OPINIÃO

Crônicas da cidade

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Na última terça-feira (data, aliás, do natalício de Clarice Lispector), tive a grata alegria de ter em mãos dois livros que, cada um à sua maneira, homenageiam a cidade, com alguns elementos que ela pode incluir, como por exemplo a boemia e, principalmente, as amizades.

Já falei em outras ocasiões sobre a tradição de confluência entre vida literária e vida urbana. Impossível citar aqui lista de autores que tratam disso, de Walter Benjamin, De Certeau e Ítalo Calvino a Protásio de Melo, Newton Navarro e Franklin Jorge, com tant@s outr@s de entremeio. Habitar, trabalhar, transitar, viver em uma cidade é um modo de se constituir. Alguns expressam essa constituição por meio da escrita literária. E eu gosto particularmente disso.

Uma dessas formas de expressão é a crônica. Mistura de gênero jornalístico e literário, meio registro histórico e documental, meio reflexão poético-filosófica, a crônica tem um quê de indefinição. Tanto que ela pode abordar uma infinidade de temáticas e assuntos, do mais “socialmente relevantes” (como as denúncias de Lima Barreto sobre a “higienização” classista e racial do Rio na Belle Époque) aos mais “aparentemente banais” (como os flagrantes de Fernando Sabino sobre mecânicos, empregadas domésticas, aniversariantes aleatórios etc.). Tudo pode ser mote para uma crônica.

Inclusive as rodas de sociabilidade e os tipos e gentes presentes nas cidades.

Em Natal, vários nomes de livros e cronistas poderiam ser citados. Comentarei dois que me chegaram às mãos no mesmo dia.

Lá me fui eu, naquela noite de quase lua cheia, alegre e fagueira, a caminho do lançamento do livro de Antonio Stélio intitulado “Crônicas da Praia do Meio” (Sebo Vermelho, 2019). Gosto de crônicas, gosto de Stélio e gosto especialmente da Praia do Meio, reduto por onde circulei com certa frequência logo que cheguei a Natal, em 2010. Tanto que me lembro particularmente de um momento em que, voltando de uma Marcha da Maconha, flanando pelo calçadão deslumbrada com a beleza da paisagem que me conquistara logo de chofre, esbarrei num transeunte aleatório que me interpelou:

– Oi, com licença. Aqui é a Praia do Meio?

Respondi que sim, dei ainda algumas referências, ao que ele engatou, com carinha de bestinha:

– Mas que praia feia, né? Porque eu sou de Fortaleza e lá…

Estupefata, minha única reação diante do infeliz conterrâneo foi lhe dar uma rabissaca e virar-lhe as costas em outra direção.

É que usufruir uma cidade é uma maneira toda particular de ser. Escrevê-la, então, muito mais. A maneira de Stélio narrar a Praia do Meio, pelo menos para mim, não tem como não seduzir e conquistar leitor que saiba se permitir a (re)descobrir e desbravar.

Uma das crônicas que li e de que gostei demais foi “O terrorista”, em que conta um episódio em 1986 quando, vítima da idiotia alheia, foi preso simplesmente por estar “mangueando” seus poemas na praia e vestindo um casaco verde-oliva-subversivo. O legal é tanto a reviravolta da história – o incidente acaba se transformando em circunstância de potência para o poeta estigmatizado – quanto o aspecto que a crônica assume de libelo, sutilmente poético e político, contra o obscurantismo dos capitães de plantão.

O desfrute dessa crônica foi presente daquela noite bonita de se ser-estar ali na Cidade Alta, no Bardallo´s, ao som do nosso amigo DJ Fernandinho, vendo a literatura teimando em resistir e conversando com amig@s sobre assuntos diversos, inclusive sobre a bruxa Macabea.

E, para completar, eis que mais uma alegria me traz a noite, graças à ponte da querida Mércia Carvalho: um livro que ela sabia há tempos que eu gostaria demais de encontrar: As “Crônicas do Beco da Lama” (Offset, 2007), de Leonardo Sodré.

O livro é bom em todos os sentidos: capa, orelhas, prefácios, descrições precisas de bom-humor, certeiras nos traços particulares, desde o nariz de Eugênio Meio Quilo à língua de Paulinho de Nazaré.

Algum espírito de porco ressentido poderá dizer que esses livros só serão bons para quem conhecer de antemão lugares, pessoas e hábitos ali narrados. Eu direi que não. Digo que ali naquela precisão local está contido também o universal, ali está também essa coisa comum que diz respeito a nós autores, leitores, boêmios, habitantes das cidades, essa coisa que se sabe bem o que é, ainda que seja na indefinição de uma corriqueira e cotidiana crônica.

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