OPINIÃO

De Havana a Bogotá

Quando Platão morreu, provavelmente aos 80 anos, em 347 a.C. e seu sobrinho, Espeusipo, assumiu a direção de sua escola de filosofia em Atenas (a famosa, Academia); o velho discípulo de Sócrates ainda não era a sumidade filosófica que se tornaria mil anos depois.

Sua academia original, no mundo grego antigo, não acompanhou o movimento de expansão da língua grega para o oriente, quando Alexandre , o grande, conquistou a Pérsia, o Egito e foi bater com seus exércitos às margens do Ganges.

Naquela época, chamada de “helenística” pelos manuais de história que você, amigo velho, deve ter lido no ensino médio, a filosofia grega se tornou um poderoso elemento de dominação cultural em toda Ásia ocidental e norte da África. O grego foi transformado em uma espécie de “inglês” da antiguidade tardia, ajudando a espalhar o pensamento das escolas epicuristas, estoicas e cínicas por toda zona do mediterrâneo. A própria escola original de Platão (a primeira Academia), confinada ao horizonte de uma Atenas decadente, fechou as portas no século I a.C, lançando as ideias de seu mestre fundador em um ostracismo milenar.

Talvez esse ostracismo tivesse durado bem mais caso os adeptos de uma exótica seita judaica não tivessem abraçado, com fé fervorosa, o pensamento de Platão.

Foi através de autores neoplatônicos como Macróbio, Proclo e Plotino, que o pensamento de Platão foi descoberto pelos cristãos, bem na época da chamada segunda Academia que foi fechada em 529 d.C. quando Justiniano proibiu todas as escolas de filosofia não cristãs nos territórios do Império Bizantino.

Foram justamente os primeiros padres da Igreja cristã que acolheram a obra platônica com muito mais entusiasmo do que todos os pensadores gregos antigos haviam acolhido. Essa recepção cristã de Platão acabou produzindo um fenômeno cultural fundamental para a história do ocidente que foi a “platonização” do cristianismo.

Acredito que seja esse fenômeno, ocorrido ainda no primeiro milênio da era cristã, que melhor explica o porquê de quatro em cada cinco análises de cientistas políticos, jornalistas de política internacional, juristas, historiadores e até especialistas em geopolítica, estejam hoje marcadas com o carimbo daquele incontornável “platonismo para as massas” do cristianismo estrutural que descansa nos fundamentos da tal “cultura ocidental”.

É inevitável que se derrape, aqui e acolá, quando alguém faz uma leitura da situação de Cuba, por exemplo, naquele desvio platônico de usar “modelos ideais” para emitir um juízo de valor sobre a política real.

Ao analisar protestos que se espalham pelo mundo, nossos analistas sempre recorrem as doutrinas políticas que condicionam seu olhar. Liberais, socialistas, comunistas, fascistas… sempre há um “ismo” platonizante que ofereça uma perspectiva de “como a polis deve ser” e que condiciona o enquadramento pelo qual a análise deve ser feita.

Como se fossemos juízes transcendentes a olhar o mundo de um ponto de vista divino, somos obrigados a nos posicionar, declarando nosso apoio ou rejeição a tal ou qual regime. Nossas analises acabam se perdendo em juízos de valor ao indicamos publicamente qual regime é “o melhor” ou se ele serve ou não como “modelo ideal” a ser seguido.

Esse tipo de cacoete cristão faz, por exemplo, com que passamos mais tempo discutindo a situação em Havana do que analisando o que se passa em Bogotá, que é a capital de um país que por acaso, ao contrário da ilha caribenha, faz fronteira com o Brasil.

Cuba, no imaginário ideológico da nação, representa o “modelo ideal alternativo” ao “modelo ideal hegemônico da democracia liberal”. Como um modelo ideal alternativo precisa ser demonizado pelos liberais e sacralizado pelos socialistas.

Na eterna peleja platônica acerca da “cidade perfeita”, que percorre todo pensamento político do ocidente cristão, a lembrança de Havana tem uma função ideológica simétrica ao esquecimento de Bogotá.

Muito mais embaraçoso para o nosso modelo ideal, o caso colombiano causa muito mais problemas aos liberais do que o caso cubano. Afinal a Colômbia (ao contrário da Venezuela de Maduro e a Cuba dos castro) está do “nosso lado”. Faz parte da aliança militar que defende os valores da democracia ocidental. A Colômbia se alinha firmemente aos interesses geopolíticos dos EUA há muitos anos e funciona como possível cabeça de ponte privilegiada no Caribe, em caso de guerra. Além do mais o país tem uma economia de mercado com eleições e instituições democráticas afinadas com o modelo ideal norte americano.

Como explicar então as imensas manifestações populares que se arrastaram por semanas e foram objeto de uma repressão brutal por parte do governo colombiano, com centenas de mortos, um sem número de presos e várias denúncias de abuso sexual contra as forças policiais?

Estariam os colombianos insatisfeitos com o modelo democrático? Buscariam um cambio de regime? Procuram a superação do modelo econômico capitalista? Como é possível que em um país alinhado com o a nação que melhor traduziu o modelo ideal de democracia liberal, haja essa insatisfação e essa repressão política brutal? Para o bem do modelo ideal é melhor não fazer essas perguntas e deixar Bogotá de lado enquanto a gente olha pra Havana.

O fato é que a violência política é o padrão na democracia liberal colombiana há décadas. Pelo menos desde que o líder de esquerda, Jorge Eliécer Gaitán (chamado pela elite do país de “negro Gaitán” em função de sua origem socio-racial) foi assassinado em 1948, dando inicio ao período chamado de La violência, que a história recente da democracia colombiana é marcada por uma onda permanente de brutalidade política.

Após os protestos que se seguiram ao assassinato de Gaitán e geraram o Bogotazo uma revolta popular muito semelhante a que a gente viu nas últimas semanas, milícias paramilitares de extrema direita, ligadas ao aparato de repressão estatal da “democracia liberal” colombiana, protagonizaram uma onda de assassinatos seletivos de camponesas gaitanistas, com massacres brutais em diversos pontos do país. Essa prática miliciana, que recorta a história da Colômbia, continuou com a guerra dos carteis de pó e com “guerra suja” de Uribe contra as FARC. No fim das contas, esse padrão de repressão política que implica na atuação de grupos paramilitares promovendo massacres e assassinatos seletivos por agentes do Estado, se mantem até hoje (mesmo após a assinatura do tratado de paz ratificado em 2016) quando centenas de ativistas e ex militantes das FARC foram assassinados.

O caso colombiano é embaraçoso justamente pelo fato da Colômbia ser o que ela é: uma democracia alinhada com a maior democracia liberal da terra e não uma ditadura comunista que insiste em manter um modelo ideal que não se encaixa na nova ordem mundial atlanticista.

No final das contas o platonismo para as massas de nosso cristianismo estrutural não nos permite contemplar o desconcerto de Bogotá, apenas o de Havana.

Quem sabe, se nossa análise política fosse temperada com um pouquinho mais de Maquiavel, o mal estar cristão diante da violência residual que o nosso próprio modelo ideal de sociedade impõe, pudesse ser minorado, e a gente pudesse observar as questões internacionais com aquela dose de pragmatismo que só o bom e velho realismo político oferece.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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