CIDADANIA

Dom Antonio, o mensageiro de Francisco

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Até a chegada de Dom Antonio, em 2014, a cúria de Caicó ficou dois anos sem bispo. O último havia sido o baiano Manoel Delson Pedreira da Cruz. Dom Delson permaneceu no Seridó de 2006 a 2012, quando o Vaticano o transferiu para Campina Grande (PB). Geralmente, as mudanças nas dioceses ocorrem por razões políticas ou meramente administrativas.

Dom Delson pertence à ala mais conservadora da igreja Católica e, durante o bispado em Caicó, tomou decisões polêmicas, como a de proibir o batismo por homens e mulheres não casados seguindo os rituais da igreja. O antecessor de Dom Antonio também afastou figuras da cidade de postos-chave na igreja do Seridó, contrariando setores tradicionais da cúria caicoense.

O historiador da UFRN e pesquisador de religiões não oficiais Lourival Andrade Júnior classifica o bispado de Dom Delson como “extremamente conservador”. E compara a relação entre Delson e Antonio a partir da relação dos dois religiosos com a cidade:

– Dom Delson era extremamente conservador, um homem austero, que se vestia de forma austera. As pessoas logo identificavam o bispo da Diocese. Mas com ele a igreja não fez nenhuma discussão social nem política. Dom Antonio é diferente. Anda de chinelo, calça jeans, camiseta, anda na rua, fala com as pessoas, caminha todos os dias às 5 horas da manhã na Ilha de Santanna. Dom Antonio é uma pessoa humilde que sabe o papel dele como porta-voz da igreja. E sabe que não precisa ostentar para ser o que é.

 

Historiador e pesquisador de religiões não-oficiais, o professor da UFRN Lourival Andrade Jr. afirma que as posições de Dom Antonio assustaram Caicó

 

Catarinense radicado há oito anos em Caicó, Andrade conta que é possível identificar uma divisão na igreja do Seridó entre conservadores e progressistas. Para ele, a chegada de Dom Antonio está diretamente ligada ao novo momento da igreja comandada pelo papa Francisco.

As ideias disseminadas pelo bispo carioca são tão avançadas em relação ao que a tradição católica pregava até então que, segundo o professor, têm assustado tanto os fiéis mais progressistas como os mais conservadores.

Francisco trouxe uma nova visibilidade para a igreja mais progressista. Gosto muito de uma frase de Dom Cláudio Hummes em que ele diz: “a igreja não pode dar respostas velhas para perguntas novas”. E parece que o papa Francisco está imbuído nisso. Sobretudo a partir do governo de Dilma, a própria CNBB tem se voltado para questões mais sociais, como a reforma trabalhista, previdência… nessa esteira, recebemos um bispo que vem de uma ala progressista da igreja, sempre pautando os jovens, as comunidades periféricas e começa a fazer discurso com a visão do papa Francisco.

O que mais tem chamado a atenção do professor Lourival Andrade é a proatividade de Dom Antonio, que conversa com as pessoas, participa de atos e manifestações nas ruas e leva discussões sociais e políticas para as missas e homilias, como ocorreu no sermão sobre a necessidade da sociedade acolher pessoas homoafetivas.

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– Houve a repercussão internacional da homilia, mas Dom Antonio já vinha se posicionando antes. Ele se manifestou contra o impeachment da Dilma, contra os processos de corrupção, questionou a inércia do Congresso Nacional, participou na linha de frente de manifestações de rua e autorizou a suspensão das aulas do colégio diocesano para que alunos e pais participassem das manifestações contra o governo Temer. Isso tudo é assustador para uma cidade conservadora, o que é muito bom para a sociedade.

Apesar do discurso avançado e de levantar questões importantes que estão na pauta do dia, Lourival Andrade afirma que não se pode perder de vista, porém, que Dom Antonio é um representante da igreja Católica:

– Eu nunca vou dizer que Dom Antonio é um homem de esquerda, mas ele coloca o dedo na ferida. Diante da letargia provocada por essa direita fascista e horrorosa, o bispo está no lugar de fala que o qualifica a lutar contra tudo isso. Ele tem o discurso dos mais pobres, simples, sem deixar de ser erudito. As pessoas entendem o que ele fala.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"