CIDADANIA

Covid-19: Mais da metade dos sem-teto do único Albergue 24h em Natal está contaminada

Sem adoção de medidas efetivas para proteção da população em situação de rua na capital potiguar desde o início da pandemia, a prefeitura enfrenta o crescimento exponencial do número de infectados no único abrigo de modalidade 24h em funcionamento em Natal. Dos 50 usuários do serviço, pelo menos 27 testaram positivo para Covid-19. Dois funcionários também foram contaminados pelo vírus. A liberação de novos resultados esta semana pode agravar ainda mais o quadro.

Os usuários que testaram positivo denunciam a falta de equipamentos e serviços adequados ao atendimento. Segundo relatos encaminhados ao Movimento Nacional da População em Situação de Rua no Rio Grande do Norte (MNPR-RN), os infectados foram colocados em isolamento num lugar sem ventilação, localizado no Centro de Convivência, prédio da prefeitura. A informação é de que 12 pessoas compartilham um mesmo cômodo e 11, outro.

A expectativa do Movimento é que essas pessoas sejam transferidas para outros abrigamentos na modalidade de isolamento e que recebam também a assistência médica. O Ministério Público já foi acionado e a defensoria pública tem atuado na mediação para oferecer proteção à população em situação de rua da cidade diante da pandemia do coronavírus.

Em nota, a Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas) afirma que os usuários que testaram positivo estão recebendo “todos os cuidados necessários, inclusive com integração à saúde, por meio do consultório de Rua, tendo como meta a recuperação desses pacientes”. Ainda segundo o órgão, “até o momento todos estão com sintomas leves, sendo tratados com a medicação necessária fornecida pela secretaria municipal de saúde”.

A testagem, de acordo com a Semtas, também foi realizada entres as 34 pessoas que integram o quadro funcional, entre profissionais cuidadores, assistentes sociais, educadores, psicólogos, coordenador, assistentes administrativos e terceirizados. “Os dois funcionários que testaram positivo foram afastados imediatamente da unidade e se encontram em tratamento em suas casas, com sintomas leves”, afirma a secretaria.

Uma comissão formada por representantes de cada área dentre estes profissionais, através do Sindicato de Servidores Públicos do Município de Natal (Sinsenat), já se reuniu com o secretário municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas), Adjuto Dias de Araújo Neto. O encontro aconteceu no último dia 18 de fevereiro, quando foram tratadas, entre outras questões, a defasagem de recursos humanos e a necessidade de garantia de proteção para execução do trabalho. O Sindicato ainda aguarda novo encontro para que a secretaria apresente respostas às demandas levantadas.

Cresce número de Pop Rua

Mesmo que não seja possível precisar quantas pessoas vivem nas ruas da capital potiguar atualmente por falta da realização de um censo sobre essa população, o coordenador estadual do Movimento Nacional da População em Situação de Rua no Rio Grande do Norte (MNPR-RN), Vanilson Torres, disse que há uma estimativa de 1.200 pessoas que passaram pela triagem do Centro Especializado em Assistência Social de Natal, o Centro Pop, em 2019.

Um número que se já não era preciso, certamente está defasado. Um dos efeitos da pandemia de Covid-19 pode ser visto nas ruas: o aumento da quantidade de pessoas em vulnerabilidade social. Segundo Vanilson, é claro o crescimento do número de pessoas que vivem nas calçadas, principalmente no Centro de Natal. “O aumento é visível”, afirma.

Enquanto isso, o número de vagas oferecidas pelo município em abrigos é insuficiente. Atualmente, Natal conta com um abrigo 24 horas com 50 vagas que fica na Rua Princesa Isabel, no centro da cidade. Além dele, as pessoas em situação de rua também encontram atendimento socioassistencial, espaço para a realização de higiene pessoal, alimentação, espaço para guarda de pertences e lavanderia no Centro Pop, que tem 100 vagas e funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, na rua Aderbal de Figueiredo, Petrópolis, próximo ao Centro de Turismo.

Infelizmente, não houve por parte da Prefeitura de Natal um plano emergencial para a população de rua, não tivemos locais para higienização nas ruas, não tivemos pontos de água potável e nem a implantação do banheiro solidário aprovado na Câmara Municipal de Natal em março de 2020. Se não fosse a sociedade civil organizada, a população de rua não seria afetada somente pela covid-19, mas também pela fome e sede”, afirma Vanilson.

Em Natal, a situação de rua expõe a falta de políticas públicas voltadas para a efetivação de direitos sociais. Mesmo sem conseguir oferecer atendimento às pessoas em situação de rua em plena pandemia, prefeitura faz constantes ameaças de despejo às pessoas que estão abrigadas provisoriamente no antigo Albergue Municipal, no bairro da Ribeira (ocupação Pedro Melo, do Movimento de Luta nos Bairros – MLB). No último dia 11 de fevereiro, 15 famílias que ocupavam a área externa do viaduto desde 2018 foram retiradas a força e sem prévio aviso do despejo.

 

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