OPINIÃO

Covid-19: Demanda recorde de internamentos mostra epidemia viva e crescente

Há três semanas atrás eu assinalei, aqui na agência Saiba Mais, numa live promovida pelo RN Solidariedade Covid, grupo criado por Giovana Paiva e Hermínio Brito e em diversas emissoras de TV do nosso estado que se não houvesse um duro enfrentamento nessa etapa de pós vacina correríamos o risco de não aproveitar do declínio de óbitos e internamentos que começaríamos a ver no grupo vacinado de idosos.

Dizia que bastaria que essa epidemia, que cresce exponencialmente, piorar duas vezes para que o número de internamentos se mantivesse estável, ou pior que as filas aumentassem.

Infelizmente, é o que vemos hoje.

O gráfico abaixo, na sua extremidade à direita, mostra o declínio quase vertical dos internamentos em idosos.

Esse declínio que pode ser claramente percebido nos últimos registros do gráfico produziram a enorme redução de 55 internamentos (entenda-se 55 leitos livres para outras faixas etárias, ou mais do que a metade do 100 leitos previstos para o Hospital de Campanha).

A fila de pacientes críticos por sua vez, no início desse declínio estava situada na casa dos vinte pacientes. Hoje a fila vem variando entre 35 e 50 pacientes por dia como mostra o gráfico abaixo.

A matemática é simples: se não tivesse havido o declínio dos internamentos em idosos devido à vacinação que produziu 55 leitos disponíveis para as demais faixas etárias, a fila, em lugar de estar variando entre 35 e 50 pacientes críticos por dia, oscilaria entre 90 e 105 pacientes novamente.

Vale salientar que desde março a Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESAP-RN) abriu cerca de 120 leitos de Terapia Intensiva que somados aos 55 idosos a menos no sistema representam portentosos 175 leitos a mais. Eles não estão sendo suficientes.

Outra informação relevante: a demanda de leitos para internamento dos últimos três dias foi altíssima, de 136 leitos no dia 11 de maio, de 139 no dia 12 e de 146 leitos no dia 13 de maio. Esse último valor é o segundo mais alto registro de toda a pandemia.

Portanto não há qualquer dúvida de que a pressão epidêmica é crescente e que estamos passando por seu pior momento sem que se aviste por hora o declínio da curva.

Por sua vez, os internamentos em leitos privados que desenharam um impressionante declínio ao longo do último mês, voltaram a crescer.

A curva de casos aliás mostra um platô sustentado de casos nos níveis mais altos registrados, o que pode ser visto nos registros que se encontram mais ao fim ou à direita do gráfico abaixo.

O gráfico mostra também um risco.

O pico da pandemia no ano passado foi junho. Esse pico que permaneceu como recorde até março passado se desenvolveu em meio ao controle mais rígido que tivemos no RN em toda a pandemia, tendo ocorrido ali medidas restritivas que não se repetiram mais.

Apesar disso, o mês de junho de 2020 foi recorde.

Os números do mês de abril, que ainda não foram totalmente concluídos para registro definitivo e ainda devem aumentar, já mostram que o mês foi, apesar dos decretos de restrição, praticamente tão ruim quanto março, o que significa na prática que a pressão epidêmica ocorrida nele poderá ter sido ainda mais forte do que a do mês de março, recorde da pandemia do RN.

O que significa isso?

Em saúde tudo é multifatorial. As doenças, apesar de terem germens responsáveis, só eclodem em certas circunstâncias. Até aqui já sabemos, e está bem estabelecido, que as aglomerações produzem aumento de casos.

Porém essa variável inegável poderá ter maior ou menor magnitude se outras condicionantes estiverem ou não presentes.

O mês de junho no RN costuma ser o mais úmido do ano, em alguns lugares, nem sempre o mais chuvoso, mas o mais úmido sim, pois as baixas temperaturas reduzem e muito a evaporação. Essa umidade do ar, poderia dar maior durabilidade às gotículas respiratórias em suspensão, fazendo com que ganhem maiores chances de propagar a covid.

Além disso, as temperaturas mais frias e as chuvas aumentam as chances de aglomerações em ambientes fechados, reunindo portanto o pico de umidade ao da aglomeração.

Voltemos então para o nosso último gráfico e observemos junho de 2020, um pico durável da pandemia só ultrapassado por março de 2021.

Rememoremos que nos meses que o antecederam havia um punhado de casos novos por dia e, portanto, um número de pacientes ativos e transmitindo muito menor do que temos hoje. Rememoremos também as duras medidas restritivas em que estávamos mergulhados, que podem ter contribuído para algum arrefecimento da pressão epidêmica da época

No dia 13 de maio de 2020 foram registrados 326 casos novos de Covid-19 no RN. Ontem, 13 de maio de 2021, o SUS analítico, alimentado pelo Ministério da Saúde com dados enviados pelas Secretarias Estaduais de Saúde registrou para o RN 2127 casos novos, número cerca de sete vezes maior que os do ano passado.

Hoje, no entanto, sem qualquer justificativa técnica ou científica, as medidas restritivas evaporaram.

Pessoalmente não posso antecipar ou apostar que a sazonalidade cumpre ou não um papel relevante no contágio da Covid. Mas, a verdade é que estaremos até junho num grande experimento a céu aberto.

Poderemos também apreciar, num espetáculo digno dos de gladiadores romanos, em que medida a imunização dos idosos funcionará como contrapeso à hipótese da sazonalidade. Essa informação científica emergirá do cálculo que poderá ser feito do número de mortos…

O que já sabemos é que o jogo não conhecerá limites.

Possa essa hipótese não ser confirmada, pois se for não teremos ainda presenciado o pior.

 

 

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Ion de Andrade
Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

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