OPINIÃO

De quantas Mayaras se faz uma revolução?

A atmosfera tensa que se vê na internet, na campanha política atual, parece brincadeira de criança se comparada a uma campanha de rua, em uma cidade do interior do Brasil. Focar esse turbilhão, que oscila entre o Carnaval das passistas de trio elétrico, e os tapas entre adversários, foi o que decidiu fazer o jovem diretor francês Quentin Delaroche. Oito anos atrás ele estudou no Recife, como intercambista, e depois de quatro anos, começou a pesquisar para um filme que queria fazer no interior de Pernambuco. Depois de ouvir moradores de muitas cidades, percebeu que a política era o assunto de qualquer conversa que passasse de cinco minutos.

O documentário de Quentin, Camocim, foi filmado em 2016, nas eleições para prefeito e vereadores, em Camocim de São Félix, cidade de 18 mil habitantes a 115 quilômetros da capital. Poucos meses antes, a primeira mulher eleita presidente do Brasil havia sido destituída do cargo por um golpe parlamentar travestido de impeachment por crime de responsabilidade. O filme se centra na campanha de um candidato a vereador, jovem, que se propõe a ser a voz da juventude – e da mudança – no parlamento municipal.

A campanha de César, o candidato, é organizada por amigos. Já nas primeiras cenas é possível identificar quem assumiu o protagonismo da empreitada – e da narrativa. O grupo está nos preparativos para gravar um dos vídeos da campanha, e Mayara manda a real: quer mais compromisso do candidato, mais profissionalismo da equipe. O filme se divide, a partir daí, entre tomadas das campanhas dos adversários na majoritária – azuis contra vermelhos -, os bastidores da campanha de César, e o dia a dia na casa de Mayara.

Sintomático que o diretor tenha eleito como protagonista uma jovem mulher, negra, periférica. Num cenário em que os personagens não se enxergam como responsáveis por mudanças políticas, com discursos que oscilam entre a defesa do voto nulo e a certeza de que os eleitores são apenas trampolins para a ascensão de políticos, a voz de Mayara é dissonante e poderosa. De espectadora conformada, ela não tem nada. Ousa, debate, insiste.

Mayara diz claramente: o poder precisa de renovação e nós temos que estar lá para defender essa renovação. É surpreendente e auspiciosa a consciência do próprio poder que ela tem. Não se convence pelo desânimo dos amigos de bar, nem pelo discurso que apela ao coronelismo do tio, que tenta convencê-la a apoiar o candidato da situação em função da condição de funcionária do município da mãe. Mayara não cede ao discurso do clientelismo, e se utiliza de todos os métodos de marketing tradicionais, como jingles grudentos difundidos em carros de som barulhentos, para chegar ao seu objetivo.

Camocim poderia ser Caicó, Parelhas ou Passa e Fica. O clima festivo e ao mesmo tempo tenso da disputa municipal, que se repete a cada quatro anos, está em todas as cidades do interior. É esse retrato, feito por Delaroche muitas vezes com a câmera parada, que instiga a pensar qual o papel real que a política tem no dia a dia dos cidadãos dessas cidades. É a política da disputa pela disputa, sazonal, ou aquela que se faz diuturnamente, nos espaços coletivos de convivência? Camocim nos mostra um retrato desanimador, de modos de fazer política tradicionais e conformismo. Mas mostra, também, que é da opressão que nasce a resistência e a perseverança.

*Camocim estreou nesta quinta-feira (13) em circuito nacional e está em cartaz em Natal no Cinépolis Natal Shopping.

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