OPINIÃO

Danilo Menezes tinha esperança de rever amigos no Rio

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Ih, rapaz  vendo os jogos da seleção uruguaia, não tem jeito, lembro logo do meu querido amigo Danilo Menezes. Aí, pensando num texto para escrever e mandar para Rafa, cansando da canalhice da política, deixando as coisas por conta da PF espanhola e do The Intercept, resolvi rememorar essa história de 2011 envolvendo o uruguaio potiguar que publiquei no meu antigo blog No Ataque.

Foi assim:

Danilo Menezes Nuñes voltou ao Rio de Janeiro duas semanas atrás.

Ele foi comandando a equipe de futebol soçaite do SESC na Regional, que foi disputado em Jacarepaguá.

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Por coincidência, a delegação ficou hospedada em Copacabana, na confluência das ruas Barata Ribeiro e Siqueira Campos (podem ser avenidas, não sei).

Pois bem.

Foi justamente nesse local que Danilo morou quando jogava pelo Vasco da Gama, nos idos de 1950/60.

E Danilo se animou todo. “Puxa, vou poder visitar vários amigos que fiz no prédio que morei”, pensou o Gringo, enquanto desarrumava a mala.

Alojou a rapaziada. Deu as últimas instruções. “Ninguém sai, nada de praia, sol, é concentração. Vou rever uns amigos e volto na hora do almoço”, e saiu.

Chega nosso Gringo no prédio onde morou. O coração bate mais forte, de emoção.

O primeiro a rever seria o porteiro, velho conhecido de tantos bate-papos e conversas bonitas, para que ele deixasse, de vez em quando, subir uma namorada.

No prédio, entra, olha em volta.

Tem um senhor sentado. Não é o “Seu” Zeca.

Danilo se dirige a ele:

– Bom dia, amigo. O senhor é o porteiro? – pergunta.
– Sou eu sim, senhor, o que deseja?  – pergunta o novo chefe da portaria.
– É que eu estava procurando “seu” Zeca, ele era o porteiro do prédio, e era muito meu amigo. Passei para dar um abraço – falou Danilo.
– Iiiiih! Sinto muito! O senhor chegou com dez anos de atraso. “Seu” Zeca morreu, e morreu bem velhinho – respondeu.

Menezes, triste, agradeceu, e já ia saindo. Mas se lembrou que tinha mais uns seis amigos que moravam no prédio, talvez eles estivessem em casa.

Resolveu perguntar.

– Me desculpe, mas eu tinha muitos amigos aqui nesse prédio, o senhor conhece todos os moradores?
– Conheço quase todos sim, senhor. Pode perguntar – respondeu solícito o funcionário.

Danilo inicia.
– Seu  José Honório, que morava no 202. A gente sempre tomava uma cervejinha quando eu chegava dos jogos. Como ele está?
– Morreu! Tava bem velhinho. Faz cinco anos. O filho dele mora no apartamento.

Danilo de novo:
– E seu Epitácio? Ele era vascaíno doente, eu tinha que arranjar ingresso pra ele quase todo jogo, o danado era filho de português,  amarrado… Será que dar pra falar com ele?
– Puxa vida. “vô” Epitácio morreu tem mais de 15 anos. Tinha uns 95 anos quando bateu as botas – falou o porteiro.

Danilo ia ficando cada vez mais jururu.

E voltou a perguntar:

– Nhôzinho? Tá vivo?
– Morreu!
– E “seu” Silva do 304, era fortão, fazia halterofilismo, corria dez quilômetros todo dia, alí tinha saúde, será que dá para falar com ele?
– Morreu ano passado com 103 anos. Ali durou viu ? Ô veinho forte, era parecido assim como o sinhô.
– Mas seu Norberto, um agalegado, namorador, tocava violão bem que só e gostava de uma farra, acho que era da minha idade, talvez até mais moço que eu. Ainda mora aqui, esse deve tá vivo ainda?
– Norberto…Norberto…Ah! Aquele que tinha uma vemaguete amarela…morreu também. Tava bem passadinho, parecia um maracujá.

Danilo Menezes, de repente, sentiu um “banzo” danado, puxou pela memória, mas não lembrava de mais ninguém de seus antigos companheiros de papos e farras.

Mas tinha ainda uma sua ‘namorada’. Uma negona arrumada que ele, de quando em vez “errava” de apartamento e ia cair nos braços dela.

Ficou com medo, vai que o marido fosse amigo do porteiro e ele desse com a língua nos dentes, mas, mesmo assim, arriscou perguntar::

– E Dona Analice, ela se mudou daqui do prédio?

Analice era o nome da negona que o uruguaio, cheio de fogo na época, fazia a festa.

– Dona Analice se mudou – respondeu o rapaz da portaria.
Alívio para Danilo Menezes, pelo menos sua ex-namorada ainda vivia.

– Ela se mudou para o cemitério do Caju. Os parentes dela enterraram ela lá e venderam o apartamento.

O pobre do Menezes chega murchou.

Desistiu.

-Tá bom, tá bom, obrigado e foi saindo numa tristeza de fazer dó.

E o porteiro:

– Nessa idade o senhor ainda tem essa lembrança toda ? Tem mais alguém?
– Não, não – respondeu Danilo saindo apressado, chateado, é claro, o que ele quis dizer com esse “nessa idade”?

Quando ia atravessar a rua para pegar um taxi e voltar para o hotel onde deixou sua turma, olhou para a frente do prédio e estava lá a cigarreira do seu grande amigo Tavinho.

Se alegrou todo. Ainda era o mesmo nome. E se era o mesmo nome capaz de ser ele ainda trabalhando e vendendo revistas, jornais, cigarros, água de coco, cervejinha e tudo.

Correu lá cheio de esperança de conversar, saber mais detalhes dos amigos que já não estavam mais nesse plano.

Chegando, não reconheceu a pessoa detrás do balcão. O  rapaz, de uns 30 anos, atendeu com presteza:

– Pois não, o senhor quer alguma coisa?

E Danilo todo medroso:

– Não, não, tava procurando o Tavinho, ele era meu amigo. Ele não era o dono dessa cigarreira?
– Era sim. Ele era meu avô, mas ele já morreu faz doze anos.

Danilo quase cai.

Agradeceu e saiu voando daquele lugar e pensando com seus botões: “Pela caridade, só resta eu, vou voltar pro hotel antes que eu acabe morrendo também.

Ele chegou em Natal e, ainda lá na Fenat, nossos bons tempos de Fenat, ele me contou essa história quase com lágrimas nos olhos.

Eu, longe mim querer magoar o gringo meu amigo querido, perguntei assim, desconfiado, se ele tinha mesmo só 63 anos como afirmava…

Pela primeira vez, nesses anos todo de convivência, de encontros, de bate-papo quase todo dia, eu vi nos olhos do meu preto querido uma chamazinha de ódio.

Mudei logo de assunto, e fim.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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