OPINIÃO

Da velocidade do mundo

Não dá mais tempo de pensar em nada. Enquanto comentava que Evo Morales convocara novas eleições, o apito do celular avisava que ele já havia renunciado. Alguns apitos depois, os resultados nas eleições espanholas com um crescimento vertiginoso do que há de pior na direita por lá.

Por aqui, farpas pra cá e pra lá apontam para o novo episódio de polarização política que, segundo Gerson Camarotti, teria sido “criada” por Lula. O mesmo Lula que, segundo William Bonner, nem estava preso, estava apenas “em uma sala da Polícia Federal”.

Nas redes sociais, explodem os trending topics, impulsionados ou não por robôs, e desviamos tudo o que restava da nossa atenção para eles. E logo teremos que desviá-la para outro tópico, e para outro diferente e, pausa para um meme, hahhahaha, kkkkkkkkkk, heheheheh.

E as notícias do mundo seguem sem nenhuma graça.

De tão inundados de informações, quase perdemos a capacidade de olhar ao redor, de medir a temperatura das coisas, de sentir o cheiro (ou mais comumente o odor) da realidade, de ver e tocar os acontecimentos.

Não. Nada disso é de hoje. Já tem mais de quinhentos anos que os capitalistas preparam esse mundo para ficar exatamente desse jeito. Nem estou dizendo que “antes era melhor”. Só estou dizendo que agora está ruim em uma escala que não nos permite mais calcular quem somos, onde estamos, o que queremos. Por outro lado, grandes empresas conseguem calcular tudo isso com uma precisão que nos assustaria.

Tá na hora de mudar aquela frase das salsichas. Se todos soubéssemos como são feitos os algoritmos…

Desculpem o pessimismo. É que fica difícil encontrar a saída quando estamos cercados de paredes transparentes. E pode ser que não hajam saídas. É difícil, então, encontrar e cavar as brechas. E ainda ter que agir muito rápido, antes que os robôs e os hackers do capitalismo detectem as falhas e reparem os orifícios.

E para tudo isso, precisamos agir coletivamente. Evoluir dos grupos virtuais em ação para a ação em grupo, embasada politicamente, com propostas, projetos e utopias compartilhadas. Não estou falando para saírem da internet. Cada um de vocês pode permanecer conectado por lá. São as ideias de lá que precisam ocupar as ruas, mobilizar as pessoas e contagiar cada vez mais o ambiente “despolitizado” onde vivem a maior parte dos brasileiros. Precisamos materializar utopias de outros mundos possíveis, além das bíblicas promessas das igrejas de cada esquina.

E precisamos lembrar que, em muitas dessas esquinas, a internet não chegou e o monopólio midiático ainda toma conta da narrativa.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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