OPINIÃO

De autores-editores

A existência de autores que se constituem também como editores não é nenhuma novidade na história da escrita e da leitura. Para não esticar muito a baladeira, pensemos, por exemplo, na chamada “poesia marginal”, espécie de onda libertária no campo das letras que, com o sopro da redemocratização no país, fez-se a base de um exercício de autogestão literária em que, munidos antes de mimeógrafos e depois de máquinas de “xerox”, escritores assumiram os trâmites da edição e circulação de seus escritos, tal como fizeram Torquato Neto, Ana Cristina César e Nicholas Behr, dentre tantos outros.

Com as (pós)modernidades tecnológicas, o processo ficou mais fácil e acessível. Talvez por isso tanta gente se julgue poeta. Como diria Thiago Gonzaga, rima flor com amor, faz um zine na gráfica rápida e…zás! Eis mais um gênio poético no mundo!

Mas sem adentrar nessa zona perigosa, o que cabe indagar é: o que mobiliza esses indivíduos que, por um exercício singular de atividade, constituem-se como autores-editores?

Alguns nomes que ousaram ir mais longe que a invenção poética em si e ousaram criar seu próprio selo editorial podem ser citados: em Teresina, temos Demetrios Galvão e o selo Poesia Tarja Preta; em Fortaleza temos Mardônio França com o Corsário, bem como a gangue da Revista Pindaíba com o ED!BAR; em Natal, pelo menos três nomes precisam ser citados: Victor H Azevedo e as edições Muganga, Carlos Fialho com os Jovens (nem tanto) Escribas e (por último mas não menos ótimo) Adriano de Sousa, com o Flor do Sal.

O que mobiliza essas criaturas? É o que me indago sempre, sobretudo quando esbarro, alegre, com suas produções de autores-editores. É uma pergunta já antiga e constante. Lembrando um amigo de outrora, por exemplo, poderia parafrasear assim: vai esperar que a Companhia das Letras publique sua obra?

Em tom nietzscheano, é possível atrelar tal exercício a uma prática de subjetivação que manifesta Vontade de Potência. E que raios seria isso? Enfrentamento, combate de forças ativas e reativas em que se toma posição. Ou do lado do “além-humano” ou do lado da “moral de escravo”. Super-homem ou rebanho.

A Vontade de Potência, compreendida como princípio ontológico, está no mundo. Nem todos sabem saudá-la e outros a saúdam por um meio particular de se tornar o que se é: autor-editor.

O prêmio Jabuti deste 2018 de melhor livro e de melhor poesia foi conferido a Mailson Furtado, cearense autor e editor de “À cidade”, o premiado deste ano. Mas quantos outros não fazem seu próprio livro e não têm visibilizada sua obra? Assim, para um libertário que preza a autogestão literária, isso pode não significar muita coisa (concursos são arbitrários, no fim), mas também podem ser significados de outro modo, como por exemplo reconhecimento dos pares de/sobre uma potência efetiva.

O fato é que, bem como outros dispositivos tão supremos quanto sacanas, as vontades e potências estão por aí, quase sempre à sombra, quase sempre subterrâneas, mas estão no mundo, teimando em vicejar e fazer brotar seus frutos.

Para isso, organizam-se em microfísicas de desejos e indignações semelhantes; elegem os preferidos e zombam dos preteridos; correm atrás dos colaboradores, fogem dos credores e até que chega o instante eterno: pelo exercício de escrever e editar, deixa-se de ser artista para se materializar como obra de arte. Para além do que queira a Companhia das Letras. Ou o Prêmio Jabuti.

Ser/estar autor-editor não é só uma prática de subjetivação. Num país em que se lê cada vez menos e mal, é uma atitude bélica de resistência. É disso que vamos precisar em 2019.

 

 

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