OPINIÃO

corpofilhacorpomãe

Eveline Sin escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais
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parece que, agora que descobriram que se faz arte nesse brasil, a ignorância tem trabalhado pra encurralar a danada no canto da parede. é aí que constatamos a dureza total dos tempos. mas arte é líquida, sempre encontra jeito e caminho. impossível parar.

o corpo vestido só da pele, vivo na arte desde sempre, é hoje o centro de uma epidemia de perseguição, onde emergem os mais bizarros comentários, deturpadas definições, teorias.

o que há de comum entre nossos corpos? o que há de comum entre o meu corpo e o corpo do outro? não quero saber do que nos diferencia. do óbvio. quero o que não nos limita. quero nossa grande intersecção. diluída. afinada com o natural. o cérebro vazio pronto para viver o instante. quero o corpo e seus silêncios. um templo. quero o tempo. o tempo que passa em cada dobra andarilha. quero o corpo presente.

e faço essa volta no corpo para chegar na corpomãe. a corpomãe é cobrada à exaustão e quase nunca se fala sobre isso. porque é cultural. mãe é mãe, né? nasceu assim. a corpomãe precisa ser infalível. todos esperam a perfeição dentro de sua lógica individual. defende-se a instituição, o artista, a liberdade. e quase ninguém fala da corpomãe. xingada, perseguida, odiada. defendo sim a instituição, o artista, a liberdade, claro. e também a corpomãe. li coisas terríveis sobre a presença dela, ali, entregue, durante a perfomance “la bête” do artista wagner schwartz, no museu de arte moderna de são paulo, fiquei sem energia. realmente exausta.

a corpomãe foi mais uma vez julgada. culpa definida nas ofensas mais baixas e cruéis. como se ela não tivesse, naquele momento, discernimento para entender onde sua corpofilha estaria. como se não pudesse viver com sua corpofilha aquele passo, aquele fio da memória. ora, mas pra que serve a arte, se não para criar um novo olhar. um novo pensamento. para se sensibilizar diante da vida. por que enxergar num corpo nu, imóvel, dentro de um museu, tanta perversão? perversão que deve estar mais impregnada nos caches dos computadores dos moralistas virtuais. pra que tanta histeria? histeria encabeçada por homens já conhecidos e já esquecidos desse país. homens que defendem a pura e boa família brasileira. a corpomãe sente náuseas. a corpomãe dança livre.

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minha nudez é tão imensa

que vê-se nos meus olhos.

 

a corpofilha dá as mãos a corpomãe e seguem sem olhar pra trás.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.

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