OPINIÃO

Da demência e da loucura, substantivos injustamente femininos

O gozo é uma palavra do gênero masculino. A dor, do gênero feminino. O saber, masculino. A sabedoria, feminino. O homem comete delitos. A mulher, faz loucuras. Homens são autores de 80% dos atos violentos, têm maior probabilidade de reincidir, são mais propensos a assassinar suas companheiras, a cometer crimes sexuais. Nem sempre são punidos, mas as celas estão cheias de condenadas por crimes passionais, ainda que tenham matado para salvar a própria vida. Quando delinque, uma mulher dificilmente encontra perdão. É sempre má e louca, como e quando seria sábia? Todos os diagnósticos e sentenças estão antes no campo do simbólico e o falo é um símbolo poderoso.

A psicanálise freudiana disse isso primeiro, o falocentrismo desconhece e esvazia o feminino , a mulher era um continente obscuro para o seu fundador. Que buscassem os poetas, aqueles que quisessem entender a mulher. Assim, o pai da psicanálise deu sua anuência à continuidade da ideia platônica de que o útero era como animal raivoso, que tortura e adoece a mulher e faz virem à tona todos os males da natureza. O que querem as mulheres? Caladas, não se sabe. Falando, não se escuta. Ou não se entende. Ainda mais se o que elas sentem muda tanto como as fases da lua, como os seus hormônios sempre em revolução. Há que controlar a mulher, essa imprevisível. Aquieta-la. Uma mulher em repouso deve estar à espera. Do pai, do amante, da opinião pública que julga seu corpo e confirma quem ela é. Seja você mesma sendo esta aqui que dizemos que é você, nos grita a publicidade, a mídia, a indústria da vigilância e do controle dos corpos. Como ser essa mulher conforme, se ela se apaixonar? Uma mulher apaixonada é outra coisa: louca. Ela pode parar de esperar se impulsionada pela paixão. Pode descabelar-se e fazer parar. Ser Medusa. Ser Medeia. Medo.

Assim, nossas vicissitudes têm nome próprio. Neurose: Britney Spears, Cameron Diaz, Luciana Vendramini, Depressão: Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar, Zila Mamede. Angústia mental, vícios: Zelda Fitzgerald, Marilyn Monroe, Janis Joplin, Amy Winehouse, Elis Regina. Loucura: Maria I, Camille Claudel. O videodocumentário “A loucura entre nós” (2015), de Fernanda Vairelle, filmado durante três anos dentro do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador, desvenda a relação entre loucura diagnosticada e o feminino. A lista de desordens mentais privilegia as mulheres. Somos mais histéricas, anoréxicas, depressivas, temos mais neuroses, mais casos de personalidade múltipla, surtamos mais que os homens – pelo menos nos diagnósticos. E nas festas de final de ano, claro. Se por louca se quer dizer expressiva. Os humanos estamos sempre no plano do simbólico. Nos chamam mulheres loucas quando desejamos e dizemos, insistimos e repetimos, não nos importamos ou nos importamos muito, quando nos lembramos.

E quando não lembramos? Quando o corpo adoece para esquecer? Somos dementes.

Demência é uma palavra que rotula o comportamento dos loucos, dos que aparentam não saber. No plano do simbólico, loucos são dementes. No plano do corpo, dementes são os que partem pouco a pouco, que se apequenam dentro de si mesmos, como se suas mentes tivessem adormecido. Dementes estão desligados do próprio corpo, que se ativa e desativa de um jeito incompreensível. O corpo fica, a mente vai; o corpo age, a mente pára, some, vai e volta e não dá satisfação a ninguém. Às vezes, a mente do demente é só passado; às vezes, é mais delírio.

A demência afeta milhões de pessoas no mundo, mas eu conheço duas pessoas desses tantos milhões. Duas mulheres. Uma idosa, como a maioria dos que sofrem de demência; a outra, a demência a alcançou de maneira precoce. Ambas estão, cada vez mais, perdendo memória, capacidade intelectual, raciocínio, competências sociais e tem suas reações emocionais alteradas. Conheci também dois homens com outros tipos de demência e já não os conheço mais porque antes mudaram muito e, depois, morreram. Elas, eu também desconheço agora, ainda que vivam. São as mesmas que conheci antes, mas também são outras. Quase completamente outras.

Uma das mulheres que conheço e hoje tem demência, era mãe e avó, era elegante, ativa e cheia de vida. Foi parando. De lembrar, de andar e de falar. Parece que parou de pensar, olha as filhas como se não as visse e nunca, jamais, olha pela janela de sua casa-exílio. A outra mulher que conheço era uma das mentes mais brilhantes que tive perto de mim. Ela foi se perdendo de si à medida em que se perdia dos outros. De adulta, passou a criança inconsequente; de inteligência marcante, passou à frivolidade de um pensamento que não retém nada. Quem antes a venerava, agora mal pode suportar sua presença incomodamente ausente.

Homens e mulheres com demência, equivalem-se na loucura. A isso não podemos dizer “enfim”, só podemos dizer “ainda”. O mundo ainda chama loucas às mulheres potentes e sãs. Conhecendo a demência e os dementes, provando a dor de ver alguém afundar no vórtice escuro de sua própria mente, sei que não poder nunca dizer é como perder-se num sono atormentado e sem fim. Que possamos todas, então, dizer do que nos atormenta e não sermos atormentadas e enlouquecidas pelo que não dizemos. Que os verdadeiros dementes ainda possam também, de alguma forma, dizer algo de si mesmos para o mundo. E que todos possamos, enfim, aprender a conviver com o diferente, o incompleto e o desconforme, pois assim somos todos nós.

 

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