ENTREVISTA, Principal

Cynara Menezes: “É preciso financiar o jornalismo que te representa”

A jornalista Cynara Menezes, editora do portal Socialista Morena, abre nesta quarta-feira (23) a 2ª Semana de Jornalismo da UFRN, cujo tema em 2018 é dedicado ao debate sobre as fake news e a era da pós-verdade. A conferência acontece a partir das 19h, no auditório do Departamento de Educação Física, no Campus da UFRN. A programação da semana, que inclui oficinas, minicursos e debates pode ser acessada aqui.

De conferencista principal, a jornalista acabou virando personagem. Há duas semanas, Cynara foi vítima de um perfil fake no Instagram criado para prejudicar o evento. A jornalista, que não tinha um perfil no Instagram, acabou criando a conta @socmorena.

Nesta entrevista concedida por email, Cynara Menezes fala sobre os ataques que já recebeu de perfis falsos na internet, a importância do jornalismo independente e o que mudou na vida dela quando decidiu trocar a redação da revista Carta Capital pelo próprio site, onde publica o que quer, com o apoio financeiro dos leitores.

 

Agência Saiba Mais:  A Semana de Jornalismo da UFRN tem como tema o debate das fake news e você acabou sendo vítima delas ao ter um perfil fake criado no Instagram. Isso tem sido recorrente na tua carreira de blogueira-ativista digital ? 

Cynara Menezes: Sim, já fui alvo de muitas calúnias e difamações por parte de perfis de direita anônimos e conhecidos, e até por parte de um senador da república, Ronaldo Caiado. Em alguns casos, recorri à justiça, mas infelizmente ela não tem agido em favor das vítimas nesse caso. O senador, por exemplo, alegou imunidade parlamentar para se safar das mentiras que espalhou contra mim no twitter, e ganhou. A internet, como outras áreas, também virou terreno fértil para a impunidade.

“A internet virou terreno fértil para a impunidade”

 

Recentemente o Facebook fez uma parceria com empresas brasileiras de checagem de notícia e os profissionais dessas empresas foram atacados pelo MBL e outros grupos de direita. Já esperava essa reação ou ainda te surpreende ataques dessa natureza ? 

Achei natural a reação deles: se são os grupos de direita no facebook que mais criam e espalham fake news, obviamente iriam ficar transtornados com a notícia de que agências checarão fake news. É natural que produtores e divulgadores de mentiras não queiram ser desmascarados, e a reação deles foi uma confirmação, passaram recibo de que são os maiores responsáveis pelas fake news no facebook. Expor os jornalistas das agências de fact checking ao ódio das redes também confirma o nível do “debate” que estes direitistas fazem, e é lamentável ver que até um procurador da República está envolvido nos ataques aos checadores.

O país vive novo clima de insatisfação com reajustes no preço do combustível e nas passagens de ônibus e trem em várias capitais. Foi justamente essa pauta o estopim das manifestações de junho de 2013. Você acredita que algo do tipo pode acontecer novamente ou os protestos eram mesmo orquestrados contra a figura da Dilma ? 

Já está mais do que comprovado que as pessoas que foram às ruas contra Dilma não estavam interessadas em lutar contra a corrupção, porque foi só ela sair que eles voltaram às suas casas e a se distanciar das panelas que nem sabiam onde ficavam antes dos protestos. É necessário, porém, diferenciar os protestos contra Dilma a partir de 2015 dos protestos de junho de 2013, ou pelo menos da primeira fase dos protestos de junho de 2013. Aqueles protestos começaram como uma insatisfação legítima da esquerda com os rumos do PT e descambaram, num segundo momento, para uma manifestação de direita. No final, quem estava nas ruas era a mesma extrema-direita que pedia “intervenção” militar nos protestos contra Dilma em 2015.

“Está mais do que comprovado que as pessoas que foram às ruas contra Dilma não estavam interessadas em lutar contra a corrupção”

 

Existem vários veículos de mídia independente sendo criados no país em contraposição à mídia hegemônica. Esse é o futuro do jornalismo no Brasil, repórteres assumindo a tarefa de criar seus próprios veículos para disputar a narrativa contra a mídia empresarial ? 

Não acho que seja o futuro, na verdade é o resgate de um jornalismo que foi perseguido e morto pela ditadura militar: um jornalismo feito por trabalhadores. Defino o que eu e outros jornalistas independentes fazemos como jornalismo operário, algo que sempre existiu desde os primórdios do que se conhece como imprensa. Na ditadura, os veículos feitos por trabalhadores foram empastelados e proibidos. Até mesmo a Última Hora, que era um jornal da grande mídia porém com a ideia de ser “popular”, foi perseguido. Os blogueiros progressistas de certa forma resgatam este jornalismo feito pelo povo para o povo.

“Defino o que eu e outros jornalistas independentes fazemos como jornalismo operário”

 

Você passou por vários veículos da mídia tradicional e decidiu sair da Carta Capital para criar seu próprio veículo. O que essa mudança representou na tua carreira, na tua vida e o quanto você evoluiu de lá para cá ? 

É sem dúvida uma etapa muito gratificante da minha carreira, sobretudo porque posso falar sobre o que penso, o que, independentemente do veículo onde se trabalha, não é permitido a uma repórter. Hoje continuo repórter e ao mesmo tempo posso opinar sobre os principais temas da atualidade. Não ter patrão é maravilhoso, e considero que, mesmo com as perdas financeiras, tem valido muito a pena o caminho que escolhi.

Outro dia você declarou no Socialista Morena que iria dividir o tempo de jornalista com o de chef de cozinha porque a verba com o site não estava dando para pagar as contas. Qual é a grande dificuldade de obter financiamento: o leitor ainda não entendeu que também é papel dele contribuir ou falta que empresas com função social também entendam o papel delas nesse momento ? Ou é outra coisa que eu não mencionei ? 

Acredito que assinar meios independentes é um hábito que se cria e as pessoas ainda não criaram este hábito. Foi assim com os jornais por assinatura e as revistas por assinatura. As pessoas criaram este hábito. Creio que logo também vão perceber que se não assinarem os meios com os quais se identificam eles simplesmente desaparecerão. Eu sempre repito: é preciso financiar o jornalismo que te representa. A mídia comercial representa apenas a elite e o pensamento da elite. Trabalhador deve financiar o jornalismo que representa o trabalhador.

“É preciso financiar o jornalismo que te representa”

 

A democracia no Brasil passa pela regulação da mídia ? 

A regulação econômica da mídia, sobretudo, impedir que um mesmo grupo seja dono de todos os meios de comunicação de um estado, por exemplo, como existe em todos os países desenvolvidos do mundo. Impedir a concentração da mídia é fundamental. Mas eu sou muito cética de que isso venha a acontecer. E, enquanto isso não acontece, a esquerda tem que se mexer. Deveria ter se mexido durante os 13 anos em que o PT esteve no poder, quando o partido poderia muito bem ter criado um meio de comunicação próprio, financiado pelo partido, em vez de pagar 70 milhões de reais a um marqueteiro em ano eleitoral. O PT não tem nem um site decente! Então é fácil também atribuir a própria incompetência ao fato de a mídia não ser regulada.

“Impedir a concentração da mídia é fundamental”

 

Os ataques pessoais que você sofre nas rede sociais mostram que conseguiu furar “a bolha”, ou seja, você não é uma jornalista de esquerda que fala só para a esquerda. Ao mesmo tempo, a internet não é um exemplo de democracia, já que praticamente duas empresas controlam tudo. Qual é o caminho para ir mais longe em termos de alcance  ? 

Precisamos crescer. Eu, por exemplo, preciso crescer, ter uma equipe para postar mais no site. Até hoje faço o site sozinha.Quando viajo a trabalho o site fica sem postagens… E a maioria dos blogueiros está nesta mesma situação. Já há algum tempo eu defendo a criação de um portal independente que pudesse reunir todos nós.

“Defendo a criação de um portal independente que pudesse reunir todos nós”

 

Quais as iniciativas no jornalismo que mais despertam sua atenção, seja pela qualidade ou independência ? 

Eu admiro alguns sites gringos que conseguem se manter com o apoio dos leitores e mantém um fluxo de notícias bacana, como o Mother Jones, o Raw Story e o Alternet. Há um site também que publica notícias a partir de estudos acadêmicos que é muito interessante, o The Conversation. Estou sempre lendo eles e há sempre coisa boa para ler, ao contrário da mídia comercial brasileira.

A justiça eleitoral tem discutido formas de combater as fake news, mas há quem compare informação errada publicada sem intenção de obter algum ganho, com as fake news, divulgadas deliberadamente para macular a imagem de alguém. Deixar o controle só nas mãos da Justiça não pode abrir um precedente para a censura ? 

Sim, é muito complicada essa questão. Não duvido que a “Justiça” escolha como alvo das fake news as páginas de esquerda. E se eles estabelecerem que só é jornalismo de verdade o jornalismo “imparcial” que a mídia comercial diz que faz? Precisamos estar muito atentos para este “combate” às fake news, principalmente porque hoje a justiça brasileira comprovou que ela, sim, tem lado. E não é o nosso.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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