OPINIÃO

Confinamento: não morrer de Coronavírus, nem de vodca nem de tédio!

Lá vamos nós para o final do mês de maio, quase iniciando junho e perto dos dois meses e meio de isolamento social, distanciamento ou, para sermos mais exatos, confinamento. Necessário – isso nem se discute – para evitar o contágio de Covid-19 e não deixar a curva de infecção crescer, colapsando o sistema de saúde. Necessário, mas, complicado. Em todos os aspectos.

O fato é que o confinamento está mexendo com a cabeça de todos nós. Normal. Todos acostumados ao ritmo acelerado quase sempre externo (trabalho, escola de filhos, universidade, cursos, serviços, mercado, compras, shoppings, equipamentos culturais, diversão etc) o encarceramento em casa vem gerando situações diversas e problemas, claro, em diversos graus.

Antes de mais nada é necessário que se diga que faço parte dos privilegiados em isolamento. Tenho emprego na iniciativa privada, recebo meu salário no final do mês, consigo trabalhar com home office, moro em um lugar cercado de mercados, padarias e serviços essenciais abertos e bem próximos e pela minha situação particular não tenho ninguém do grupo de risco para tomar conta ou ter cuidados. Dito isso, também passo pelos meus altos e baixos, como todo mundo e observo com olhar de jornalista e escritor, minhas duas ocupações, o efeito deste isolamento nas pessoas.

Como escreveu a atriz Vera Holtz, “Quando o ano começou em tinha diversos planos, agora tenho um só: sobreviver”. Parece ser a meta de todos nós, visto que apesar da baixa letalidade do vírus, ele tem imenso poder de contágio, e uma vez contraindo uma doença que não tem vacina ou cura, viver ou morrer passa a ser uma roleta russa. Que é o que estamos jogando neste momento. O isolamento é uma maneira de manter o revólver da roleta russa a uma distância longe de nós.

Contudo, este isolamento traz por si só problemas outros. Comecemos pelos mais concretos e graves. Já se detectou aumento considerável nos casos de violência doméstica durante este período. Famílias com pessoas tóxicas e agressivas – pelo que mostram os números geralmente o homem/pai da casa – têm um desafio duplo, portanto, sobreviver ao Covid-19 e à violência.

Outro problema é a depressão, e também, apesar dos números inexatos, já se nota aumento no índice de suicídios. Causados pela solidão (no caso de quem cumpre sozinho o isolamento) ou problemas justamente no relacionamento com familiares tóxicos/agressivos. Existe ainda um componente externo que é a conjuntura nacional com o atual (des)governo, como apontou a emocionante e trágica carta deixada pelo ator Flávio Migliaccio, que tirou sua vida há duas semanas lançando parte da culpa pelo seu ato no Brasil, um país que nos adoece, como se disse.

Também não existem pesquisas aprofundadas sobre consumo de álcool pelas pessoas confinadas, mas creio que é um número alto e que vem se tornando ainda maior de acordo com o passar das semanas. Um fato isolado mas, sintomático: Em um rara saída para o eixo supermercado-padaria, parei na distribuidora de bebidas na esquina da rua com a avenida para comprar meu pack de cerveja e perguntei ao dono se as vendas haviam caído (o que donos de restaurantes e bares vem me reclamando há meses). “Pelo contrário”, respondeu, “aumentaram as vendas em 30%”. Não precisa ser sociólogo nem detetive para ligar os pontos e perceber que este consumo de álcool terá ligação direta com os já citados problemas de violência doméstica e depressão.

Para quem milagrosamente consegue escapar do vírus e de tudo o mais há o fantasma do tédio, perigoso porque pode ser gatilho para a supracitada depressão. Quem está em home office ainda tem seu quinhão de trabalho remoto a fazer e depois se virar com o, digamos, tempo livre. Para quem não tem home office a fazer, trata-se de muitas horas de tempo livre.

O poeta russo Maiakovski cantou em uma poesia conhecida que “é melhor morrer de vodca do que de tédio”. Nestes tempos atuais tentamos todos não morrer nem de uma coisa nem de outra. E muito menos de um vírus sem cura.

(Para isso, fique em casa, portanto!)

 

 

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