo de dentista como o diabo foge da cruz. O trauma veio de longe: aos 11 ou 12 anos, mais ou menos, achei de quebrar meus dentes da frente, definitivos, em forma de V, o que me fez dependente de catar pedaços de dente até que inventassem algo mais eficaz do que o novafil, técnica que consistia (pelo que entendo; e não entendo nada, é fato…) em colar os pedaços dos dentes de forma a aparentar nenhum fissura, o que estava longe de virar realidade.

E parece que os danados escolhiam sempre um feriado foda ou final de semana para encravar em maçãs, roletes de cana, e até num inocente pedaço de pão, e transformar meu sorriso de fachada remendado naquele triste e frustrante V que me fez deficiente de sorriso desde 11 ou 12 anos até descobrir a maravilha da faceta, espécie de plástica do dente que cobre qualquer defeito aparente com uma fina camada de porcelana.

Talvez o trauma tenha vindo de um pouco antes desse momento, quando então meus dentes de leite amoleciam e minha mãe achava de retirá-los de uma maneira nada ortodoxa (ou por demais ortodoxa, sei lá): amarrava fio dental no dente mole e prendia a outra ponta na maçaneta da porta, que fechava abruptamente para arrancá-lo assim, com toda delicadeza. Lembro de tentar repetir isso com minha filha, quando os dela começaram a amolecer, mas sem sucesso, vez que não adquiri na vida qualquer habilidade para tamanha tortura.

Outros tantos traumas vieram depois: retirar os sisos, com a sensação de que haviam retirado um órgão meu só com anestesia local, sendo possível sentir até mesmo o repuxão do momento em que ele era arrancado das minhas entranhas, sem contar a decepção por não ser assim tão evoluída a ponto de ter nascido sem esses dentes-órgãos.

Usar aparelho também deve ter ajudado, apesar da garantia de que um dia eu iria me acostumar com aquele corpo estranho apertando meus dentes e modificando até minha habilidade de falar e que, ou forçava uma dieta eterna durante os encontros sociais, ou me transformava em um animal ruminante capaz de manter boa parte de uma refeição ali por até oito horas.

Mas depois de tanto tempo fugindo, recentemente resolvi procurar tratar novamente da saúde bucal por motivos de dor mesmo, num dos molares, que acabou morrendo em um canal. E, já que estava lá, pedi que avaliassem o estrago dos demais. Após a avaliação, que praticamente desenganou quase todos os meus desgastados dentes de trás, comecei a me submeter ao tratamento que exigiu o preenchimento de quase um livro de requisições do meu plano odontológico.

E talvez pelo longo período em que ficaremos ligados intimamente pela minha boca, passei a analisar cada uma dessas etapas do processo para que, na pior das hipóteses, virassem crônica. Um dos procedimentos que mais me intrigou, e que, confesso, ainda estou com dificuldade para me acostumar: foi quando de repente colocaram em mim as tais “guias caninas”, que eu nunca senti falta e sempre vivi bem sem.

Do que se trata? Nada mais é que um prolongamento em resina dos seus caninos, para que somente eles toquem um no outro ao ranger os dentes de cima com os de baixo. Disseram que era isso que estava desgastando mais depressa meus dentes de trás: o bruxismo que eu nem sabia que tinha e que deixara reto meus caninos, perdendo a função vampiresca de cortar a carne, entre outros alimentos.

A verdade é que não tenho sequer lembrança de quando diabos eles foram pontudos, no melhor estilo Patrícia Arquette. Por isso, estranhei sobremaneira a novidade. Parecia que eles sequer cabiam na boca, como se ficassem com aquelas pontinhas de fora ameaçando morder alguém a qualquer momento. Até pra falar, tive alguma dificuldade, além de me impossibilitar roer as unhas, o que era uma terapia.

Mas agora já até os exibo com o orgulho de quem pertence à família do Drácula, e penso mesmo que minha mais nova cantada certeira talvez seja: oi, você já viu minhas guias caninas? rsrsrs…

E depois das guias caninas, hoje me encontro na melhor fase do meu tratamento. Não pelo procedimento que estou fazendo, mas pelo charmoso dentista que me atende. Certo que é um tanto constrangedor que ele conheça todos os meus mais terríveis buracos (e não os que eu gostaria de mostrar).

Também não é nada fácil sensualizar ou começar qualquer papo com a boca aberta, anestesiada e babando, muito menos quando ele me dá apenas um simples e minúsculo lenço de papel para limpar o rosto, depois de levar um banho dos respingos daquele chato e conhecido motorzinho.

Mas essa fantasia que criei, mesmo sem fazer ideia do que existe por trás da máscara que ele usa, tem pelo menos me animado a continuar o famigerado tratamento. Porque agora já não é mais só com o barulho do motorzinho no meu dente que eu ando ficando arrepiada.

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