OPINIÃO

Desalento no meio campo da política

Menos de um mês para o início da copa do mundo da Rússia e a palavra do momento é “desalento”. Sem bandeirolas nos postes, sem muros pintados e com raríssimos torcedores desfilando pelas ruas vestindo a camisa da CBF a festa da copa parece que vai no ritmo da tal “recuperação econômica” e segue devagar quase parando.

Muita gente aposta que esse desalento tem razões essencialmente futebolísticas. Afinal, após a catástrofe do 7 a 1, o torcedor, ferido mortalmente em seu narcisismo esportivo, ficou cabreiro de apostar no sucesso da Seleção preferindo manter um distanciamento desconfiado.

Além disso, todo mundo que acompanha futebol sabe que a verdadeira paixão do torcedor sempre foi o clube. É o clube que caminha sempre ao nosso lado. Quando estamos mal, o clube cai junto com a gente na tabela do campeonato, em um ato de comovente solidariedade transcendental. Quando tudo parece perdido, no solo pantanoso do desalento econômico, da depressão financeira, da precarização do trabalho, o clube nos ressuscita, vencendo aquele clássico decisivo, ou nos dando esperanças de um acesso às séries superiores.

Desse jeito fica fácil explicar que uma seleção preenchida por jogadores que atuam em campeonatos europeus, defendendo clubes que lotam estádios distantes e decoram arenas televisivas, nas quais o brasileiro comum sabe que nunca pisará, não crie empatia com um torcedor maltratado por quatro anos de uma crise que parece não ter fim.

Mas o problema é que, no Brasil, o futebol nunca é só futebol.

Se você parar para pensar vai ter de admitir que o futebol é o elemento discursivo que mantém a ilusão de unidade em um país cindido por extremos sociais e ornamentado com muros, grades e cercas elétricas.

No Brasil, o único assunto que o porteiro do prédio tem em comum com o juiz que mora na cobertura é o futebol. A única temática que transpassa o abismo de classe e cria uma sensação de isonomia é a paixão pelas cores de seu clube preferido.

Na hora do jogo, o pedreiro e o empresário da construção civil, a patroa e a empregada doméstica, o estudante da escola pública e o da escola privada, o ateu liberal e o cristão fundamentalista, a feminista militante e o bolsomínio misógino, cada um com sua obsessão particular, veste a camisa do seu time e se une ao seu oposto complementar, mesmo que momentaneamente, movido pela inexorável sedução ideológica da bola.

Por isso é que parece realmente muito sintomático que esse desalento (para usar a palavra da moda) seja o sentimento da estação, às vésperas da copa do mundo.

Enquanto o consórcio que apeou o PT do poder se desespera em busca de um candidato de “centro” que possa manter a agenda de austericídio econômico imposta pelos tecnocratas ortodoxos do sistema financeiro, o futebol enfraquece sua ideologia de consenso em um país que vê o abismo social voltar a crescer, afastando mais ainda classes já tradicionalmente cindidas e trazendo, com força, a miséria de volta as esquinas do cotidiano.

Hoje o desalento está no centro, enquanto o único centro viável nos últimos anos, que conseguiu um suspiro de consenso social em meio a ferocidade de nossas desigualdades, está preso em Curitiba.

Por isso há uma forte tendência dessa eleição caminhar para os extremos com Bolsonaro subindo com a bola pela ponta direita e algum candidato bem mais a esquerda do que o lulinha paz e amor de 2002, atuando na lateral oposta.

Chego a suspeitar que só um surpreendente e espetacular desempenho da Seleção nessa copa poderia anestesiar o brasileiro de suas misérias e oferecer, no cardápio do grande pagode eleitoral que se anuncia, esse tal “centro” que os analistas políticos caçam como se fosse a última coca cola no deserto da política nacional (o que de certa forma é uma ilusão, porque, como todo mundo sabe, coca cola não mata a sede de ninguém e candidato de centro não ganha eleição em tempo de polarização e radicalismo).

Com um Ciro Gomes apresentando uma proposta econômica bem mais esquerdista do que a de Lula de 2002 e até a de Dilma de 2010; com uma Marina errante, titubeando em zigue zague entre esquerda e direita sem conseguir firmar seu próprio eixo; com um Alkimin atolado em denúncias de corrupção, um Henrique Meirelles desnutrido, sem nenhuma expressividade eleitoral e um Flávio Rocha que segue matando de vergonha até a militância mais sem noção do MBL, resta ao consórcio financeiro apostar na Seleção.

Se o campeonato for jogado no campo da democracia e o juiz não interferir no resultado da partida, como já anda fazendo, tudo indica que apenas Tite é capaz salvar os patos da FIESP do seu 7 a 1 particular.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.