OPINIÃO

De como esnobamos o eleitor de Collor na eleição de 1989…

A proposta (e a promessa) era de escrever esta semana sobre a corrida para o Senado no Rio Grande do Norte, após análise na semana passada sobre as possibilidades que cercam a bancada potiguar para a Câmara Federal. Mas, diante da vibe do momento, que foi a entrevista de Jair Bolsonaro ao Roda Viva, na TV Cultura, adiemos os pretensos senadores mais uma semana.
 
Contudo, não vou me deter na (triste) figura dele, sua truculência, ignorância e o que ele representa de pior. Prefiro invocar uma sequência de histórias do passado e deixar as analogias por conta de quem lê. 
 
Meados de 1989, primeira eleição presidencial que o Brasil experimentava desde 1962, com Jânio Quadros eleito (depois renunciou e Jango assumiu, mas aí é uma outra história). Eu, na empolgação dos 16 para 17 anos havia tirado o título de eleitor e ainda sob os eflúvios de Marx e Lênin, recém-descobertos e do mundo ainda num pós-Guerra Fria, me encantava com Lula, o operário-líder, a quem havia decidido votar.
 
Morando no Catete, no Rio de Janeiro e estudando no ADN, simpático colégio em Botafogo, via boa parte dos meus amigos votarem em Brizola, que havia governado com louvor o Rio. O “brizolismo” era quase uma febre à época. Havia também os amigos mais politizados que se classificam comunistas e votavam em Roberto Freire (sim, é verdade, ele era do PC do B à época). 
 
Enfim, candidatos de Esquerda para todos os gostos e cismas. Do outro lado, gente como o ex-vice-presidente de Figueiredo, o esquisito Aureliano Chaves, o empresário Guilherme Afif, enfim, também criaturas para todos os gostos e bolsos.
 
E havia o jovem “caçador de marajás”, Fernando Collor de Mello, o intrépido político que passava firmeza e altivez, tudo que o Brasil precisava naquele momento estranho, de Sarney e pós-ditadores de plantão.
 
Mas, que tínhamos nós, bravos militantes de Esquerda, a ver com o caçador de marajás bonitão adulado pela mídia? Nossa missão era debater se o PT estava ou não preparado para assumir o poder ou se Mário Covas poderia ser considerado Esquerda ou Centro. Tudo isso regado a chopes, citações de filmes de Costa Gavras e Elio Petri e a soberba habitual da adolescência.
 
Collor era um acéfalo fabricado pela mídia, claro. Quanto aos seus eleitores, considerávamos que também o eram. Ridicularizávamos das meninas que declaravam voto em Collor. 
 
Lembro que uma tia muito querida votava em Collor. O porteiro gente fina do prédio onde eu morava, que de vez em quanto arriscava beber uns camparis comigo no bar do fim da rua, talvez votasse em Collor também. Como saber? Por que eu gastaria meu latim com aquelas criaturas que não haviam lido John Reed nem assistido “O encouraçado Potenkim?” Havia os debates sem fim, os chopes, os tira gostos, as paqueras, enfim.
 
Quanto ao resultado na eleição, é História, claro. Collor venceu Lula no segundo turno e depois vieram os caras pintadas e etc e tal. Hoje posso dizer que um sem número de pessoas que eu conhecia votou em Collor por razões diversas: por não confiar em um barbudo, por desconfiar do sotaque gaúcho de outro, por medo da reforma agrária que roubaria o apartamento que elas tinham lutado para comprar, para continuar indo à Igreja já o boato era que os comunistas fechariam as igrejas. Por achar que aquele jovem de olhar alucinado para uns, decidido para outros, realmente mudaria o Brasil para melhor.
 
Pois é, as pessoas votam em x ou y candidatos por razões diversas.
 
E a história de Collor e da relação esnobe da minha geração de progressistas te lembrou alguma coisa que acontece hoje?
 
Pois é, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Só que a farsa pode ser uma tragédia, também.
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