DEMOCRACIA

Déjà vu: Fábio Dantas repete Robinson e diz que vice não tem poder de decisão

Fábio Dantas é pré-candidato ao Governo pelo PSB

Fábio Dantas e Robinson Faria são personagens diferentes interpretando o mesmo roteiro. No papel de vice, os dois optaram por não assumir a responsabilidade do cargo quando as pretensões eleitorais aumentaram de tamanho. Recém-rompido com o Governo pelo qual trabalhou com afinco até o mês passado, Fábio Dantas transformou sua filiação ao PSB num palanque eleitoral repetindo o mesmo discurso de Robinson Faria, quando o então vice-governador rompeu com o governo Rosalba. “Vice não governa” foi o recado dado por Faria em 2012 e repetido agora, seis anos depois, pelo ex-aliado.

Fábio Dantas confirmou a pré-candidatura à sucessão de Robinson nas eleições de outubro e terá pouco mais de seis meses para provar aos eleitores que governador e vice são iguais apenas no discurso de rompimento. A tarefa não será fácil. Dantas foi o principal articulador do governo Robinson junto à Assembleia Legislativa durante os primeiros 38 meses do mandato. Foi dele a missão de convencer os deputados estaduais a aprovar os projetos mais impopulares da atual gestão, a exemplo do reajuste de impostos em 2016 e o fracassado ajuste fiscal em 2018.

A viabilidade eleitoral do mais novo filiado ao PSB também será um desafio. Na mais recente pesquisa de intenção de voto, divulgada em 9 de março pelo Instituto Consult, Fábio Dantas apareceu com apenas 1,76% da preferência dos eleitores, bem distante da senadora Fátima Bezerra (PT), que lidera a corrida, segundo dados da mesma pesquisa, com 27,12%.

 

Renovação

O evento de filiação de Fábio Dantas ao PSB contou com aproximadamente mil pessoas e mais de 30 prefeitos do interior do Estado. Enquanto o locutor da cerimônia destacava emocionado que ali estava sendo formado o palanque “da mudança e da renovação”, o público olhava para o palco e via o deputado federal Rogério Marinho (PSDB), o presidente da Assembleia Legislativa Ezequiel Ferreira de Souza (PSDB), o deputado estadual Ricardo Motta (PSB) e a vereadora Sandra Rosado (PSB) ao lado de deputados mais novos com sobrenomes conhecidos, a exemplo de Rafael Motta (PSB), Larissa Rosado (PSB), George Soares (PR) e Gustavo Fernandes (MDB), filhos de políticos tradicionais do Estado.

As presenças e os discursos de apoio do deputado federal Rogério Marinho e do presidente da AL Ezequiel Ferreira de Souza reforçaram as informações de bastidores de que a chegada de Fábio Dantas ao PSB foi costurada pelos tucanos. O prestígio de vários deputados estaduais também mostrou a força de articulação do vice-governador na Assembleia Legislativa. Cotada para indicar o vice na chapa, a prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini (PP) não compareceu.

Além das pratas da casa, a filiação de Dantas foi abonada por nomes nacionais do PSB. O presidente nacional do Partido Carlos Siqueira e ex-governador do Espírito Santo Renato Casagrande prestigiaram o evento. Além deles, enviaram vídeos de apoio os deputados federais Alessandro Mollon, Aldo Rebelo e o vice-governador de São Paulo Márcio França. O atual governador da Paraíba Ricardo Coutinho foi uma ausência sentida.

 

Discurso

A cerimônia de filiação foi conduzida pelo deputado federal e presidente estadual do PSB Rafael Motta e mostrou que, em tempos de eleição, o apoio das prefeituras do interior terá peso ouro. Na mesa formada com autoridades da política, tanto o presidente da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (Femurn) Benes Leocádio, como o presidente das Câmaras Municipais do RN (Fecam) Raniere Barbosa discursaram para uma plateia formada pela militância do PSB e por cabos eleitorais do interior. Rogério Marinho, Ezequiel Ferreira, Carlos Siqueira e Renato Casagrande também falaram.

O aguardado discurso de Fábio Dantas foi preparado estrategicamente para o momento e marcou oficialmente o rompimento político com Robinson Faria. Num dos trechos, o vice-governador dá a entender que não foi ouvido pelo chefe do Executivo:

– Tenho plena consciência dos caminhos que propus, das soluções que tentei aportar, da vontade que carreguei pensando em mudar o rumo de muita coisa. Mas, a pouca força do cargo e a impossibilidade constitucional de decidir, de tomar decisões, me impediram de concretizar os meus sonhos de um outro Rio Grande do Norte. Não é demais dizer o óbvio: todos sabem perfeitamente das limitações de um vice, em qualquer nível de poder. Seja vice-presidente da República, ou vice-prefeito, ou vice-governador. Um vice não governa em parte alguma. O máximo até aonde pode chegar é a um palpite. O que obviamente, pode ou não ser aceito. Esse tem sido o meu reduzido chão, em pouco mais de três anos, como Vice-Governador do Rio Grande do Norte.

Dantas fez duras críticas à gestão de Robinson Faria. Segundo ele, “diferentemente do atual governo, qualquer cidadão é capaz de identificar os maiores problemas que nos afligem nos dias de hoje”. O vice-governador elegeu o desequilíbrio da contas públicas como “a mãe do elenco de desarranjos vividos atualmente”. E atacou o imobilismo da atual gestão.

– O RN infelizmente não promoveu, nos últimos três anos, qualquer mudança estrutural na sua política econômico-financeira com capacidade de evitar as dificuldades de hoje. A inércia só fez e faz agravar o quadro.

 Outro detalhe que chama a atenção no discurso é que Fábio Dantas esperou mais de três anos para dizer publicamente que não concorda com a forma como o Estado vem sendo administrado. Isso porque até fevereiro deste ano ele foi o interlocutor da atual gestão na Assembleia Legislativa.

 Não compactuo com a maneira que o Estado vem sendo administrado e isso ficou publicamente demonstrado durante meu mandato. Creio que ter a gestão fiscal sob controle deve ser o foco de qualquer governo. O gestor público que não tiver condições de compreender a importância do equilíbrio fiscal, da organização financeira do Estado, pressuposto para uma administração consequente e responsável, revela inimaginável insensibilidade – e por que não dizer, irresponsabilidade – diante da situação que a administração pública atravessa em nosso país, com terríveis reflexos na qualidade de vida do funcionalismo e da população em geral.

Estados vizinhos como Paraíba, Pernambuco e Ceará foram usados como exemplo de administração pelo vice-governador. Segundo ele, os três estados “fizeram o dever de casas e hoje entregam muito mais à população”.

Não foi no primeiro discurso como pré-candidato que Fábio Dantas explicou como fará para reequilibrar as contas do Estado. Mas a exemplo de Robinson Faria, que adotou a “ousadia” como marca retórica de seus discursos, o vice-governador deu a pista de que a “coragem” está presente na oratória da campanha.

Homenagens à figuras históricas do PSB também não faltaram. Do fundador do Partido, o baiano João Mangabeira, passando pelos pernambucanos Miguel Arraes e Eduardo Campos, até a ex-governadora Wilma de Faria, todos foram saudados pelo mais novo filiado ao Partido Socialista Brasileiro.

Filho do ex-deputado e atual prefeito de São José de Mipibu Arlindo Dantas, que já está no quarto mandato eletivo no município, Fábio Dantas foi deputado estadual de 2011 a 2014, antes de aceitar o desafio de ser candidato à vice-governador pelo PC do B, na chapa de Robinson Faria. A eleição para o Executivo, porém, não o afastou do legislativo. A cadeira na Assembleia Legislativa foi mantida na família com a eleição da esposa Cristiane Dantas, candidata à reeleição em outubro. Habilidoso nos bastidores, Fábio negocia o apoio de pelo menos 14 deputados, que esperam, em troca, garantir a reeleição.

O desafio do vice-governador é conseguir viabilizar uma candidatura ainda vista com desconfiança. A primeira briga é contra o relógio. Até o dia 7 de abril, Fábio Dantas vira expectador. Robinson Faria e o prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves terão três semanas para definir seus destinos. O melhor cenário para o vice-governador seria a renúncia de Robinson e a desistência de Alves. Mas o governador já garantiu que vai disputar a reeleição e Carlos Eduardo começa a sinalizar que vai descumprir a promessa que fez ao povo de Natal de que concluiria o mandato de prefeito.

 

“Não tem vaga no TCE, vou para a eleição”, diz Fábio Dantas

 

Já filiado ao PSB, o vice-governador Fábio Dantas conversou com a Agência Saiba Mais sobre o próximos passos para viabilizar a candidatura. Além de pré-candidato ao Governo, ele chega com a missão de acalmar os ânimos entre os grupos da vereadora Sandra Rosado e do deputado Ricardo Motta. Fábio Dantas também nega que esteja usando a pré-candidatura para conseguir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado, como vem sendo especulado. A seguir, a entrevista:

 

Agência Saiba Mais: O locutor do evento chegou a dizer que o palanque formado aqui representava a renovação e a mudança. Você se considera o “novo” na política ?

Fábio Dantas: Eu quero andar o Rio Grande do Norte, quero que as pessoas me ouçam, quero apresentar o que eu penso para o Estado e, a partir daí, deixo as pessoas avaliarem se eu sou o novo. Dos pré-candidatos que existem eu sou o mais novo porque só tive um mandato de deputado estadual.

 

Você repete, de certa forma, o discurso usado pelo governador Robinson Faria quando rompeu com o governo Rosalba em 2011: de que o vice não tem poder de decisão. Porém, você teve participação importante na atual gestão, sendo o principal articulador do pacote de ajuste fiscal do Governo junto aos deputados estaduais. Até onde vai o papel do vice?

 O vice é eleito para substituir o governador. O papel como cidadão foi o que eu sempre exerci. Exerci como deputado estadual, exerci não tendo mandato e exerci agora na vice-governadoria. Existem alunos que são aprovados e têm o mesmo ensinamento que é dado ao outro, e nem todos são aprovados. Então o ensinamento que a vida me deu é o que eu tenho para lutar e trabalhar.

 

A vereadora Sandra Rosado me disse que espera que o senhor seja um ponto de equilíbrio dentro do PSB, já que ela reclama muito do tratamento que vêm recebendo no Partido tanto do deputado federal Rafael Motta como do deputado estadual Ricardo Motta. O senhor chega com essa responsabilidade também?

 A minha missão não só no Partido, como no Rio Grande do Norte, é unir o Estado em prol de todos nós. Não podemos dividir o Estado em ricos e pobres, em partidos políticos. Temos que unir as pessoas, não só partidos políticos. E Sandra é uma militante do PSB, é vereadora e foi uma deputada federal que tem um conhecimento enorme. Ela é fundamental para que tenhamos diferentes ideologias e pensamentos dentro do Partido. A discussão partidária é sempre muito salutar e acho que o debate também deve estar dentro do partido. Uns divergem, outros não e a gente termina encontrando um equilíbrio, ou não.

 

O que muda do Fábio Dantas comunista para o Fábio Dantas socialista ?

 Todos os dois são socialistas e querem o bem comum (risos).

 

Mas o que muda na prática ?

 Olha, eu vim para um Partido que me acolheu muito bem, assim como o PC do B. A única diferença nessa eleição agora foi a questão do partido (PC do B) priorizar as eleições de deputados federais, mas só construí amigos no PC do B. E o mesmo pensamento é tentar construir a mesma coisa no PSB.

 

Sua plataforma de pré-campanha será focada no ajuste fiscal da economia do Estado ?

 O principal é dialogar com a sociedade para encontrarmos os caminhos que serão necessários para construir um Rio Grande do Norte em que possamos atender e dar as soluções que a população quer. Fazer promessa é muito bonito em campanha, não quero fazer promessa. Quero encontrar as soluções junto com a sociedade, debatendo com ela. E a pré-campanha será muito importante por isso. E lhe digo uma coisa: na minha gestão pode faltar algo que não tem no Rio Grande do Norte, mas se tiver a coragem vai buscar.

 

Nos bastidores se falou bastante que sua chegada ao PSB passou por uma articulação do PSDB, através do presidente da Assembleia Legislativa Ezequiel Ferreira de Souza, e do deputado federal Rogério Marinho.

Na verdade o convite foi da direção nacional, foi do presidente estadual Rafael Motta… e eu só tenho amigos no PSDB, assim como em toda Assembleia Legislativa. As pessoas às vezes interpretam amizade com construção política e eu respeito a posição de todos. Apenas eu vou buscar as alianças até o dia principal, que é o dia 7 de outubro.

 

Você já deixou claro em outras entrevistas que um de seus sonhos é assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Há especulações também de que sua candidatura é uma forma de pleitear essa vaga. Existe essa possibilidade ?

 Isso está fora de cogitação, só tem vaga no TCE daqui a sete anos. Isso aí (as especulações) é quando algumas pessoas querem desmerecer as outras. Não tem vaga no TCE e não se discute aquilo que não existe. Vou para a eleição.

 

Nós apuramos que por trás da sua candidatura estaria também o apoio para a reeleição de 14 deputados estaduais. Você tem um ótimo trânsito na Assembleia Legislativa. Como estão essas articulações ?

Olha, deixa eu falar uma coisa: dos pré-candidatos que estão postos aí, o atual governador foi deputado, a senadora Fátima foi deputada, o Carlos Eduardo foi deputado… o mesmo trânsito que eles têm eu também tenho. Por que eu construí mais ? Deve ser porque eu tenho alguma coisa que não seja a política pejorativa. Eu construí amigos na Assembleia Legislativa, talvez seja isso que falte aos outros pré-candidatos. Mas uma coisa é importante ressaltar: não existe essa articulação, existe espontaneamente pessoas que pensam igual a mim. Foi assim todo o tempo em que eu passei na Assembleia Legislativa. Desde o primeiro dia eu já entrei disputado.

 

De abril até outubro são seis meses. Dá tempo ainda de chegar na senadora Fátima Bezerra, que lidera todas as pesquisas de opinião até agora ?

 A senadora Fátima é uma pré-candidata, assim como eu. Quem vai dizer isso é a sociedade. Se o discurso de Fábio, se o discurso de Fátima… agora assim, eu acho que a senadora precisa voltar um pouco para o Rio Grande do Norte. Porque enquanto ela ficar discutindo golpe, os problemas do Brasil, eu vou discutir o Rio Grande do Norte, os nossos problemas e as nossas soluções.

 

A chapa está fechada ?  

 Ainda não, nem para governador está fechada.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"