OPINIÃO

Cultura potiguar entre excessos e escassez

Em meio às turbulências do cotidiano, fazia tempo que eu não aparecia por aqui, mas estou de volta e com a promessa de não lhes deixarem mais tão abandonados. Nesses quase três meses sem escrever, aconteceram algumas coisas no plano nacional e poucas coisas no plano municipal (Natal) e estadual. Neste texto quero me debruçar sobre os últimos acontecimentos da política cultural no Rio Grande do Norte e de sua capital. São dois cenários diferentes que estão postos. Talvez fosse assunto para dois artigos diferentes, mas hoje estou com os dedos afiados e com vontade falar um monte de coisa. Isso se chama demanda reprimida.

Pois bem, em nível estadual temos uma máquina tentando sobreviver a partir de um ajuste de contas e de um arrocho fiscal na busca de recuperar sua musculatura econômica através da melhoria da arrecadação e da realocação dos gastos públicos. Em nível municipal temos um cenário de arrecadação mais controlado, onde a Prefeitura aparentemente consegue honrar seus compromissos financeiros e ainda investir em algumas ações de marketing e propaganda. Nesse tempo houve a tal “falada” revitalização do Beco da Lama e o Prefeito Álvaro Dias se empolgou, começou a andar mais entre as pessoas e executar ações mais populares/populistas. Nessa mesma levada a Governadora Fátima também se jogou no uso das redes sociais e com uma linguagem coloquial, debochada e cotidiana, às vezes dá uma exagerada, mas acho até legal.

Então, diante deste cenário, no tocante às verbas e/ou políticas públicas para a Cultura, o estado e o município ainda falham muito, um pelo excesso e o outro pela escassez.

Vamos falar primeiro do lado da escassez. Falta tudo. Não tem verba. Não tem telefone. Está tudo velho. Está tudo caindo. Não tem prédio. Não tem teatro. Não tem papel. Não tem quase nada. Mas não falta coisa para se fazer. Estamos com quase 6 meses de gestão e quase nada andou no tocante ao Conselho Estadual de Políticas Culturais, pouco se sabe sobre definição de editais ou de articulações para criação dos mesmos. Anunciou-se um programa de câmaras setoriais e só a de Teatro avançou. Foi anunciado que no segundo semestre teremos 3 milhões de reais em editais, e que essa verba virá da redução da renúncia fiscal da Lei Câmara Cascudo. Só estou curioso de saber como remanejar a verba de um local para outro dentro da burocracia do Estado e do orçamento da Fundação José Augusto para o corrente ano. O que esperamos de Fátima e de Crispiniano é que se cumpra o que vem sendo dito. E uma vez se cumprindo, nós teremos a maior política de editais que já se viu na história desse Estado. A minha angústia é de ver logo as coisas acontecendo, daqui a pouco o ano acaba e tudo vai ficar para 2020. O Governo do Estado precisa apresentar soluções criativas que possam vir a gerar a renda para a Cultura em médio e longo prazo, não pode ficar só esperando a liberação de verba para se fazer alguma coisa. A gestão tem autonomia política, tem uma equipe grande, mas, olhando daqui, me parece que tem uma parte dessa equipe esperando a torneira abrir para poder começar a trabalhar de verdade. A escassez de recursos não pode se transformar numa muleta da gestão, deve ser impulso criativo e reativo, essa escassez deve ser inversamente proporcional à força de trabalho e de pensamento. Isso pode até estar acontecendo, mas a sociedade e trabalhadores da cultura precisam ser comunicados disso. Aliás, a comunicação tem sido para mim um dos pontos de maior escassez. Não falo da comunicação tradicional, da relação com imprensa, da produção de materiais e etc… falo principalmente no formato da comunicação. Enquanto a governadora dá um banho de ousadia na sua forma de se comunicar, o restante do governo não acompanha a sua levada e na FJA não é diferente. Confesso que até hoje eu não entendi o que aconteceu com a Lei Câmara Cascudo. E olhe que já fiz até ligação telefônica para tentar entender. Falo isso porque o Governo do Estado solta um release informando que a Lei Câmara Cascudo foi “prorrogada”, mas até hoje ninguém sabe o que significou essa tal “prorrogação”. No ano passado, a Lei sofreu algumas mudanças na Assembleia Legislativa e eu só soube que elas não seriam aplicadas nesse ano por causa da bendita ligação. Mas até hoje tem um monte de gente me perguntando sobre isso e ainda não tenho segurança para dizer o que aconteceu. Eu posso até não ter me informado direito, não ter lido a matéria correta, mas a sensação que eu sinto é que as dúvidas passam por todas as pessoas. E nem todo mundo é obrigado a ligar para a Fundação José Augusto para tentar descobrir alguma coisa, principalmente quando se trata de um órgão que não tem um telefone funcionando. A escassez de verba não pode se transformar na escassez de informação. E digo mais, não falta gente querendo ajudar a gestão sem querer nada em troca.

Vamos agora girar para o outro lado moeda em questão neste artigo que vos escrevo. O excesso. Os que pecam pelo excesso. Não pelo excesso de verba. Não é isso que quero dizer, mas pelo excesso de dedicação e investimento ao seu ponto de vista. Eu sempre acreditei que a Gestão da Cultura não pode ser voltado somente para a vontade de um povo, nem somente para a vontade dos artistas que produzem em sua circunscrição administrativa, apesar de acreditar que quando você investe na produção artística de seu território, você está diretamente investindo no desenvolvimento cultural do seu povo. E não é o que acontece quando você investe somente na produção da indústria cultural e alimenta o povo de um monte de produto enlatado produzido em larga escala para fácil consumo e descarte, causando uma rápida sensação de euforia com a certeza que quando esse sentimento passar haverá outro produto no mercado para que você compre novamente para absorção momentânea e efêmera de seu povo.  Com isso você não cria vínculos afetivos entre o povo, sua história e sua memória, eles não se refletem diante dos problemas postos à sua frente. Essa catarse eventual, essa catarse que se manifesta no povo entre réveillons, carnavais e festas juninas faz com que eles se preocupem menos com as agruras da vida, na verdade se tornam os poucos momentos de suspiro de vida daquelas pessoas. E como tirar isso de seu povo? Como tirar dele esses pequenos momentos e tão significativos?

É aí onde se peca pelo excesso. Porque nós não vemos a tentativa de mediação. Se enche sempre mais um copo do que o outro. Só se pensa em construir barracos, mas não se pensa em fortalecer os alicerces de suas casas. Investir nos artistas populares de sua cidade é investir na produção genuína de seu povo. Nem vou entrar mais na seara da comunicação e na maneira como se apresentam as “ditas” atrações “nacionais e locais”, isso para mim já era para a gente ter superado, mas ainda se repete e com as piores desculpas do mundo. Mas quero falar do cuidado que deveria se ter com nossas produções. Um dia a dupla Simone e Simaria já fez shows com uma banda pequena, com ingressos de 10 reais, vendendo CD para sobreviver no dia a dia, mas teve um dia que elas começaram a ser mais valorizadas, digo isso na forma mais literal da palavra. Passaram a investir mais nelas, sejam seus empresários, sejam elas mesmas ou até os poderes públicos. Mas elas começaram lá de baixo e precisaram de apoio para crescer. E aqui em nosso Estado a gente sofre com o recebimento de migalhas e nos contentamos com elas. Nossas forças são tão escassas que nos apegamos a qualquer coisa que nos oferecem e nos silenciamos diante de tudo que se passa na nossa frente. Existem dias em que a gente só quer o dinheiro para poder comprar o almoço. E essa política das migalhas e dos cala-bocas se perpetuam em nosso RN até hoje, herança do coronelismo e da escravidão em nosso país. Vou aqui citar a aclamada revitalização do Beco da Lama (assunto para um artigo exclusivo sobre isso), como exemplo. O investimento feito pela prefeitura foi baixíssimo e o retorno foi gigante, posso até dizer que foi quando o povo de Natal passou a entender que o Prefeito de Natal não era mais Carlos Eduardo Alves. E ainda tem gente que duvida do poder da arte. Foi pouco investimento e retorno institucional altíssimo, porém, você sabe quanto cada artista potiguar recebeu para fazer todos aqueles grafites? Pelas informações que tenho foi pouco ou quase nada. A partir daí o Prefeito percebeu a força da arte e da cultura para a popularização de sua imagem e começou a tomar uma série de atitudes com o olhar mais voltado para a arte, mas infelizmente pecando pelo excesso. O edital do Centro Histórico paga valores baixíssimos e o produtor ainda deve se responsabilizar por toda sua estrutura. Diz-se do lançamento de 16 editais, mas se você somar todos os valores dos editais não chega nem no valor que se investe nos artistas do mainstream. Na matéria da Tribuna do Norte (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/editais-refora-am-pauta-cultural-da-prefeitura/444072) se fala no lançamento de vários editais, mas não garante o lançamento do FIC 2019, com a desculpa que ele só sai se conseguir remanejar a verba da Lei Djalma Maranhão, a exemplo do que se quer fazer no Governo do Estado, mas para os cachês astronômicos o remanejamento acontece sem nenhuma dificuldade. Imagina que R$ 300 mil de “Xande do Aviões” se transformasse em 10 shows de 30 mil reais de nossos artistas. O que seríamos capazes de produzir? Qual o resultado qualitativo e quantitativo de uma ação como essa? E olhe que estou falando apenas de um cachê desses artistas da indústria cultural. Não venham chamar isso de síndrome do vira-lata, de que Natal não pensa grande, que não pensa no grande desejo das massas. O poder público, ao investir em cultura, deve fazer sua reparação histórica de ter cedido suas ondas de rádio para a transmissão de produtos culturais globalizados e mercadológicos. O Estado é responsável direto pelo afastamento de seu povo da arte produzida por ele e por isso ele não deve vir a reforçar uma produção mercadológica que o povo já paga por ela, pois sua rotina e formação cultural o leva a isso. O Estado deve financiar a produção que acontece na sua base, nas suas comunidades, que é produzida pelo seu povo. Recife e Pernambuco só conseguiram disputar o imaginário cultural brasileiro por causa do investimento que fez em suas produções artísticas, apesar de algumas ressalvas e de uma pequena mudança de foco que ocorreu nos últimos anos nas gestões de Recife, Olinda e Pernambuco. Por tudo isso, eu acho inadmissível o que estão fazendo com a verba pública na cidade de Natal. E olhe que não estou sendo contra a quantidade de investimento, inclusive acho que ela deve ser ainda maior, mas estou falando na forma como esta verba está sendo destinada. Pagar uma fortuna a um artista de outro Estado e da indústria cultural é gasto, mas pagar o mesmo valor a vários artistas potiguares significa investimento. Sem falar que a maior parte do capital investido gira dentro da cadeia produtiva da nossa cidade. O excesso não pode ser regra, não pode ser método de trabalho, não pode ser visão de futuro.

Os que pecam pelo excesso não conseguem sobreviver em períodos de escassez.

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