CIDADANIA

Cursinho popular estimula cidadania e o acesso à educação

São 150 voluntários, cerca de 1.500 alunos inscritos e aulas acontecendo em três cidades diferentes. Esses são os números, somente aqui no Rio Grande do Norte, conquistados pela Rede Emancipa durante os últimos anos. Em mais de 12 anos de história, no Brasil, o movimento social de educação popular nasceu com o desejo de promover um importante trabalho voltado à educação de jovens de escolas públicas. Em Natal, Mossoró e Ceará-Mirim, o principal foco de atuação do Emancipa tem sido a organização do cursinho popular pré-universitário para atender à demanda dos estudantes de escolas públicas pelo acesso às universidades públicas. 

“A Rede Emancipa é uma rede presente em todas as regiões e que trabalha com alguns princípios e metodologias  de educação popular discutidas nacionalmente”, explica Tatiane Ribeiro, coordenadora nacional da Rede Emancipa e coordenadora da iniciativa popular, em Natal, que promove preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio para alunos de baixa renda que não tem condições, normalmente, de pagar um cursinho tradicional.

Tatiane Ribeiro, coordenadora da Rede Emancipa, junto com professores convidados. DIVULGAÇÃO (REDE EMANCIPA RN)

Em todas as 19 cidades e 7 estados onde está presente, a Rede Emancipa possui 32 cursinhos, cerca de 10 mil estudantes ao longo do ano e mais de 600 professores. Nos seus 12 anos de história, desde 2007, a Rede Emancipa já auxiliou milhares de estudantes a entrar nas mais diversas universidades e a furar o bloqueio do acesso ao Ensino Superior do país, como afirma o projeto que trabalha com diferentes modalidades de educação popular, como o Emancipa no Cárcere; Emancipa Educação de Jovens e Adultos; Emancipa Mulher; o Nem Um a Menos, um trabalho sobre violência; o Emancipa Esporte; e o Emancipinha, espaço dedicado aos filhos e filhos dos alunos e alunas do cursinho.

“O Emancipa tem como critério trabalhar com alunos de baixa renda que normalmente não tem condições de pagar um cursinho tradicional. Não temos nenhum tipo de corte: para nós, ninguém fica para trás, todos são importantes, e a gente luta muito para que eles façam e continuem no cursinho”, explica Tatiane, que colabora voluntariamente na Rede Emancipa nacional.

Nos cursinhos, como explica o projeto, além de refletir sobre o conteúdo exigido pelos vestibulares de uma maneira que esteja de acordo com o contexto vivido pelos estudantes, a educação transformadora também é um tema priorizado. O objetivo é promover o máximo de instrumentos para que os alunos e alunas pensem as suas realidades de maneira crítica e emancipatória, não se restringindo somente à preparação para o exame nacional.

Registro da aula inaugural, em Ceará-Mirim, realizada em junho. DIVULGAÇÃO (REDE EMANCIPA RN)

Em Natal, a Rede Emancipa retorna suas atividades no campus zona Norte, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), neste sábado (17), com cerca de 400 alunos inscritos somente este semestre. As inscrições podem ser feitas presencialmente ou pelo site www.redeemancipa.org.br. 

“Temos as aulas onde trabalhamos com temas, especialmente na área de ciências humanas e natureza, e a partir desses temas os professores vão desenvolvendo o conteúdo e as habilidades exigidas pelo Enem. Além das aulas, nós temos o Círculo, um espaço de debate de atualidades, política e direitos”, diz a coordenadora. 

Oficinas promovidas no Tempo Livre, no cursinho Marielle Franco, zona Norte de Natal. DIVULGAÇÃO (REDE EMANCIPA RN)

Outra atividade promovida é o Tempo Livre, momento em que os estudantes participam de oficinas que vão além das exigências do vestibular:

“As pessoas estão sempre correndo, e nisso é importante ter um tempo para si. No tempo livre, nós temos oficinas de dança, de jogos, com psicólogas. O aluno não é obrigado a participar dessas atividades, eles têm o tempo livre e têm autonomia para decidir o que fazer com esse tempo. Isso ajuda bastante para que eles se preparem para vida, fiquem mais tranquilos, não fiquem bitolados com o processo do vestibular”, explica.

“Para nós, a educação popular tem essa importância, também, de debater os direitos das pessoas, debater os seres como políticos e participativos”, completa a coordenadora da Rede Emancipa, sobre o trabalho desenvolvido por meio de um projeto político-pedagógico que vai além do ensino para o vestibular e que possibilita à juventude um espaço inovador de debate, criação e recriação do saber acerca do mundo e da vida. 

Fazem parte do projeto estudantes universitários, secundaristas, professores do ensino básico, professores e estudantes da Rede Emancipa, família, associação de bairro, comunidade e todos que tenham interesse em contribuir com uma educação popular emancipatória, como o próprio nome já define.

Reunião de formação com os professores voluntários do Emancipa, em Mossoró. DIVULGAÇÃO (REDE EMANCIPA RN)

As aulas são ministradas voluntariamente por professores já formados e também por professores estudantes universitários de várias universidades públicas e privadas do país, que se interessem em colaborar com o projeto. 

Durante os 12 anos de história, a Rede Emancipa promoveu inúmeras mudanças tanto na vida de muitos estudantes que já passaram pelo projeto, quanto pelos voluntários: “Para mim tem sido uma experiência muito incrível. Primeiro de entender o que significa educação popular. Não basta ser só gratuito: educação popular precisa pensar a autonomia, pensar o direito das pessoas à educação. Para nós, isso significa que estamos colocando as pessoas dentro das Universidades Públicas, que são espaços ainda extremamente desiguais. É fazer justiça social, fazer a Universidade se pintar de povo. Tem sido uma experiência muito gratificante esses 12 anos construindo a Educação Popular e pensando o caráter da Universidade”, completa.

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Pedro Torres
Pesquisador e jornalista com foco em direitos humanos, política e tecnologia baseado em Natal/RN. CONTATO: pedrohtorres@outlook.com

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