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Cooperativa de crédito é alternativa para reduzir custos em tempos de crise econômica

O colapso financeiro do país, agravado nos Estados que mais dependem de recursos federais, como o Rio Grande do Norte, anexou ao cotidiano da população a palavra “crise”. A qualidade de vida é uma equação matemática. Quando a economia vai mal, a vida do cidadão comum piora.

Em tempos de recessão, surgem fórmulas paliativas e geralmente ineficazes. Empresas contratam palestras motivacionais para melhorar o desempenho dos funcionários, autores de livros de autoajuda vendem mais e agiotas aumentam a própria renda às custas do suor de cidadãos cada vez mais endividados.

No entanto, há experiências já consolidadas tanto no Brasil como no exterior que, em momentos de crise econômica, se apresentam como alternativa mais segura. Os bancos cooperativos são exemplos de iniciativas que ganharam força na Europa e vêm atraindo milhares de trabalhadores e especialmente empresários no mundo.

Com mais benefícios oferecidos aos cooperados, incluindo taxas bem menores do que a de bancos tradicionais, os sistemas financeiros cooperativos ainda devolvem aos associados parte significativa do lucro gerado a partir de investimentos e aplicações na cooperativa.

Instalada no Rio Grande do Norte desde 2001, a CredSuper é uma das 117 cooperativas de créditos filiadas ao Sicredi, primeira instituição financeira cooperativa do país com 3,7 milhões de associados espalhados em 1.575 agências de 21 estados.

Os números da CredSuper em 2017 no Estado surpreendem, principalmente pelo agravamento da recessão no país e no RN. Além de ampliar em 15% o número de cooperados, a carteira de crédito aumentou em quase 30%. O patrimônio líquido da cooperativa chegou a quase 20% e a captação de depósitos alcançou crescimento superior a 55%.

Em sete anos, no Rio Grande do Norte,  a CredSuper saiu de um capital inicial de investimento de R$ 35 mil para R$ 150 milhões e, em 2017, ao final do ano fiscal, a cooperativa ainda distribuiu entre os associados um excedente de R$ 2,4 milhões. O valor dividido entre os cooperados vem subindo. Em 2015 o excedente repartido foi de R$ 1,7 milhão e chegou a R$ 2 milhões no ano seguinte.

A maioria dos cooperados são professores e funcionários da UFRN, além de pequenos e médios empresários.

Entre engordar o caixa dos banqueiros e se associar a um sistema que dá retorno em dinheiro aos cooperados, a escolha parece simples. O que falta, nesse caso, é informação.

O presidente do sistema Sicredi/CredSuper no Rio Grande do Norte Manoel Santa Rosa, lista várias razões para o crescimento da cooperativa. Um deles é o modelo que não transforma o excedente gerado pela aplicação de muitos em lucro para poucos, como reza a cartilha dos sistemas financeiros tradicionais.

– O excedente não vai se tornar lucro para alguém. A expansão do cooperativismo se dá num elo umbilical dentro dessa lógica. Não preciso repassar o custo todo para o cooperado. Posso passar de uma estrutura que reduz meu custo e com isso gere um resultado mais positivo para todos.

Santa Rosa chama de “justo custo” essa relação entre receita e despesa no sistema cooperativo.

– Sou contador. Tudo o que você produz tem custo. Mas o diferencial da cooperativa para o mercado é que pagamos, absorvemos e cobramos um valor de modo que tenhamos receita para compensar os custos. Assim como em todo lugar, a receita tem que superar o custo, mas a diferença entre o que se arrecadou e o que se pagou retorna pra quem ajudou a pagar as despesas. É o que chamo de justo custo.

Contador por formação, ele acredita e defende o modelo de cooperativas como alternativa não apenas para momentos de recessão na economia. Ainda assim, ressalta que, em tempos de crise financeiras, experiências como essa se mostram ainda mais fortes e próximas das pessoas.

– O cooperativismo é compartilhamento. Assim como o amor, é importante sempre. Mas é mais forte na hora da dor e ainda mais visível nos momentos de dificuldade financeira.

O custo menor para os cooperados, o que engloba tarifas menores que as cobradas pelos bancos privados e públicos, refletem diretamente na aplicação e investimento da CredSuper, e principalmente no compromisso dos associados.

Atualmente, mesmo em meio à maior crise financeira do Estado, com o funcionalismo estadual recebendo os salários atrasados há 27 meses consecutivos, a taxa de inadimplência na cooperativa do Rio Grande do Norte é menor do que 1%. A título de comparação, o mercado trabalha com uma taxa de 5%.

– Isso (inadimplência) pesa no final. Principalmente porque no período de crise todo mundo reduz custo. Um cliente de um banco que paga R$ 11 no boleto tradicional, vem para a cooperativa e paga de R$ 2 a R$ 3 no mesmo boleto. Tínhamos um cliente que não estava conseguindo pagar num banco parcelas de R$ 600 por mês pelo empréstimo. Nós fizemos uma operação de crédito e em 24 meses ele quitou. Então, o sistema cooperativo trabalha para inserir a comunidade nesse modelo, criamos um elo de ligação com as pessoas. Por isso que a 1% de inadimplência você consegue administrar os custos.

Modelos 

Experiências de sistemas cooperativos no exterior comprovam a solidez desse tipo de modelo. Santa Rosa cita que na Argentina, por exemplo, só quem não teve perda com a recessão foram os bancos cooperativos.

Na Europa, os sistemas financeiros cooperativos vêm se mostrando fortes, independente de crises, como a do Euro. Na Alemanha, a soma apenas das carteiras de crédito dos bancos cooperativos é maior que toda a carteira de crédito dos bancos, cooperativos e tradicionais do Brasil, onde apenas o cheque especial é responsável por gerar R$ 18 bilhões aos banqueiros.

– A carteira de crédito no Brasil é de R$ 2,392 trilhões. Na Alemanha, somente o banco cooperativo obteve R$ 2,4 trilhões. Os bancos público têm 40% da fatia do mercado e o cooperativo já conta com 30%. Quem tem dinheiro na Alemanha são os bancos cooperativos. Na França, os bancos cooperativos representam 70% do mercado. A Suíça possui 2 milhões de associados que gastaram R$ 7 bilhões para transformar os terminais bancários em máquinas ambientalmente sustentáveis que não geram poluição. Então, as cooperativas possuem esse papel social.

Experiências cooperativas deixaram marcas

A cartilha do cooperativismo inclui 13 ramos específicos: consumo, social, trabalho, educação, transporte, agropecuária, saúde, crédito, habitação, produção, infraestrutura, mineral, turismo e lazer.

De todos, Manuel Santa Rosa já trabalhou em oito. Além do sistema de crédito, pelo qual se dedica atualmente, também atuou no ramo de infraestrutura, construindo um condomínio de 136 casas populares, em Parnamirim, projeto concluído em 2008.

Outra experiência marcante foi como gestor da Cooperativa Educacional do Rio Grande do Norte (Coeduc), escola modelo que funcionava a partir de uma experiência cooperativa nos anos 1990 e 2000.

Com uma mensalidade mais baixa que a das escolas tradicionais, transformou a vida de muitos estudantes e até hoje é lembrada com carinho por quem passou por lá. Ex-aluna da Coeduc, a jornalista e bacharel em Direito Nicole Tinôco acredita que a experiência contribuiu inclusive para sua formação enquanto cidadã:

– Estudar no Coeduc foi uma experiência mágica. Era uma escola cooperativa feita por pais e mestres que contribuiu de forma direta para a formação do meu caráter, e mais que isso, na construção da cidadã que sou hoje. Tive contato com temáticas de esquerda muito cedo, uma formação política sólida, o estudo era partilhado com viés alternativo e não oficial.

A cartilha do cooperativismo segue sete princípios: adesão livre e voluntária; gestão democrática; participação econômica; autonomia e independência; educação; formação e informação; intercooperação e interesse pela comunidade.

Para Santa Rosa, o fortalecimento do cooperativismo em todos os setores passa pela conscientização e informação da população e mais investimento da própria comunidade acadêmica. E cita, além da CredSuper, a CAURN, plano de saúde que também funciona a partir do modelo de cooperativa.

– Falta a academia visualizar a cooperativa. Não tem uma dissertação de mestrado sobre a CredSuper ou CAURN. Falta a academia abraçar o cooperativismo. Seríamos ainda mais fortes.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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