TRABALHO

Dados da covid-19 em Natal contrariam fala do prefeito de que situação é melhor hoje do que no mesmo período do ano passado

Enquanto na primeira semana de março de 2020 Natal registrava uma média de menos de dois casos de covid-19 por dia, na primeira semana de março de 2021 a capital potiguar já tem mais de 200 casos diários de pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Os dados contrariam a afirmação feita pelo prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB), de que a situação da capital hoje é melhor do que aquela registrada no mesmo período do ano passado.

Prof. José-Dias do Nascimento (UFRN). Dados da SESAP-RN

Figura do modinterv da UFPR

Já em relação às solicitações de leitos, na primeira semana de março de 2020 eram de menos de 20 por dia. Atualizando os dados para o mesmo período de 2021, já são mais de 140 solicitações diárias. Outro parâmetro que pode ser levado em conta é o R(t), o índice de transmissibilidade da doença. Quando o R(t) é igual a 1, cada 100 pessoas que adoecem, transmitem a doença para outras 100, por exemplo. Quando o R(t) é igual a 2, cada 100 doentes transmitem a covid-19 para outros 200 e assim, sucessivamente. Para que a pandemia seja considerada sob controle, o R(t) precisa ser menor do que 1 de forma constante por, pelo menos, três semanas. Em março de 2020, o R(t) em Natal era maior do que um, chegou a baixar durante um período quando foram publicados decretos restritivos, mas voltou a crescer novamente com o retorno das atividades e permanece assim, ainda hoje. Apesar de parecer que o mesmo índice nos períodos de 2020 e 2021 possa ter conotação positiva, na verdade, significa dizer que a pandemia se agravou à medida que as transmissões foram se acumulando e seguem numa crescente durante todo esse tempo.

A situação hoje é bem pior que em março de 2020. Temos agora uma situação de expansão da doença, com R(T) > 1 em Natal e nenhum decreto de restrição forte, como foi o Decreto de Abril do Governo do Estado. Além disso, agrava-se pelo fato de termos lotação de 100% dos leitos de UTI, que também não era a situação ano passado. O que o prefeito está dizendo hoje é muito coerente com as falas negacionistas e anticientíficas já ditas durante e após a campanha.”, critica José Dias do Nascimento Júnior, professor do departamento de Física da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) responsável pelas projeções do modelo SEIR da pandemia para os nove estados do Nordeste, inclusive o RN, no Comitê Científico do Nordeste.

Em 10 de março do ano passado, Natal e o Rio Grande do Norte estavam há menos de um mês do início da pandemia. O primeiro óbito por covid-19 no estado ocorreu em Mossoró, no dia 28 de março de 2020, quando foi confirmada a morte do professor do departamento de Química da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Luiz Di Souza, de 61 anos. Na época, o RN tinha 45 casos de covid-19 registrados, sendo 22 em Natal. A primeira morte na capital do gastrólogo Matheus Aciole, de 23 anos, no dia 31 de março de 2020.

A agência Saiba Mais entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Natal para solicitar os dados que subsidiaram a fala proferida pelo prefeito Álvaro Dias durante audiência de conciliação, nesta quarta (10), de que a situação da capital hoje é melhor do que no ano passado, já que as estatísticas disponíveis nos boletins epidemiológicos da Sesap (Secretaria Estadual da Saúde Pública) e no Regula RN, contradizem a afirmação. No entanto, sem apresentar qualquer dado, a SMS enviou apenas a nota a seguir:

“A Secretaria de Saúde de Natal está mais preparada para enfrentar a pandemia no que se refere a Rede de Urgência e Emergência na questão de RH, equipamentos hospitalares como respiradores, rede de gases, conhecimento da doença, estrutura física hospitalar como exemplo podemos cita o Hospital de Campanha, assim como estar mais preparada na rede de Atenção Básica através dos Centros Covid com equipes treinadas e capacitadas”.

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