OPINIÃO

De fake em fake

Leio relato do nosso querido editor a respeito da polêmica entre uma escola particular e um blog de “notícias” aqui e aqui. Segundo o tal blog, um possível ataque estaria sendo planejado por parte de um dos alunos do colégio. Leia aqui

Como mãe e professora, senti-me revoltada com a imprudência do tal “jornalista” em publicar notícia tão irresponsável, sem nenhuma prova mais contundente além do simples “achismo” (a manchete por si só já demonstra a incipiência de suas fontes) baseado no julgamento leviano e sumário de uma folha de caderno com anotações. O boato publicado com ares de verdade incontestável (é esse o efeito visado pelas notícias) criou, obviamente, um clima generalizado de pânico e, claro, quem mais sofreu foi o aluno acusado, obrigado a se afastar pela direção da escola.

Como estudiosa da linguagem e tentando ver esse acontecimento sob uma ótica menos passional, procuro fazer a pergunta clássica que um analista de discursos faz: por que tal enunciado (no caso, a “notícia” do blog) veio à tona?

Creio que dois elementos podem aí ser considerados: primeiramente, em uma rápida panorâmica pelo tal blog, é possível ver logo uma certa predileção por temáticas policiais, digamos assim (lemos, por exemplo, notícias sobre o massacre na Virgínia, sobre a denúncia de estupro sobre Neymar e ainda sobre um sequestro relâmpago em Parnamirim). Essa predileção, sabemos, inscreve-se numa chamada “tendência” (chamemos assim) pelo espetáculo de horrores que vários outros programas de rádio e TV também seguem, oferecendo ao interlocutor uma dose diária de violência na hora do almoço.

Esse primeiro aspecto, aliás, me remete a dois outros textos, um livro e um filme: o livro é o de Ignacio Ramonet, aqui traduzido do francês como “Propagandas silenciosas”. Refletindo sobre o fenômeno relativamente recente que era a Internet nos anos 2000, o autor afirma: “Antes, a mídia vendia informação (ou distração) a cidadãos. Agora, via Internet, vende consumidores a anunciantes”. Daí, o que pode ocorrer é “uma informação em saldos, cuja qualidade não cessou de degradar-se, por toda parte, no curso dos últimos anos. Outros fatores explicam ainda este déficit de qualidade, em particular, a espetacularização e a busca do sensacional a qualquer preço que podem levar a aberrações, a mentiras e trucagens, favorecendo novas manipulações psicológicas”.

O segundo texto a que essa tendência ao show de horrores me remete é o filme “O abutre”, do diretor Dan Gilroy, de 2014. No enredo, protagonizado por Jake Gyllenhaal, o submundo do jornalismo criminal é mostrado sem cortes, num espetáculo de sangue em que, em busca de audiência, vale tudo para se filmar uma “boa” notícia, inclusive fabricá-la, não importa por quais meios.

Aliás, é nessa direção que é possível também abordar o segundo elemento a que me referi mais acima a respeito da publicação de tal “notícia”: a fabricação de verdades. Certamente, sabemos muito bem que em termos de linguagem nunca é possível se chegar a um grau zero de neutralidade e isenção e que, de algum modo, tudo em termos de enunciação já pressupõe uma dose de invenção (o simples fato de grafar aspas na palavra notícia já demonstra aí uma atitude e avaliação pessoal do acontecimento, por exemplo). Mas, em meio às discussões sobre o mundo da “Pós-Verdade” e das “Fake News”, é inegável que no bojo das condições de produção de enunciados como a tal “notícia”, há não só relações e jogos de poder, mas também muita má fé, pra não se fazer uso de termos como “escrotice”. Que o digam, por exemplo, as eleições de Trump e Bolsonaro, baseadas na divulgação massiva de inverdades apresentadas como fatos: foram pelo menos 104 boatos propagados só durante a campanha (ver https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/das-123-fake-news-encontradas-por-agencias-de-checagem-104-beneficiaram-bolsonaro/).

De fake em fake, caminhamos assim para o abismo. Como escapar desse circo de mentiras generalizado? Não tenho fórmula certeira para isso, aliás, acho que sempre cai bem duvidar e questionar as “verdades” categóricas demais, como aquelas propostas em fórmulas, manuais, cartilhas.

Ou “notícias”.

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