OPINIÃO

Confissões inconfessáveis dos ladrões de sonhos…

Desde que usurpou a cadeira da Presidência, o golpista nosferatu dos infernos – que atende pelo nome Michel Temer – tem colecionado trapalhadas na sua obtusa comunicação com o país, seja através de entrevistas, quando cai constantemente em contradição nas suas tortuosas e esdrúxulas exposições verbais, seja pelas redes sociais “pessoais” do próprio – onde inúmeros comentários “sem noção” têm sido a regra da comunicação – seja através da própria assessoria de imprensa do Palácio do Planalto, que se tornou especialista em ser vaga, omissa e igualmente contraditória. Aliás, não é só prerrogativa do perpétuo “vice decorativo” se comunicar de maneira atabalhoada (me recuso a chamá-lo de Presidente, visto não passar de um escroque aventureiro, um verdadeiro gangster, esse é nome que se dá a lideres de organizações criminosas de macro escala como o Ex-procurador da República Rodrigo Janot definiu ao nomeá-lo “líder de uma organização criminosa do PMDB da Câmara e do Senado”) todo o círculo dos golpistas vive patinando em frases que entregam o real sentido de suas ações, ou seja: por trás de toda retórica de salvação nacional, de estabilização do país, queda da inflação – uma piada, a menor inflação dos últimos anos se deve a falta de consumo, e não a austeridade orçamentária do governo, que não cansa de aumentar o rombo das contas públicas com a permanente gastança para comprar votos e manter o golpista no lugar para o qual nunca foi eleito. O que temos na verdade é o que nós já sabíamos e temíamos, e por isso lutamos tanto contra eles ontem, hoje e amanha: um Golpe de Estado que em um ano desmontou o incipiente “estado de bem estar social brasileiro” tão ambiciosamente perseguido, construído, por 13 anos.

Claro que sabemos que antes as coisas não eram todas tal como queríamos, mas víamos os avanços no nosso cotidiano. A inclusão dos pobres, dos negros, dos LGBTs e das mulheres nas universidades graças às políticas de cotas sociais e ou raciais é um belíssimo exemplo desse esforço. Quando ingressei na graduação do curso de história da UFRN há 17 anos – portanto ainda no governo FHC -, o que vi foi uma instituição falida. Contas de luz não pagas faziam com que apagões fossem uma realidade quase cotidiana da UFRN; a estrutura física caía pelas tabelas; os recursos humanos, sobrecarregados, precarizados, desvalorizados, sangravam, choravam, diante dos nossos olhos. Vivi, como estudante, a maior greve da história das universidades brasileiras. Foram mais de oito meses de paralisação diante do desmonte ostensivo que se fazia da nossa educação pública superior. Além disso, era também uma instituição profundamente elitizada. seu corpo docente e discente eram o absoluto retrato das desigualdades históricas que marcam a sociedade brasileira. Lembro que na minha turma de cinquenta calouros, apenas dois eram provenientes de escolas públicas, uma amiga do IFRN – na época CEFET, também em processo de desmonte – e eu, oriunda do Instituto Padre Miguelinho. Hoje, como docente nessa mesma instituição, vejo um vislumbre daquilo que idealizou Che, ao desejar que a universidade “se pinte de negro, de índio, de povo”. Hoje, consigo ver nessas pessoas os sonhos de uma vida melhor se realizando através da formação superior de qualidade oferecida nas nossas instituições públicas federais de ensino. Às vezes mesmo, me emociono ao encontrar ex-colegas de adolescência do Padre Miguelinho somente agora tendo condições de acessar a universidade, graças ao tipo de política pública que citei acima. Hoje, vejo uma instituição referência em qualidade de ensino, com uma estrutura física invejável, elogiada mesmo pelos estrangeiros que o nosso famoso complexo de vira latas gosta tanto de reverenciar.

Aí, alguém pode dizer que dar educação de qualidade é obrigação do Estado. De fato, mas essa obrigação vinha sendo cumprida com excelência durante a historia do Brasil? Não, e quem foi que o fez? O famigerado governo do PT, né? Então, aquilo que era pra ser uma política de Estado, foi na verdade uma política de governo, daquele governo, do nosso governo, aquele que nós fomos legitimar nas urnas em quatro eleições seguidas. Não esse governo golpista, que tem na sua agenda três questões principais: o desmonte das conquistas sociais do povo brasileiro; a entrega das riquezas naturais do país aos grandes capitalistas estrangeiros e a paralisação de todo tipo de agenda de inclusão dos movimentos sociais do Brasil. Basta ler a redação do novo Plano Nacional de Educação. É de dar dó. Toda e qualquer referencia a contribuição histórica dos povos negros e indígenas foi suprimida. Não é mais dever do Estado fornecer transporte nas áreas rurais, garantir a permanência estudantil através de políticas de assistência. Enfim, é o fim do ideal de uma educação publica de qualidade e de acesso universal aos brasileiros, coisa que sem duvida com mais uma década de governo do PT teríamos conquistado. A fantástica expansão dos IFs é só o mais pungente exemplo disso.

Assim, o que o Golpe roubou não foi só o mandato da presidenta Dilma. Foram os sonhos de uma vida melhor dos brasileiros. Foi o voto, a confiança de um país num projeto de nação que foi usurpado. Por isso agora os chamo de “ladrões de sonhos”.

Sabemos muito bem que não foram só nossos sonhos que foram roubados. Nosso dinheiro e dignidade também o foram. Na mitologia romena, o vampiro, Nosferatu, não é apenas uma criatura que se alimenta do sangue de suas vitimas, também sua alma, seu âmago, são sugados, pela incansável sede de poder e sangue (leia-se poder como dinheiro e o sangue como o trabalho do povo brasileiro) desse usurpador que hoje tem a pretensão de se declarar “Presidente do Brasil”. Tanto ele quantos seus comparsas, seja pela falta de preparo intelectual seja pelo mal caratismo que muitas vezes não se consegue disfarçar totalmente, vivem “se entregando” em suas falas. Temer, pouco depois de derrubar Dilma, deixou escapar na grande imprensa que o “Impeachemant foi um Golpe” para, logo depois, ao perceber o “ato falho”, emendar dizendo, “Golpe é como eles chamam, né?”. Essa foi apenas a primeira, de uma serie de comunicações oficiais que além de confusas, deixavam escapar pontualmente a verdade dos fatos, o que aconteceu de fato e os reais interesses desses atores sociais.

A mais recente foi a do potencial segundo presidente da república investigado por corrupção no exercício do mandato, presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que declarou que, apesar do clima tenso entre DEM e PMDB – tal como hienas que se unem para abater a presa mas depois brigam terrivelmente pela carcaça – ele, Rodrigo Maia, e o DEM, não fariam o que eles todos tinham feito com Dilma: não dariam uma “facada nas costas”, não trairiam Temer. Em mais esse “ato falho”, Maia assume o que foi o impedimento de Dilma: uma traição, uma vingança (de Eduardo Cunha, pela negativa do PT em ceder a sua chantagem política), uma “punhalada nas costas”.

No caos institucional que se estabeleceu a partir de então, os usurpadores da democracia seguem confessando o inconfessável. Sem dúvida, quando chegam em casa, devem refletir sobre todas as falas entregadoras que acabam por fazer, talvez ate como diria Chaves “sem querer querendo”, e olha que estou me atendo apenas aos pronunciamentos públicos para a grande imprensa, por que, se passarmos à analise dos grampos em que praticamente todos eles foram pegos, aí as confissões inconfessáveis saltam aos olhos e acima de tudo ouvidos da sociedade de maneira avassaladora, levando-nos a não ter nenhuma duvida sobre qual é o lado certo da história, que sem dúvida não é o dos golpistas, vampiros sugadores dos sonhos do nosso povo.

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Historiadora e Militante LGBT