OPINIÃO

Da Lama ao caos

No dia seguinte, ele esbravejou e voltou as cargas contra outras mulheres. Na cabeça dele, Fátima e suas assessoras teriam dedicado tempo para garantir toda a repercussão aos comentários grotescos contra a militante ambientalista sueca Greta Thunberg. Edmo Sinedino, no texto de ontem, usou adjetivos suficientes para descrever o episódio.

Ele já havia pedido desculpas. Em três linhas, no último post do dia, chamou de “comentário infeliz” o espetáculo de machismo, desrespeito aos direitos da infância e à dignidade da pessoa humana em seu programa na Rádio 96FM. E assim, achou que havia aprendido a lição, provavelmente achou que o caso estava encerrado e foi dormir tranquilo.

As redes sociais não aceitaram as desculpas. Nem foram dormir. O vídeo chegava no whatsapp, aparecia no facebook (seguido dos emojis enojados) e chocava cada vez mais brasileiros e estrangeiros que não conheciam a verve raivosa em seus comentários diários no rádio e na TV.

Sim, também na TV.

Em suas lacônicas desculpas, ele não lembrou que também havia balbuciado os mesmos comentários sórdidos na TV Tropical. Talvez o “esquecimento” tenha a ver com a falta de protestos do seu companheiro na bancada televisiva, ao contrário do que bem fez sua companheira de microfones no rádio.

Na internet, houve quem tentou contemporizar. Teria sido apenas um “erro”. Quem nunca errou na vida, né não? Só que eu apostaria mais em “crime”. Um mistura de um pouco de calúnia, com bastante difamação e pitadas de injúrias contra a condição de saúde mental da garota sueca.

Sorte dele se ela não investir em um processo judicial contra ele. Sim, porque, ao contrário do que ele pensou e escreveu em seu blog, Greta deve estar atualizada do que aconteceu em torno do seu nome nas nossas terras devoradoras de jerimum.

Para orgulho dele, o caso não ficou nas redes fechadas e estampou as páginas de jornais, revistas e portais de internet. Tem notícia com o nome dele chegando dos Estados Unidos e até do Vietnam. Ele até comemorou o aumento na audiência do blog depois da crise, uma pena que os anunciantes tenham retirado os anúncios antes de os visitantes chegarem.

O problema é que se vai um deles e ficam tantos outros a propagar ideias e opiniões socialmente nocivas pelo rádio, pela TV e pela internet. A Liberdade de Expressão também tem limites e precisamos começar a reconhecê-los nesses tempos em que os discursos de ódio estão se naturalizando rapidamente.

Nos tempos dos meus avós, quem dizia o que queria, escutava o que não queria. Talvez seja a hora de respondermos à altura.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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