OPINIÃO

Dia da Consciência Negra tem significado diferente em 2019

Todos os anos , inúmeras homenagens e discursos são proclamados em alusão ao Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de Novembro, em memória ao nascimento do então líder quilombola Zumbi dos Palmares (1655 – 1695) . Mas o histórico escravista e racista da raça negra vem se tornando algo ultrapassado e os negros passaram a ser protagonistas nos diferentes setores da sociedade .

Em 2019, essa data tem um sentido diferente pelas históricas conquistas alcançadas, principalmente quando se trata de mulheres negras. Uma delas é a socióloga Divaneide Basílio que foi empossada em fevereiro como a primeira vereadora negra da história de Natal, após quase dois séculos de existência do poder legislativo na capital potiguar. Para ela , este feito não é apenas um ato simbólico, mas um compromisso social e político .

Outro grande feito foi conquistado pela a jornalista Maria Júlia Coutinho também em fevereiro. A Maju se tornou a primeira mulher negra âncora do Jornal Nacional (da TV Globo) , sendo um dos mais antigos telejornais brasileiros (50 anos completados em 2019) e com maior audiência. Muita das pessoas chegaram a comentar que as jornalistas negras Glória Maria e Zileide Silva apresentam o telejornal em outras oportunidades , mas a informação não é verídica. Maju ainda se manifestou diante da conquista e afirmou que o ocorrido era para deixar de ser manchete e virar algo prático e comum na sociedade brasileira .

Outra grande surpresa em 2019 ocorreu na Festa Literária internacional de Paraty-RJ , a FLIP . O público presente mandou o recado e os cinco livros mais vendidos no evento eram de quatro autores negros e um indígena, aliás uma grande massa negra ocupava os debates da FLIP que em outras edições eram ocupadas por brancos na sua maioria.

Já em outubro, uma empresa brasileira decide criar tocas para que pessoas com dreads no cabelo pudessem participar de aulas de natação e se sentissem à vontade para participar a atividade.

Encerrando o ano, na última semana de novembro, uma pesquisa mostrou que os negros passaram a ser maioria nas universidades federais, inclusive a Universidade Federal do Recôncavo Baiano gradou na última semana a turma de medicina com maior número de negros, sendo doze. Conquistas como essas só foram possíveis após anos de implantação de políticas públicas raciais no Brasil.

Por outro lado, um pesquisa revelou que apenas 16% dos professores universitários são negros e que apenas 12 universidades federais possuem a raça negra como predominante em seu corpo docente.

A situação ainda se torna mais triste quando se trata dos negros nos espaços de poder. No ano passado , o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul foram os únicos estados que não elegeram deputados federais e senadores negros e pardos, contribuindo com que apenas 4% do Congresso Nacional seja composto por pessoas negras. E a situação vai se tornando mais triste quando sabemos que dos 22 ministros do presidente Jair Bolsonaro, nenhum é negro .

O fato é que em 2019 os pontos positivos foram superiores àqueles negativos e que mais espaços de fala, poder e representatividade precisam ser ocupados para que assim a sociedade brasileira possa se enxergar com cor e diversidade, se reverenciando na frase do grande cantor jamaicano Bob Marley (1945 – 1981) :

“Enquanto a cor da pele dos homens valer mais que o brilho nos olhos, haverá guerra” .

* Gabriel Aciole é estudante, tem 16 anos, e mora na Zona Norte de Natal

 

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