DEMOCRACIA

Maior fenômeno eleitoral de Natal, ex-vereadora Amanda Gurgel fala sobre a vida e novos planos

Numa época em que a política é tão disputada e discutida, muita gente se pergunta por onde anda Amanda Gurgel. A professora da rede pública de ensino teve em Natal (RN), a maior votação de todas as capitais brasileiras para o legislativo municipal no ano de 2012 com 32.819 votos. Na época, ela ficou conhecida depois de um depoimento comovente durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa no qual denunciou as péssimas condições dos professores em sala de aula, questionou a Secretária de Educação e os parlamentares presentes se teriam condições de manter o padrão de vida que sustentavam com o salário de R$ 930 pago aos professores e criticou a falta de prioridade nas políticas públicas para o setor da educação. O depoimento catapultou a carreira política de Amanda que chegou até a participar do programa Domingão do Faustão. Ela explicou que o discurso não foi planejado e que se inscreveu para falar durante a audiência como qualquer outro cidadão e que jamais imaginou que fosse se tornar um fenômeno eleitoral.

Depois do estouro nas urnas em 2012, Amanda voltou a se candidatar em 2016. Mas, apesar de ter tido a segunda maior votação entre os candidatos com 8.002 votos, ficou de fora do legislativo natalense.

Não consegui entrar por causa da cláusula de barreira que dizia que uma legenda, partido ou coligação, tinha que ter um número mínimo de votos, mas não fui eleita porque o PSTU não fez coligação e demais candidatos não conseguiram atingir os 13 mil votos necessários na época. Sem a cláusula, teria entrado eu, Sandro Pimentel e Maurício Gurgel. Mas é isso, a legislação não é pra ser justa, raramente ela beneficia a esquerda”, explica Amanda.

Desde 2017 Amanda Gurgel está na cidade de Sapucaia do Sul, Rio Grande do Sul, onde cursa mestrado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de ter se mudado para acompanhar o marido que conseguiu uma promoção profissional, Amanda aproveitou a mudança para investir na vida acadêmica. Para isso, pediu exoneração do emprego que tinha na Prefeitura Municipal de Natal e afastamento não remunerado do cargo de professora do Estado, do qual também vai solicitar exoneração ainda este mês, quando o prazo do afastamento se vence.

De Sapucaia do Sul, ela falou com a equipe da Agência Saiba Mais sobre os planos pessoais, profissionais, as mudanças pelas quais passou nos últimos anos e como ela avalia a política institucional, depois de ter passado por dentro do sistema.

Confira a entrevista!

Foto: cedida I Amanda Gurgel com o marido durante período de quarentena em Sapucaia do Sul

Agência Saiba Mais – Por onde você anda?

Amanda Gurgel: Estou morando em Sapucaia do Sul, no Rio Grande do Sul. Aproveitei a mudança para investir na minha vida acadêmica, que foi algo com que sempre me preocupei. Estudo políticas e gestão de processos educacionais na UFRGS, meu objeto de pesquisa é a gestão democrática da escola pública. Esse, aliás, foi um dos debates que travamos na Câmara porque a Prefeitura queria incluir mais um tipo de funcionário terceirizado nas escolas, o auxiliar financeiro que era uma espécie de tesoureiro. Nós defendemos o concurso público, mas a Prefeitura de Natal não acatou e hoje, inclusive, está na ilegalidade. A lei 147/2015 determina que seja realizado concurso público para esse cargo e a Prefeitura não realizou.

Por que decidiu fazer o mestrado fora, e não em Natal?

Quando saí da Câmara Municipal voltei a trabalhar normalmente em três escolas ao mesmo tempo. Na Escola Municipal Iapissara Aguiar de Souza, no bairro Potengi, Zona Norte de Natal, e em outras duas escolas estaduais. Tinha 324 alunos nesse período com turmas do 6º ao 9º ano. Admiro muito quem consegue, mas em Natal seria difícil pra mim trabalhar 50h, ter turmas com quase 350 alunos e ainda conseguir estudar ao mesmo tempo. Então, aproveitei essa mudança provocada pelo trabalho do meu marido para investir na vida acadêmica.

Como foi seu retorno para a sala de aula depois do período na política?

Alguns alunos eram pré-adolescentes (6° e 7° anos) e esses eram bem desligados. Nem sabiam de nada sobre mim. Os adolescentes do 8º e 9º anos já eram mais antenados, mas não ficavam falando muito sobre isso… só algumas meninas que gostavam de conversar sobre machismo, mas nada muito intenso. De vez em quando eles diziam que eu era rica porque era uma celebridade! Mas era tiração de onda, eles sabiam que eu nem era rica, nem era celebridade.

Que avaliação faz da política depois de passar por dentro do sistema? Voltaria a se candidatar?

Acho difícil voltar a me candidatar. O vereador não pode muita coisa, você faz um esforço gigantesco para aprovar projeto ou emenda, mas quando chega lá na frente o prefeito não executa. A lei 147/2015 que trata da questão do concurso para o que seria o tesoureiro da escola é um exemplo, já são cinco anos e a prefeitura não implantou. Dá a sensação de impotência para o mandato, isso me deixa até hoje em crise. Outra coisa que me deixava mal era que, como vereadora, recebia em um mês o que a escola recebia em um ano para funcionar. Pensava que fazia tanto, mas isso não chegava à escola. Valeria mais se aquela estrutura da Câmara não existisse e o dinheiro gasto para mantê-la fosse direto para a escola. Isso me incomodava muito. Mantive o mesmo padrão de vida e nunca recebi o valor integral. Nunca nem usei o cartão da conta onde ele caía e nem tinha a senha. Durante o período como vereadora continuei recebendo o meu salário de professora. A diferença ficava para o partido e administrávamos coletivamente, apoiando movimentos sociais e estruturando o partido. Na verdade, quando eu voltei para a escola, o meu salário estava uns 400 reais maior, porque como a equipe não recebia reajuste, optei por também não reajustar só o meu. Eu teria vergonha de fazer isso.

Continuo fazendo política, mas não institucional. Participei de todas as manifestações contra os cortes e intervenções que têm sido feitas pelo Governo Federal, inclusive da UFRGS. Pra se candidatar é preciso ter uma estrutura muito grande, com pessoas em quem você confie. Minha militância era muito partidária, agora continuo militando, mas de uma forma independente.

Foto: cedida I Amanda em uma manifestação contra os cortes promovidos pelo governo Bolsonaro na educação
Sentiu alguma diferença ao se mudar do Rio Grande do Norte para o Rio Grande do Sul?

Muitas! Tanto pelo lado bom, quanto pelo lado ruim. Aqui as pessoas reclamam do transporte público e elas têm todo o direito de reclamar porque nunca é como de fato deveria, mas brinco com meu esposo que se tivéssemos esse transporte em Natal, teria economizado dez anos de velhice, cansaço e doença. Teria rejuvenescido uns dez anos! Aqui temos um trem que interliga toda a grande Porto Alegre e, para cruzarmos de um lado para outro da região metropolitana, não gastamos mais do que uma hora. Em Natal já existe a estrutura de um trem, mas que é sucateado e subaproveitado. Sempre digo que o Seturn (Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos) é o prefeito de Natal. Não importa quem seja eleito, é esse grupo de empresários que manda no transporte da capital. Isso só vai mudar quando elegerem um prefeito que tenha coragem pra enfrentar essa briga. Se não fosse o Seturn, o trem funcionaria.

Também contamos com um agente de saúde que vem deixar a receita na minha casa, porque a saúde aqui funciona. Não é perfeito, também há especialidades no SUS que você não tem acesso, mas há um serviço público que lhe atende. Até a pobreza é diferente, porque até as pessoas mais humildes têm uma certa dignidade, não são humilhadas como vemos aí. Não quero parecer aquele tipo de nordestina deslumbrada com o sul do país, definitivamente eu não sou! Acho que essa diferença se dá, justamente, pelo descaso dos governantes com as políticas públicas. A gigantesca diferença entre o RN e o RS está na condição de vida das pessoas em função da melhor qualidade dos serviços públicos que são prestados.

A parte difícil é a cultural. Você se sente diferente e percebe que as pessoas te olham diferente. Nunca fui discriminada, mas percebo que existe um olhar diferenciado, como se fôssemos o exótico. O sotaque que é engraçado, cantado. O fato do nosso sotaque não estar na grande mídia é uma exotização, quando ele é retratado nas novelas, por exemplo, aparece na fala de um porteiro, uma empregada. Não que não sejam profissões dignas, mas parece que no nordeste só existe esse tipo de atividade. Há uma associação com empregos de baixa escolaridade e remuneração, o que contribui para que haja um preconceito com todos nós.

 Planeja voltar a Natal?

Tenho muitas saudades de Natal! Lembro dos lugares, das pessoas e, de certa forma, essa entrevista foi uma forma de voltar a dialogar que essa cidade que amo. Mas, da mesma forma que tenho orgulho da trajetória que construí aí, quero ter orgulho da trajetória que tenho construído onde estou. Estou tentando me estruturar, fazendo concursos. Do mestrado quero ir direto para o Doutorado. Gostaria de fazer concurso para professor dos IF’s e universidades federais e, hoje, o mínimo que você precisa ter é um doutorado. Quero investir na vida acadêmica e não sei se volto.

Foto: cedida

 

 

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