OPINIÃO

Deu no Intercept, no que será que vai dar?

A tarde de domingo parecia tranquila e calma, quase prestes à chover em Natal, quando, de repente, vem a bomba do The Intercept Brasil. Conversas privadas entre o então juiz Sérgio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e entre outros procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba demonstravam a influência ilegal do juiz e o comportamento político dos procuradores, sem falar nas gravíssimas violações por todas as partes. Em pouco tempo, a notícia se espalhou pelo twitter, explodiu nos grupos do whatsapp, ganhou as manchetes dos principais jornais e portais da internet no Brasil. Saiu até no Blog do BG. E não saía na Globo, nem n’O Globo, nem no G1.

Eu bem queria ser uma mosca (ou um hacker) para ver as movimentações nos corredores e aplicativos de mensagens da emissora carioca entre as 17h57 – que foi a hora que o Intercept publicou a primeira matéria – e a hora em que alguém dos mais altos escalões decidiu colocar o conteúdo no ar no Fantástico. Era o próprio Sérgio Moro, o queridinho da platinada carioca, o maior atingido pelo vazamento. A Globo sabia o impacto que a divulgação da notícia traria na noite de domingo. Seria o assunto da semana inteira.

O Intercept também sabia disso e calculou precisamente o momento perfeito para colocar as publicações no ar. Naquele preciso momento, não é só a audiência da TV que está em alta. As redes sociais estão em polvorosa. É a hora de postar os destaques do fim de semana, as fotos da praia, da viagem, do churrasco. Também é a hora de descontar a raiva daquele tio bolsominion postando textão no face. Sem falar no retorno dos desconectados, depois da ressaca, depois do dia relax com os filhos. É aquela hora de reconectar com a eletricidade que vai nos mover ao longo da semana inteira.

Somente às 23h02 da noite, a Globo se rendeu e publicou uma tímida matéria – quase envergonhada – no portal G1. No Fantástico, uma curta matéria foi acompanhada de um longo, sonolento e interminável falatório, suficiente para adormecer os poucos que ainda estavam sintonizados. A Globo teve cinco horas e cinco minutos para produzir uma reportagem e preferiu ler notas no Fantástico? Nem mesmo os “especialistas consultados pelos Fantástico” tiveram seus nomes citados. Talvez pela leitura apressada que fizeram sobre a gravidade das denúncias: não viram ilegalidades, “apenas” a possibilidade de condutas antiéticas.

A Globo sabe como o Fantástico agenda as conversas da segunda-feira. E talvez fosse melhor dar mais destaque ao massacre da moça que denunciou Neymar (o outro queridinho global).

A aposta de Greenwald – o jornalista do Intercept – foi muito precisa. O escândalo do #VazaJato não demorou para subir ao topo das tendências do twitter no Brasil e ficou entre os assuntos mais comentados da rede social em todo o mundo. No Whatsapp, as redes de apoiadores do presidente Lula não paravam de se movimentar, enquanto as redes bolsonaristas já preparavam seus robôs para o contra-ataque.

Nas redes, os apoiadores da Lava Jato colocaram as mangas de fora, mas os apoiadores do Intercept estão logo ali no rastro. A Globo pensou melhor sobre o assunto e resolveu ampliar as informações no Bom Dia Brasil. Uma reportagem bem detalhada com os dados divulgados pelo site e, desta vez, preferiu citar os especialistas ouvidos pelo próprio Intercept.

O dia vai ser decisivo. Os movimentos em Brasília e Curitiba podem definir como o Jornal Nacional vai noticiar o escândalo. No país da mídia-monopólio, esse pode ser o empurrãozinho que Moro precisa para cair do pedestal.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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