OPINIÃO

Da importância de saber rir de si

Tenho notado sempre, aqui em Natal ou qualquer cidade alhures, como certas pessoas simplesmente não se permitem rir. Não sabem rir. Certamente, não se trata de considerar que tudo seja risível; e certamente também trata-se de respeitar a liberdade de se ser “sério”. Mas, de minha parte, estou com o poeta Leminski: Pra que cara feia? Na vida ninguém paga meia.

Ao tempo em que discursos que primam tanto pelo ódio circulam por todas as nossas redes de comunicação, o riso acontece e é nossa condição humana. Nem adianta ficar aqui enumerando, na história da humanidade, quanta gente já se debruçou sobre o humor. Pensando especificamente na literatura, de Aristófanes a Nei Leandro de Castro, por meio de diversos procedimentos de linguagem (duplo sentido, trocadilhos, deslocamentos, ironias, exageros cômicos etc.), o riso está no mundo e aliado ao delírio literário nos permite, de algum modo, fugir um pouco do peso da realidade.

Evidentemente, há um certo tipo de riso canalha que contribui em tornar tudo mais pesado (aquele, por exemplo, de piadas homofóbicas, racistas, machistas etc.). Mas o riso sobre o qual quero falar aqui tem a ver com a capacidade de cada um, como diria o educador Jorge Larrosa, de se autocoroar com um “chapéu de guizos” e assumir a atitude de opor sua declarada estupidez à estupidez mascarada e mentirosa dos que não se acreditam estúpidos. Refiro-me à capacidade de saber rir de si.

Vasculhando páginas de humor na internet, tenho me deparado com uma série de memes (esses gêneros discursivos das esferas digitais que, de modo geral, me parece, investem no propósito comunicativo tanto de informar, como de formar opinião, como de fazer rir) que fazem uso desse recurso conhecido como autoderrisão, isto é, tomar o próprio “eu” como objeto de riso.

 

Pelos exemplos que tenho encontrado, pode-se notar que o humor é manipulado sobretudo pela quebra entre esquemas opostos de raciocínio (normal X anormal; lógico X ilógico; típico X incomum; esperado X inesperado), o que gera então um efeito de surpresa, e consequente possível riso, por meio da contradição.

Mas o que mais acho interessante é, digamos, a dimensão ética desse tipo de riso. Ao tomar o “eu” como objeto de zombaria, apela-se então para o que Vladimir Propp chamou de “riso bom”, com cujo objeto de riso qualquer um pode se identificar. Assim, não se ri de alguém, mas sim com alguém, evitando uma atitude escarnecedora (e ofensiva) de rebaixar um outro (uma pessoa em específico ou um grupo social, étnico, religioso etc.).

O humor, nesse caso, aproxima-se muito com o que Freud considerou como “defesa psíquica”. Então, se estamos todos no mesmo barco da miséria humana, saibamos celebrar a beleza do oceano antes de afundarmos de vez. Coloquemos, pois, nosso chapéu de guizos, apreciemos a vista e aprendamos com a sabedoria dos memes.

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *