OPINIÃO

Copa do Mundo é o paraíso para quem não curte futebol

Copa do Mundo, todo mundo sabe, é igual a político na comunidade: só de quatro em quatro anos, pontual e religiosamente, chova ou faça sol. É a festa maior do futebol, consagra mitos, destroça craques, cria heróis improváveis, é um parque de diversões quase diário durante um mês para quem gosta de futebol, acompanha os jogadores nos campeonatos nacionais e continentais. Mas também é um verdadeiro paraíso para quem, digamos, não é muito ligado ao chamado esporte bretão no dia a dia.
 
Como Copa além de futebol é festa, torna-se o momento dos lúdicos, discípulos de Armando Nogueira, aproveitarem para derramar suas veias líricas: e da-lhe textos poéticos sobre o gol perdido do senegalês que mostra todo o brio de sua raça negra; sobre a torcedora nórdica aos prantos pela derrota da sua seleção; sobre o menino asiático que olhava o céu enquanto sua seleção era eliminada nos pênaltis. E haja textos sobre lágrimas, suor, determinação, fibra, raízes, termos supra usados. Aí passa a Copa esse pessoal foge de um Náutico x Ceará como o diabo foge da cruz.
 
Tem também os histórico-geográficos. Que importa que no mundo globalizado de hoje jogadores portugueses joguem em Manchester e Mônaco e ganhem fortunas? Ou que futebolistas uruguaios morem em Paris ou Barcelona e pouco ou nada se interessem por política? Para esse pessoal, torcer por Portugal é torcer “pelas nossas origens” ou, pelo contrário, torcer contra “para vingar nossa colonização e o ouro que nos extraíram”. Torcida pelo Uruguai em homenagem a Pepe Mujica. Teve amigo que torceu contra o Irã em protesto ao regime teocrático e aos aiatolás!!!
 
Dentro dos histórico-geográficos tem um subgrupo, o dos analistas de imigração. São aqueles que analisam, por exemplo, que a seleção da França não é francesa, mas “africana”, e estudam a origem de um por um dos bleus, esquecendo por certo ainda que filhos de imigrantes, nasceram em solo francês e a tem como pátria, da mesma forma que Dilma Rousseff filha é de imigrante búlgaro e nem por isso menos brasileira que qualquer um de nós (mas na verdade quase todos somos, de uma maneira ou de outra, filhos e netos e bisnetos de imigrantes. Ou o torcedor brasileiro acha que os sobrenomes Bellini e Taffarel são indígenas?…)
 
Há os não apreciadores de futebol que subitamente passam a se interessar pelo esporte. Conseguem tabelas e as marcam com afinco comovente. Chegam no bar e logo perguntam “Quem está jogando?”. Diante da resposta, olham cinco segundos para a TV e disparam: “E a Suécia é a de amarelo ou a de vermelho?”. Geralmente escolhem por quem vão torcer na hora do jogo e tem uma queda pelo time mais fraco ou que esteja perdendo. Esses, como os citados anteriormente tem horror a futebol quando nos campeonatos estaduais, mas usam do mesmo modus operandi quando uma tv exibe a partida: “Quem está jogando?”.
 
Mas para a nova geração, existem os “tiradores de onda”. Não gostam muito de futebol, mas gostam demais de memes e de “zoação”, portanto, não perderiam a chance de aproveitar um período em que seleções fortes são eliminadas dia sim dia não e que ídolos globais são derrotados implacavelmente. Não sabem que a zaga da Argentina é formada por Otamendi e Rojo, mas sabem onde achar todos os memes possíveis para zoar com Messi e não têm pudor em repassá-los incansavelmente pelo zap.
 
Por fim, há uma categoria tradicional que é das moças que durante estes trinta dias passam a acompanhar com mais atenção as partidas e não se acanham em comentar em público e em privado dos, digamos, talentos dos futebolistas, mais em forma que os espectadores em geral, mais em forma de barril  – eu incluso –  do que qualquer outra coisa. E este tópico em nada trisca qualquer machismo, afinal, conheço muitas mulheres que gostam e entendem de futebol, são capazes de debater sobre os vacilos de Vanderley Luxemburgo (o que dá horas de papo, evidentemente) e a escalação ideal do Grêmio. E entendendo ou não de futebol elas têm todo o direito de apreciar o que a Copa pode oferecer, ora pois.  
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