TRANSPARÊNCIA

Covid-19 matou mais crianças no RN do que todas as outras doenças que possuem vacinas infantis

Profissional de saúde prepara seringa com vacina contra a covid-19

A covid-19 matou mais crianças no Rio Grande do Norte do que todas as outras doenças que possuem vacinas infantis. Nos dois anos de pandemia, 25 crianças foram vítimas fatais da doença causada pelo coronavírus. De todas as outras 15 doenças preveníveis por vacina, nenhuma se aproximou do número.

A agência Saiba Mais havia divulgado inicialmente que a meningite havia se aproximado do número de vítimas, com 19 mortes causadas. Entretanto, a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte, que concedeu os dados, afirmou que a informação se tratou de um engano e a corrigiu nesta quinta-feira, 6. A meningite causou 5 mortes entre 2020 e 2021. As 19 mortes causadas foram nos últimos seis anos, de 2015 a 2021.

Além da meningite, a influenza e a tuberculose causaram 1 morte nos dois últimos anos. O restante não causou nenhuma vítima fatal no período. (Veja a lista de doenças no fim desta reportagem, com o dado corrigido).

A estatística foi disponibilizada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap/RN), a pedido da agência Saiba Mais. O grupo etário considerado vai de 0 a 12 anos.

O número de vítimas crianças é baixo e representa um percentual mínimo de 0,39% de todas as 7,5 mil mortes por covid-19 no Rio Grande do Norte. Apesar disso, os especialistas ressaltam que a covid-19 se trata de uma doença evitável, principalmente após o surgimento da vacina, e portanto é possível reduzir a mortalidade.

Em dezembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a vacinação contra a covid-19 para crianças de 5 a 11 anos. O imunizante recebeu a chancela da comunidade científica, das autoridades internacionais e dos técnicos da Anvisa e do Ministério da Saúde, mas sofre resistência do presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Segundo os argumentos contrários à vacinação entre crianças, a covid-19 não causaria gravidade nessa faixa etária, enquanto o imunizante pode causar efeitos adversos – considerados muito raros nas pesquisas realizadas e menos graves do que as complicações que podem ser geradas pela doença em si.

Entretanto, o que as estatísticas mostram é que, sem a vacina, a covid-19 mata mais crianças do que todas as outras doenças virais que estão na carteira de vacinação infantil do Brasil. Em 2020, 297 crianças de 5 a 11 anos morreram em decorrência da covid-19 em todo o país. Em comparação, a meningite matou 51 no mesmo período.

A médica pediatra Vitória Medeiros, que atua na rede particular em Natal e é aposentada na rede pública, afirma que a vacinação contra a covid-19 em crianças é importante principalmente no momento em que a população adulta está vacinada e retoma a vida normal. “Com a vida normal retomada, o vírus tende a circular mais e passa a afetar principalmente as crianças, que é o único público sem vacina”, disse.

A vacinação, além de evitar o aumento de mortes nessa faixa etária, também evita outras complicações causadas pela covid-19 – muitas das quais seguem desconhecidas, por se tratar de uma doença relativamente nova.

“Você vacina para evitar milhares de hospitalizações, dezenas de milhões de usos de antibióticos. Além de prevenir mortes, previne a transmissão, para evitar uma nova onda de covid, sequelas, visitas médicas”, disse o médico pediatra Renato Kfouri, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), nesta terça-feira, 4, durante a audiência pública do governo federal sobre o assunto.

Ambos os médicos defendem que, apesar dos efeitos adversos da vacina observados nessa faixa etária, a doença oferece um risco maior à vida. Pesquisas já demonstraram que crianças infectadas podem desenvolver a Síndrome Inflamatória Multissistêmica, manifestação grave da Covid-19 que pode levar à hospitalização e causar sequelas.

Entre os efeitos adversos do imunizante, a miocardite (inflamação cardíaca) é a que mais gera preocupação entre os pais e, comumente, é utilizada como argumento contrário à vacina. Entretanto, a incidência de miocardite é inferior a 0,1% dos vacinados. “As complicações da vacina não justificam não vacinar as crianças porque são casos raros e que as crianças ficaram bem logo depois”, disse a pediatra Vitória Medeiros.

Vacina para crianças não é experimental, afirma pediatra
Vitória Medeiros discordou que a vacinação atual seja ‘experimental’, como acusam alguns profissionais contrários ao imunizante em crianças. Prova disso é a imunização da Pfizer, autorizada no Brasil, em larga escala em pelo menos 21 países da América e da Europa, acompanhada por redes de segurança internacionais.

Ao chegar na fase de aplicação em larga escala, a vacina também já passou por uma série de testes que comprovam sua segurança, afirma Vitória. “Estamos falando de uma vacina nova, mas que já atingiu uma comunidade muito grande. Ela já é aplicada em muitas pessoas antes, o que proporciona uma segurança muito grande ao chegar na fase 4”, contou. Todos esses dados são analisados pela Anvisa na hora da autorização.

Somente no primeiro mês de aplicação nos Estados Unidos, a Pfizer vacinou mais de 5 milhões de crianças com a primeira dose da vacina. Até o final de dezembro, os relatórios feitos durante o monitoramento do imunizante continuaram atestando a sua segurança.

Pediatra acredita que prescrição médica inviabiliza vacinação
A necessidade da apresentação da prescrição médica foi defendida pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro Marcelo Queiroga desde que a autorização da Anvisa foi dada, em dezembro. O governo recuou da ideia nesta quarta-feira, 5, e definiu que a prescrição não vai ser necessária. A decisão foi anunciada depois do governo realizar uma consulta pública sobre o assunto.

A maioria das pessoas que participaram da consulta foram contrárias à obrigatoriedade da prescrição, segundo afirmou a secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, Rosana Leite de Melo nesta terça-feira, 4.

Para a médica pediatra Vitória Medeiros, a prescrição é inviável porque a maioria das crianças no Brasil não possuem acesso a pediatras. “Essa é uma realidade da maioria das crianças. Se for necessário prescrição, vai inviabilizar a vacinação desse público”, disse.

Outro efeito que a prescrição pode gerar é a superlotação da rede. “Imagine se todas as crianças buscarem a rede de saúde, que já é superlotada, para ter prescrição de vacina. Não tem a mínima condição para isso”, concluiu.

Essa avaliação é a mesma de Kandice Falcão, representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) na audiência convocada pelo governo federal na tarde da terça-feira, 4. Ela afirmou que a entidade é contra a prescrição principalmente em um momento em que os municípios enfrentam epidemia de arboviroses (como dengue e chikungunya, por exemplo), surtos de influenza e problemas decorrentes de alagamentos e enchentes.

“Em se tratando de saúde pública, isso é completamente inviável. Os profissionais de saúde estão sobrecarregados por conta da alta demanda de atendimento desde o início da pandemia”, disse. “É muito complicado, é extremamente inviável e isso dificulta muito a exigência de prescrição médica em plena campanha de vacinação. A gente ainda está fazendo dose 2, dose de reforço e iniciar uma vacinação de criança é uma campanha”, concluiu.

Doenças do calendário de vacinação e mortes no RN, de 0 a 12 anos (2020 e 2021)
Sarampo: 0 mortes
Caxumba: 0 mortes
Rubéola: 0 mortes
Varicela: 0 morte
Tuberculose: 1 mortes
Hepatite A e B: 0 mortes
Difteria: 0 mortes
Tétano: 0 mortes
Pólio: 0 mortes
Meningite (viral e bacteriana): 5 mortes
Rotavírus: 0 mortes
Influenza: 1 mortes
HPV: 0 mortes
Febre amarela: 0 mortes
Covid-19: 25 mortes

Entenda a vacinação contra a covid-19 para crianças

Dose menor
O imunizante aplicado nas crianças vai ter duas doses de 10 mcg por unidade (um terço da dose adulta). O esquema vacinal para população acima de 12 anos é de 30 mcg. O volume do imunizante será de 0,2 mL e o período entre doses indicado é de três semanas.

As vacinas também terão uma tampa e um rótulo com coloração diferente das aplicadas em adultos. Elas são da cor laranja para evitar confusão. Não é possível “diluir” o imunizante com dosagem maior para aplicar na população pediátrica.

Segurança
Ainda em setembro, a Pfizer havia declarado que os resultados dos últimos testes clínicos geraram uma resposta “robusta” de anticorpos e que a vacina é segura para a população pediátrica. Em outubro, divulgou que o imunizante tem eficácia de 90,7% nessa faixa etária.

Outros países usam o imunizante em crianças
Ao menos 31 países de quatro continentes já haviam autorizado a vacinação para crianças quando o Brasil tomou a mesma decisão, em dezembro.

A Pfizer, fabricante que vai ser utilizada no País, tem autorização para vacinar a faixa etária de 5 a 11 anos na União Europeia e em 10 países da América, incluindo o Brasil.

Outros imunizantes estão sendo aplicados em crianças em alguns países. É o caso da Coronavac, aplicada em Hong Kong, na China e no Chile, por exemplo. Há países que também utilizam a Soberana, desenvolvida por Cuba, e a Sinopharma.

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