OPINIÃO

De volta ao futuro

Um dos motivos de orgulho que Natal tem de sua história é a vocação para a modernidade. O povoamento que nasce cidade antes de ser vila, a reformulação do espaço urbano na virada do século XIX para o XX, a racionalidade do traçado urbano trazida pelo Plano Palumbo, que causa admiração ainda hoje aos que visitam a cidade pela primeira vez, são os traços físicos da alma futurista da cidade do sol.

A produção intelectual de poetas e outros escritores, como Jorge Fernandes e Cascudo, por exemplo, atraiu a atenção de Mário de Andrade, um dos líderes do movimento modernista brasileiro da década de 20, a ponto de o paulista fazer longa parada por aqui (um mês e meio), no ano de 1929, para conhecer e se deliciar com o modo de vida e a produção cultural popular da cidade e do Estado.

O cinema, a arte que nasceu com a modernidade, surgiu no Brasil em apresentações no ano de 1896, na cidade do Rio de Janeiro, e dois anos depois, no dia 16 de abril, a novidade já era apresentada a Natal por Nicolau Maria Parente, em um depósito de açúcar situado à Rua do Comércio, no Bairro da Ribeira. A exibição do cinematógrafo causou tanto espanto à assistência, que versos jocosos foram publicados no jornal A República, de 19 de abril de 1898, pelo leitor alcunhado Lulu Capeta:

“O cinematógrafo
Dessa bela novidade
Fui à primeira função
E saí pensando mesmo
Ser aquilo arte do cão.” [1]

Outra área que projetou Natal como cidade pioneira foi a educação. As ações inovadoras que Henrique Castriciano implementou entre os jovens das classes abastadas de Natal, no início do século XX, como a prática do escotismo e a educação sistematizada das meninas, embora permeadas pela perigosa teoria da eugenia que grassava naquele período, renderam bons frutos.

Ainda na seara da educação, também foram dignas de admiração e orgulho as ações progressistas do prefeito Djalma Maranhão, em 1961. Para aplacar “o sofrimento do ser humano que seu nome não sabe escrever”, como diziam os versos da singela canção executada com violão e flauta e que fazia as vezes de jingle, foi levado à prática, no bairro das “Rocas de cima”, o programa de educação “De pé no chão também se aprende ler”. O acampamento escolar – salas de aulas, biblioteca, recinto para as práticas dos folguedos populares, hortas etc. – era feito de madeira, coberto de palha, assentado sobre a areia e aberto à brisa generosa da cidade, mas cumpria muito bem a função de receber alunos, pais e professores para que a troca de saberes fosse feita amplamente. O golpe civil-militar de 1964 não só interrompeu o programa de educação como prendeu e exilou o prefeito inovador, que morreu do mal dos expatriados, o banzo.

Ao que parece, a modernidade autoritária dos governos ditatoriais das décadas de 1960/70/80 e a geração de agentes públicos conservadores e pouco brilhantes que dali surgiu sufocaram a vocação da cidade para as descobertas e as inovações. Desde lá, Natal não apresenta ou acolhe mais ações que façam jus à sua história de vanguardista.

Seria interessante que os jovens, os artistas, os educadores, os políticos e os pensadores da cidade ficassem atentos às pautas que emergem neste século XXI para fazer a cidade voltar a exercer a sua inclinação para as ações progressistas. O uso parcimonioso e inteligente dos recursos naturais, a fragmentação das identidades que levam à trinca das estruturas fossilizadas, como o patriarcalismo e o pensamento religioso hegemônico; a produção artística e intelectual sendo democratizada e usada nas ações de educação básica, a gestão compartilhada dos bens e espaços públicos são ações já praticadas entre nós, que ampliadas, podem nos levar de volta ao futuro.

[1] FERNANDES, 2007, P. 27

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