OPINIÃO

Desculpas não são suficientes

Eu nem queria, meu caro leitor e minha cara leitora, entrar nesse assunto, mas as circunstâncias obrigam e lá vamos nós conversar sobre o episódio do aniversário da ricaça na Bahia.

Tem tanta coisa errada e para discutir nessa história que fica difícil até escolher por onde começar. Mas vamos começar pelo “fim”: Donata Meirelles, diretora de estilo da Vogue Brasil, pediu – ou foi pedida, não se sabe – demissão do cargo que ocupava na prestigiada revista de moda. Mas quem danado é Donata, não é mesmo?

Ela é a mulher branca que entrou na mira da internet após sua festa de aniversário de 50 anos, no começo do mês. Recheada de famosos, ao som de Caetano Veloso, a aniversariante recebeu seus convidados com mulheres negras vestidas com o traje de “baiana” e uma cadeira branca, comumente associada ao candomblé, mas que, pelo contexto, naturalmente virou uma “cadeira de sinhazinha”. Resultado? Fotos e mais fotos dos belos rostos de modelos, empresários, em suma gente branca e rica, sentada na cadeira e ladeada pelas mulheres negras (Para quem não viu ainda as imagens, é só dar um google).

E como em dias de hoje a internet não perdoa – em um caso como esse não deve mesmo -, a “inocente” festa de Donata tocou fogo nas redes sociais. Ao ponto de até mesmo a “isentona-mor da nação” Ivete Sangalo ensaiar uma pequena lição de moral na dona da festa no dia seguinte, ao lado da silente Preta Gil, que depois foi a público servir de protetora da amiga Donata.

Ao fim, como sempre é, a socialite deu sua justificativa, disse que iria ouvir mais e pediu perdão e desculpas, sem citar a palavra “racismo” uma vez. A Vogue, antes da demissão, em um episódio da famosa série “Mais do Mesmo” ainda prometeu “ampliar as vozes dentro da equipe e criar, em caráter permanente, um fórum formado por ativistas e estudiosos que ajudarão a definir conteúdos e imagens que combatam essas desigualdades”.

E é aqui que vem o meu ponto, leitor e leitora, que dá título ao texto. Desculpas não são suficientes. Já estamos em 2019 e não há mais condições de se aceitar. Não conheço a história de Donata, mas podemos ter umas pistas de como uma merda pode ser evitada se você quiser deixar de ser um racista ignorante. Ela é esposa do famoso publicitário baiano Nizan Guanaes, que para os não-iniciados no mundo da publicidade/comunicação é o autor daquela música-chiclete “We Are The World of Carnaval”, que entre outros sucessos na manga tem a fundação, vejam só vocês, da agência de publicidade África, uma das maiores do país. Guanaes não perde uma oportunidade de gabar-se de sua origem baiana, do respeito que tem pelo candomblé, ao ponto de sempre se vestir de branco às sextas-feiras. Portanto, a possibilidade de acesso à informação nunca faltou nessa casa.

Sabe o que falta? E o que faltou para todo mundo que foi ao aniversário e permaneceu calado? Consciência e vergonha na cara para admitir que não há mais cabimento que situações como essas sejam repetidas dia sim e outro também. Um dia é a fazenda no Rio de Janeiro que faz um tour “estilo colônia” com gente preta vestida de escravo. No outro é a mãe sem noção que “fantasia” o filho de escravo para a festa na escola. Que fetiche é esse com a escravidão e a subalternização da gente preta que esse povo tem? Mais de 300 anos não foram suficientes? O povo preto já cansou dessa merda e quer superar tudo isso, mas parece que não querem deixar. Até quem a gente pensa que pode ser uma voz aliada – alô, Caetano Veloso e Preta Gil – se cala, ou por conveniência ou por falta de convicção ou de consciência. Assim, leitores e leitoras, seguimos longe de ser uma humana civilização.

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *