OPINIÃO

Construções e narrativas

A história é contada a partir de fatos e versões sob as mais diversificadas óticas, se é que podemos assim afirmar. A humanidade, desde que se descobriu como agente social e, portanto, se sujeitando às normatizações e regras de convívio social, estabelecido pelos grupos dominantes que se sobrepõem à maioria, por exemplo, vem edificando a sua trajetória por aqui a partir da construção de narrativas que interessam aos grupos do momento e ocasião.

Essa constatação é apenas para nos situarmos no contexto da atualidade brasileira, identificando aqui, semelhanças com momentos vividos pelo mundo ao longo dos tempos.

A história do Brasil sempre foi alicerçada na construção de narrativas e discursos com forte carga de pressão sobre os mais desvalidos. Foi assim com os Portugueses liderados por Cabral que em nome do império conquistaram as novas terras subjugando os primitivos habitantes da terra brasilis. E assim, sucessivamente, tem sido até os dias atuais.

O Brasil contemporâneo, que respira ares democráticos e tem uma jovem senhora constituição, na flor dos seus 32 anos, mas consolidada em seus preceitos mais importantes de garantias e deveres, assiste a uma onda de turbulências provocadas pela instabilidade emocional que passou a tomar conta da sociedade e ganha contornos mais fortes nas redes sociais. E, a partir de quem deveria exatamente passar e transparecer tranquilidade para o país poder viver sua plenitude democrática com crescimento econômico e social.

O tecido social brasileiro anda doente. E a chaga mais exposta é a intolerância que assola nosso continente particular. A razão disso podem ser várias, mas me atenho à construção de uma narrativa que se estabeleceu a partir das eleições de 2018. Inicialmente o negacionismo do que estava posto, estruturado em discursos inflamados contra exatamente aquilo a que imensa maioria do povo estava cansado de vivenciar. O primeiro passo para consolidar a nova trajetória.

A partir da vitória de Bolsonaro, se instalou no País a construção de novas narrativas para um país livre de corrupção, puro politicamente e isento dos modelos tradicionais e históricos de se conduzir uma República democrática. A principal narrativa começou a cair já nos primeiros meses da nova gestão.

A partir de então, o discurso do ódio ganha uma dimensão exponencial, assim como a infecção causada pela pandemia. O vitimismo centrado na narrativa de uma imprensa inimiga, um STF que se desmonta com um cabo e dois soldados e a negação do legislativo como poder efetivo e construtor dos pilares democráticos, escondem na verdade a fragilidade não de um governo, mas, essencialmente, de um presidente que não consegue governar com tranquilidade e a cada manhã, precisa criar uma crise a partir dos inimigos imaginários que surgem nos gabinetes do ódio, nas teses conspiratórias e na mente doentia de quem, ao invés de pensar grande, um Brasil de futuro, se estabelece nos discursos negacionistas e de que o mal existe e se estabelece em tudo e em todos aqueles que não concordam com as teorias do grupo dominante na atualidade.

O Brasil vive atualmente sob a narrativa do confronto. O ódio, a intolerância e a beligerância sempre pautadas a partir da existência de inimigos do poder, estão transformando para pior a saúde dos brasileiros.

Aquele País de um povo alegre, ordeiro e hospitaleiro das poesias, cede lugar ao País inzoneiro daquela canção, que a cada dia vê descontruídas um pouco mais as suas melhores qualidades.

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