OPINIÃO

Dando nome aos bois

O domingo mal amanhece e o nosso querido editor me saúda com uma notícia típica destes tempos surreais: o relato de que, na Índia, um casal de gêmeos recém-nascidos teria recebido os nomes de Corona e Covid.

Eu, que sempre fui apaixonada pela linguagem, desde muito cedo me senti intrigada com essa nossa capacidade humana, demasiadamente humana, de nomear. Eu me lembro, por exemplo, de, ainda muito nova, passar bons momentos folheando esses dicionários populares com significados dos nomes, criados para auxiliar futuros pais a decidirem como batizar seus bebês… E uma reflexão que me instiga ultimamente diz respeito ao fato de que nossa pluralidade subjetiva não se restringe aos nomes oficiais, para o que somos e acontecemos também por meio de apelidos, alcunhas, pseudônimos etc.

Evidentemente, essa condição de dar nome às coisas e seres já atravessou as inquietações de muitos outros nomes (ops…). O pai da linguística moderna, Ferdinand de Saussure, por exemplo, não pôde deixar de tratar disso: o nome é, em suma, uma arbitrariedade, não havendo nenhuma relação pura e essencial entre ele e a coisa nomeada.

Mas antes, bem antes, poderíamos citar, de início, Platão. A discussão platônica, especificamente em relação à linguagem, particularmente por meio do par “naturalismo versus convencionalidade”, foi tratada na obra Crátilo.

Nesse diálogo entre Crátilo e Hermógenes, cada um defende, respectivamente, a natureza da relação entre nomes e coisas: ora fruto de uma relação natural, ora fruto de uma convenção e acordo coletivo. A discussão não se encerra numa conclusão definitiva, mas é emblemática a proposição de Sócrates, que acena para uma concepção de uma realidade exterior (e melhor, posto que mais “verdadeira”) à linguagem: “É óbvio que teremos que procurar fora dos nomes alguma coisa que nos faça ver sem os nomes qual das duas classes é a verdadeira, o que ela nos demonstrará indicando-nos a verdade das coisas”.

Para além dessa abordagem idealista, Nietzsche – o filósofo-poeta – foi outro que pensou a condição humana de nomear e a isso atrelou o traço de criador e de artista. Na obra A Gaia Ciência, por exemplo, assim relaciona o ato de nomear com o atributo da originalidade: “ver algo que ainda não tem nome, não pode ser mencionado, embora se ache diante de todos. Os originais foram, quase sempre, os que deram nomes”.

Sendo assim, então, vamos dar nomes aos bois: Corona e Covid não deixam de ser nomes que atestam uma dose de originalidade por parte de seus pais. Talvez não seja de se espantar, sendo eles de uma cultura que nomeia milhares de deuses no seu panteão religioso.

E ao tempo em que finalizo este pequeno artigo, eis que me chega outra notícia que atesta que o brasileiro também comparece com sua criatividade: na cidade de Serra, no Espírito Santo, um recém-nascido foi registrado em cartório com o originalíssimo nome de Alquingel. Segundo a notícia, os pais só conseguiram registrar o bebê com tal nome depois de comprovarem que um outro filho se chamava Influenza.

Diante dessas notícias e destes tempos em que tudo está assim em suspenso, só me resta desejar a esses infantes muita saúde. Além da originalidade.

 

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