OPINIÃO

Delinquentes digitais

Com o advento das redes sociais digitais vivenciamos uma era do encurtamento da distância e da diminuição do respeito. A palavra respeito(respectare) significa “olhar para trás”. Significa um olhar com distância. Na sociedade atual perdemos este ethos civilizatório e  a parcimônia da distância foi substituída pelo espetáculo(spectare), que significa  voyeurismo de um olhar desprovido de alteridades. Relembra-nos Byung-Chul Han que “uma sociedade sem respeito, sem o pathos da distância, desemboca numa sociedade do escândalo.” Ora, se tudo vira espetáculo e escândalo, isso significa que o excesso de midiatização tem comprometido a necessidade fundamental de distinção entre o privado e o público.

O excesso de exposição da intimidade, portanto, nos leva a uma sociedade pornográfica. Inverte tudo aquilo que deveria ser da ordem do privado para o público. No território digital, a liberação da palavra, muitas vezes, vem desprovida desta distinção. E por isso, assistimos a uma intensa indiscrição de hábitos e injúrias. Xingamentos e linchamentos digitais são práticas comuns, especialmente no Facebook.

Uma prática comum é quando alguém se sente no direito de fazer acertos de contas de suas frustrações ou mascarar mediocridades na sua timeline. Ou, ainda, quando faz circular mensagens, imagens e áudios mentirosos em grupos de whatsaap como objetos de vingança, ódio e ressentimento. Como delinquente digital aponta suas armas para qualquer um e em qualquer ocasião. Não interessa o motivo nem as pessoas a serem atingidas.  Suas shitstorms (literalmente tempestades de merda) digitais aniquilam reputações e comprometem o respeito, que é sempre ligado ao nome. As injúrias midiáticas advindas das shitstorms precisam ser abolidas e punidas.

Quando se perde o respeito elas abundam, configuram comportamentos de manadas e as pessoas têm seus nomes maculados pela covardia do anonimato digital.  Outro comportamento que compromete a dimensão do respeito, destacadamente no Facebook e Instagram, é aquele no qual representa mudanças de status afetivos. A velocidade em que pessoas ligam/desligam-se e fazem questão de mostrar nas redes demonstram a tensão civilizatória entre as dimensões íntima e pública. O que vale anunciar é o meu fluxo de desejo e vibe do momento. O outro vira objeto líquido e fluido. Desfazer-se dos relacionamentos- amorosos e de amizades- é inversamente proporcional em criá-los para a duração. O que interessa é a sensação continuada e quando não há correspondência instantânea, o outro torna-se descarte. A fila anda como se costuma afirmar.

Praticamos altericídeos na medida em que o outro só é importante como satisfação particular. Matar simbolicamente é tudo uma questão de sensação e momento. Dominique Quessada sublinha que o altericídeo generalizado, que participamos e ou assistimos, que saibamos ou que queiramos ou não, liga-se a “um sistema de discurso mundializado ou a um império de discurso: o da comunicação.” Trata-se, portanto, de uma crise sem precedentes do paradigma da separabilidade do outro. Achamos que a internet potencializa tal crise. Agora nos juntamos pela conexão e interação de fluxos, geradores de comunidades diversas. Tais comunidades, embora diversas, apresentam modulações contraditórias. Ao mesmo tempo que parecem ser criadas para não fixarem pertencimentos, elas também se fecham em si mesma.

O Facebook é um exemplo de tais modulações, pois posso criar e ou pertencer a várias: desde uma lista de amigos, uma rede de pesquisadores, uma lista de pais de alunos, de familiares etc. Cutucamos perfis de amigos, curtimos fotos, compartilhamos postagens e formamos associações como esferas diádicas (Sloterdijk), isto é, pares de indivíduos conectados e, ao mesmo tempo, particularizados em seus ambientes virtuais.

O excesso de individualização nos leva a praticar ações isentas de avaliação ética, portanto, sem responsabilizações a priori sobre o espaço do outro.  É preciso que recuperemos a ideia de respeito como reserva moral nas mídias digitais.  Só assim o Homo digitalis poderá exercitar uma auto-ética sob a égide de leis protetoras da honra alheia. Injúrias e mentiras no Facebook devem ser julgadas pelos tribunais e, por vezes, podem acabar na cadeia. Os delinquentes digitais estão à solta. Justiça neles!

 

Leia outros textos de Alex Galeno:

PTfobia e Lulofobia

Não me acostumo

Artigo anteriorPróximo artigo
Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *