OPINIÃO

Depois de você, o dilúvio

Gente de verde e amarelo, camisas da seleção brasileira, bandeiras, alguns rostos pintados. 2018. Parecia Copa do Mundo. Era o segundo turno das eleições presidenciais. Se fosse futebol, naquela noite, nosso grupo de amigos estava em clima de 7×1. Buscávamos um cachorro-quente ordinário de valor irrisório, que depois nos soou como o gol do Oscar: um resquício de alegria, de valor irrisório.

Mesa de plástico amarelo, ventilação natural de esquina de farmácia 24 horas. Tudo muito agradável, porém não restavam dúvidas: Estávamos em território hostil. Nossas caras de desalento denunciavam o golpe sofrido. Logo, apareceu o primeiro incomodado. Um rapaz bufão como seu presidente eleito dava voltas ao redor da mesa, enquanto resmungava palavras incompreensíveis. Vestia uma camisa falsificada da seleção brasileira e trajava uma revolta típica de quem se sente injustiçado.

Como não podia nos surrar ou mesmo nos matar (pelo menos não assim, tão explicitamente, embora expressasse liberdade para tal), resolve ir embora. Junta-se aos seus e sai cantando pneu, sacudindo uma bandeira e gritando o nome que o move em suas grosserias:

Éeeee Bolsonaro! Melhor Jair…

Não lembro de sentir tanto ódio direcionado a mim em qualquer outro momento da vida. Definitivamente, o democrático universo dos sebosões não merece o público que recebeu naquele dia. O Brasil grosseiro, bufão, violento, pateticamente patriota, empoderou-se. Tive receio de reconhecer isso nos últimos anos, sob pena de ser injusta ou alarmista, porém já não há como disfarçar as evidências.

O ódio agrega tanto quanto as paixões. Embora não se assuma tão facilmente, amenizamos as desgraças. Gente ruim vira pessoa tóxica; cretino, gente difícil. Pandemia, gripezinha. Chega de temer as palavras. Assumamos!

Eu sou comunista, sua mãe, sua avó também são. O Papa? Comunistaço. Fomos pegos! Você, cidadão de bem, foi enganado esse tempo todo, mas agora desfruta do delicioso sabor da vitória. Aprecie-o ao som de Eduardo Costa e MC Reaça. E se sentir medo de comunista, ore. Mas não baixinho, que assim não funciona. Faça um escândalo, grite, chore, esperneie. Contra tudo e contra todos.

Acima de todos, você. E depois de você? O Dilúvio?

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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