CULTURA

Conheça Edu Araújo, o roteirista potiguar responsável pelo sucesso do esquete “Sudestino”, do Porta dos Fundos

Todo nordestino se sentiu um pouco vingado ao assistir o esquete “Sudestino”, do Porta dos Fundos, que expõe com ironia estereótipos e preconceitos contra a porção superior do mapa do Brasil. O principal nome por trás da produção é Eduardo Araújo, um potiguar que fez carreira como roteirista no Rio de Janeiro, mas tem orgulho de casa.

Nascido e criado em Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde ainda vive sua família, Eduardo foi morar no Sudeste em 2011 para cursar uma pós-graduação e lá ficou. Em 10 anos, ouviu muito do que está escrito no texto interpretado pelos atores Gregório Duvivier, Ademara Barros e João Pimenta.

Segundo ele, durante esse tempo, todos os palpites sobre sua naturalidade foram errados. “Nunca ninguém acerta. Nunca chutaram Natal”, conta, com o sotaque já misturado.

Edu, como assina e é chamado, lembra que logo ao chegar na nova cidade, ouviu um comentário infeliz: “A menina disse: é o primeiro nordestino que eu conheço e não é porteiro no Rio. Eu jamais menosprezaria nenhum tipo de profissão, mas não somos só porteiros”.

Crédito: Sergio Zalis / TV Globo

Apesar disso, a maior motivação para o recente trabalho foi o preconceito velado. “Estava conversando com uma amiga, Natália Cruz, que é negra, de Brasília e já foi roteirista e atriz no Porta… As pessoas falam assim: é de Recife? Não, sou de Natal. Aí falam que é tudo muito parecido. A Natália olhou pra mim e disse ‘Eles não têm nem vergonha de falar isso. É uma falta de respeito’ e eu concordei”, narra, ao comentar sobre os múltiplos jeitos de falar e costumes do povo de cada estado.

“No próprio Rio Grande do Norte tem pessoas muito diferentes. Quem é de Caicó é diferente de quem vive em Mossoró, por exemplo. Dentro de Natal mesmo tem a turma mais ligada ao litoral, tem a Zona Norte, o pessoal da Redinha, são tão múltiplos. Tem gente que diz ‘Eu amo o Nordeste’, aí você só foi pra Paraíba”, ri.

Após 1,2 milhão de visualizações no vídeo considerado a revanche contra o eixo Sul-Sudeste, Edu confessa que não imaginava que geraria tal repercussão, apesar de sentir que as pessoas queriam falar sobre o tema, na sua mente há muito, tomando forma.

O esquete levou um ano e meio para ser escrito. “Somos trabalhadores da palavra. Toda a mesa lê, comenta e vai trabalhando o texto. A gente reescreve muito mais do que escreve. Um ano e meio depois esse esquete saiu no momento que essa pauta está mais aquecida e avançou”, explica, lembrando de personagens como Juliette e Gil, do BBB, que ganharam o público de todo o país, e do episódio que envolveu Antônia Fontenelli, destilando o clássico termo “paraibada” pra falar de coisa mal feita.

Antes disso, Araújo viu o premiado espetáculo “A invenção do Nordeste”, do grupo Carmin, que o levou ao livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior. A partir daí surgiu um incômodo mais agudo relacionado ao tema: “falam tanto em lugar de fala e talvez eu tenha encontrado o meu”.

O escritor conta que recebeu muitas mensagens de pessoas que se reconheceram na história, “como território, mas não como uma única massa”.

“Fui muito feliz em conseguir traduzir um sentimento. Fiquei muito feliz de tirar do gogó o que tava no de muita gente. Eu sou um cronista e tenho que traduzir um tempo, que infelizmente é o da xenofobia”, lamenta.

Redescobrindo seu lugar

Eduardo saiu de Natal aos 23 anos. Morava em Lagoa Nova, menino de classe média, que estudava no Salesiano. Acabou fazendo Comunicação Social – Publicidade, porque faltaram alunos para fechar turma de Jornalismo – sua primeira opção – na UnP.

“Eu não sabia nem o que era Publicidade”. Deu certo por um tempo, mas hoje, aos 33 anos de idade, conclui que não é o “rolê” dele. “Veio uma questão ideológica, pra mim sempre foi meio incomodo trabalhar com Publicidade. O quanto a gente incentiva o consumo desenfreado. Pra quem que eu tô trabalhando, o que eu tô alimentando?”, questiona.

Em Natal, chegou a se ocupar como produtor audiovisual, fez campanha, propaganda e produziu na filial da Rede TV.

Chegou a morar em Madri, na Espanha, ainda na faculdade. No Rio, quando foi se especializar em Comunicação, entendeu que tinha uma novo lugar. Não só geográfico, mas também profissional.

O roteirista lembra que certa vez durante passeio na Bahia, o homem que guiava um barco onde estava, ao saber que era do RN e vive no RJ, disse: “Você é muito forte, porque é filho de água doce. Dois rios te atravessam”.

“E ele falou isso de um jeito tão natural, de sabedoria popular. Eu acho muito bonita essa metáfora”, comenta, ao confessar que foi se distanciando de sua terra natal e que ficou feliz com a reaproximação gerada pelo sucesso do trabalho.

“Tem muitos amigos do final da adolescência, mas ao mesmo tempo você cria outra história na nova cidade e vai se distanciando. Sinto também que a cidade [Natal] não sabe quem sou eu. Nesse momento do esquete fico feliz da cidade me descobrir. Fico me perguntando em como retribuir pra cidade. Penso em um dia abrir um centro cultural. Minha família mora aí, então é minha casa”, conclui.

Foto: Ramón Marinho

Plural

Além de considerar que tem dois lugares no mundo, Eduardo se descreve como muito geminiano: “Eu tenho uma coisa muito múltipla e eu gosto disso, não sou muito de prateleira, de rótulo, tudo me interessa. Eu tô no Porta dos Fundos, como roteirista, mas faço vários freelas. Meu contrato permite”.

Ele é roteirista agenciado pela Condé+, vinculado a Associação Brasileira de Autores Roteiristas (Abra). Trabalha também no “Música Boa Ao Vivo”, apresentado por Ivete Sangalo, no Multishow; no “E aí, professor”, do Canal Futura; podcast da revista “Quatro Cinco Um” e mais “umas coisas pra Globo”, que ainda não estão reveladas. E não é a primeira passagem pela emissora.

“Trabalhei na Globo, produzindo conteúdo pra internet. Movimentava o @redeglobo. Fiz muitas arrobas de grandes marcas. Comecei a estudar roteiro, na Academia Internacional de Cinema e vi que é isso que eu quero”.

Recorda que um dos primeiros empregos no Sudeste foi no Rock in Rio e algumas pessoas, com toda certeza bem intencionadas, lhe diziam coisas como “sabia que você ia chegar lá”, mas Eduardo problematiza: “o que é chegar lá, onde é?”.

Para ele, aquela função, como outras que teve, incluindo as atuais, são conquistas, mas conquistas profissionais. “O lugar para o qual você trabalha não pode ser o fim. Seu sonho não pode ser trabalhar pra uma marca. Eu tenho outros sonhos”.

Mesmo assim, o labor é parte importante desses objetivos. O geminiano acredita que não tem coisa mais bonita do que trabalhar com o que se gosta: “É delicioso começar o dia com uma página em branco e terminar com ela preenchida. Entendo muito como um ofício. Eu brigo muito por cada vírgula”.

E foi no Rock in Rio que começaram as conexões para que chegasse ao Porta dos Fundos, motivo pelo qual Natal reconhece Edu. Foi apresentado a Christian Rôças, o Crocas, na Agência Artplan, com o festival de música.

“Na época, Crocas era meu chefe. Um dia ele publicou que virou CEO do Porta, desejei sucesso e ele disse ‘vem junto’. Eu estava entre Rio – São Paulo escrevendo documentário e, um dia, andando na rua, levando uma mala pra consertar, encontrei com ele e Marcia Zanelatto, que coordena a sala de roteiro, em uma fase em que estavam querendo novos roteiristas”.

Conversa, entrevista, envio de material inédito e reunião com os sócios foram as etapas do processo que levou Edu aos 1,2 milhão de cliques com “Sudestino” e outros vídeos que estão no canal do YouTube. “Pra mim é um prazer, um privilégio pensar junto com um grupo tão importante pra linha do tempo do humor nacional. Trocar com todos eles é muito interessante”, resume.

Raízes

O bom humor, a praticidade e o senso de justiça parecem acompanhar Edu desde períodos passados. Ele frisa que é filho de um casal de Humanas. O pai, já falecido, era historiador e bancário. A mãe é professora de Português do Estado e do Município. Cresceu rodeado de literatura e música nacional. “Amo tudo que é Brasil.”, afirma, alertando que não usa camisa da CBF – que se tornou símbolo do reacionarismo no Brasil.

Não é com o falso nacionalismo bolsonarista que Eduardo se interessa pelas questões brasileiras. Quer uma sociedade mais justa. Comemora o fato de ter sido criado com liberdade e lhe ocorre que no fundo a família torcia para que ele contasse logo que era gay. “Sempre respeitaram meus namorados. Sempre foi no afeto”, orgulha-se.

O amor e o respeito que aprendeu justificam sua revolta. “Quero um Brasil de Gonzaguinha, Vianinha, Belchior e tanta gente. Sinto muita raiva, tristeza”, diz, voltando para a eleição de Jair Bolsonaro, quando chorou pelo que poderia acontecer.

“Fiquei com muito medo e eu sei que tô no topo da pirâmide do privilégio. Sou branco, cis, moro no Rio de Janeiro e tive medo de apanhar na rua”, admite.

“Estamos vivendo uma tristeza profunda. Meus pais me vestiram com camisa do PT, fui um adolescente dos governos Lula. Eu vi o Gilberto Gil ministro da cultura, isso era muito grande. Eu vi as leis culturais acontecendo, o cinema voltando”, compara com perturbação. “Queria muito que fosse diferente, mas a gente segue dando o nosso recado. E isso de alguma forma é alguma coisa”.

 

 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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