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Diário de uma repórter: o dia em que fiquei cara a cara com uma baleia Jubarte no RN

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Por Andréa Luiza, especial para a agência Saiba Mais

Eu poderia escrever e reescrever essa reportagem mil vezes e nunca conseguiria expressar a emoção de ver esses gigantes de perto. Nada mais importa quando ouvimos o capitão do barco, André Silva, gritar empolgado: “baleia pulando!” E mesmo que ainda não as tenhamos visto, o coração já palpita, o enjôo abranda e os olhos se fixam no horizonte, buscando qualquer sinal de que uma baleia pudesse estar ali, no mesmo lugar que nós.

A viagem é longa, são duas horas em um barco de pesca em mar aberto. Apesar de o dia ter sido classificado como “extremamente bom, com mar calmo”, não nos pareceu nada calmo, apesar de André jurar de pés juntos que estava “calmíssimo”. Nossa embarcação chama-se Rita de Cássia e, assim como a santa, enfrentou bravamente sua missão, que não é de hoje.

Essa jornada começou há 20 anos, quando o psicólogo e mestre em comportamento animal, Lídio França, decidiu investigar as causas dos encalhes de baleias na costa do Rio Grande do Norte.

 “Encontramos o corpo de filhote ainda com cordão umbilical aqui no litoral e certamente ele havia nascido aqui”, explicou Lídio, fundador da ONG Ecomar, que realiza um trabalho de ciência cidadã: a identificação e criação de acervo de imagens de cetáceos com viés científico, um verdadeiro tesouro para a pesquisa de cetáceos em geral.

Lídio explica que conhecer e compreender a presença desses gigantes aqui no Rio Grande do Norte ajuda na preservação da espécie.

“Há alguns anos não sabíamos de certeza que nossa costa fazia parte da rota delas, mas agora isso é um fato e podemos empreender um trabalho de conscientização para evitar acidentes com pesqueiros, por exemplo”, ressaltou.

“E mesmo que ainda não as tenhamos visto, o coração já palpita, o enjôo abranda e os olhos se fixam no horizonte, buscando qualquer sinal de que uma baleia pudesse estar ali, no mesmo lugar que nós”.

Apesar dos milhares de quilômetros que separam a Antártida da América do Sul, mais precisamente do Brasil, as baleias jubarte se deslocam, todo ano, para as águas tropicais do litoral brasileiro com o objetivo de se reproduzir. O maior berço reprodutivo fica em Abrolhos, região costeira do sul da Bahia, mas o Rio Grande do Norte também constata a presença desses animais e o número está crescendo.

“É um pouco mais difícil vê-las aqui, como você pode ver, o mar hoje está calmo e mesmo assim é bem agitado, o que dificulta o transporte dos pesquisadores e observadores”, explica Lídio.

A população de baleias jubarte cresce de 7% a 15% ao ano.

“As fêmeas migram para as águas tropicais para ter os filhotes, após um período de gestação de 11 meses. Os machos também vem atrás de parceiras, que estão no período fértil“, destaca o pesquisador.

As baleias ficam entre quatro e cinco meses nas áreas de reprodução, até que os filhotes estejam desenvolvidos e possam retornar com as mães para a Antártida.

Em busca das jubartes

Andréa Luíza e um grupo de estudantes ficaram cerca de 30 minutos observando o baile das jubartes no litoral potiguar (foto: Andréa Luíza)

Sábado, as 7h da manhã, partimos oceano adentro em busca das baleias jubarte, que chegam a medir 16 metros de comprimento e a pesar até 40 toneladas. Deixamos o Rio Grande do Norte para trás e cerca de 3 horas depois estávamos 30 km mar adentro. Durante o percurso, fomos embalados pelos mais diversos tons de azul que só a natureza é capaz de reproduzir. Algumas pessoas que estavam no barco nem chegaram a vê-los, ondas gigantes balançavam nossa embarcação e causavam enjoos nos passageiros. Pudemos ver gigantescas aves marinhas e minúsculos peixes voadores, uma coincidência projetada pelo universo.

Converso ansiosamente com Lídio enquanto tento esquecer o frio, o forte Sol e a empolgação com o momento, enquanto cometo o erro de lutar contra o balançado do Rita de Cássia. A cor do mar é de um azul intenso, meio púrpura, um pouco escuro, a imensidão assusta, mas encanta. De repente, o capitão do barco aponta para o horizonte, empolgado, e fala: “baleia pulando”.

Passo por cima de cordas, pés, barris e me seguro na cabine do capitão. Era isso mesmo, uma baleia estava pulando há uns 500 metros de distância. Eu já estava extasiada. Não conseguia acreditar, não sabia mais nem definir a felicidade e achava que era só aquilo. Ledo engano.

“A cor do mar é de um azul intenso, meio púrpura, um pouco escuro, a imensidão assusta, mas encanta”.

Alguns minutos depois, olhares perdidos no horizonte, atentos para todos os movimentos. Um baque seco ecoa acima do alto barulho do motor do barco. E ela estava lá, ou, no caso, ele, como afirmou o especialista Lídio. Há poucos metros de distância, o gigante de mais ou menos 12 metros quebra majestosamente a superfície da água e cai de barriga, espirrando água em nós. Parece até que o ar muda dentro da nossa embarcação, as pessoas se emocionam, se abraçam, comemoram. Uma tremenda emoção.

Emoção e momento indescritível o encontro com as baleias (foto: Andréa Luíza)

A visão era familiar e estranha. Eu vi incontáveis baleias na televisão, mas agora estava ao lado de um animal de 40 toneladas e mais de 10 metros de comprimento, com um coração palpitante e uma mente cheia de instintos e impulsos insondáveis.  Não importa o quanto você já leu sobre elas, estudou sobre as proporções ou comparações de tamanho. Nada te prepara para o tamanho real de uma baleia. É muito chocante! As bordas brancas de suas barbatanas peitorais e barriga brilhavam em um áqua brilhante. O resto dela era uma enorme sombra de carvão, suspensa no espaço.

“A visão era familiar e estranha. Eu vi incontáveis baleias na televisão, mas agora estava ao lado de um animal de 40 toneladas e mais de 10 metros de comprimento, com um coração palpitante e uma mente cheia de instintos e impulsos insondáveis”.

De acordo com os estudantes presentes no barco, estamos, há mais ou menos, 30 metros de distância dele, mas o mamífero é tão grande que parece muito menos. Consigo ver os detalhes da pele do animal, cores, texturas, arranhões. Também consigo olhar no olho do gigante, que me traz uma sensação de vitória, de conexão. O encantamento é tamanho que chego a pensar que aquele animal é mítico, é sobrenatural. Mas então os companheiros de viagem explicam diversas fragilidades da espécie e sou arrastada para um mar de preocupações e anseio que aquele momento não acabe.

Segundo a Comissão Internacional Baleeira (CIB), a espécie quase foi extinta por causa da caça predatória, que era permitida até o inicio do século XX. Com a suspensão da caça, as populações de baleias jubarte vêm aumentando lenta e progressivamente não só no Brasil, mas em todo o mundo. Com o aumento de baleias jubarte no litoral brasileiro e a moratória da caça ainda em vigor, esta espécie possui agora outros tipos de ameaças como a perturbação direta provocada pelo turismo e pelo tráfego de embarcações, a poluição do ambiente marinho, a degradação da atmosfera e dos processos oceânicos, os encalhes, a exploração de petróleo entre outras. O governo brasileiro junto com várias ONG’s vem realizando projetos e ações prioritárias, leis e medidas de conservação para o meio ambiente marinho e para a preservação não só das baleias jubarte, mas de diversas outras espécies também. Muitas ações ainda devem ser feitas para que se possa oferecer um ambiente bom e seguro para as baleias jubarte e para os organismos marinhos.

“Consigo ver os detalhes da pele do animal, cores, texturas, arranhões. Também consigo olhar no olho do gigante, que me traz uma sensação de vitória, de conexão”.

Ainda durante a expedição outra baleia apareceu, uma fêmea dessa vez. Apesar de maior que o macho, ela era mais tímida e contida. Ele saltava, espirrava água, balançava as nadadeiras e parecia dançar ao redor do barco e da pretendente.

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 “Esse gasto energético todo só pode ter um propósito, o namoro”, explicou Lídio.

O pesquisador ainda afirmou que o macho aparenta ser jovem e, de acordo com padrões de cores e formatos de barbatanas, estava sendo visto no litoral potiguar pela primeira vez. Lídio também nos conta que durante o período em que estão em águas quentes as baleias não se alimentam, passam cerca de quatro meses usando as reservas de gordura.

Ao todo, ficamos cerca de 30 minutos acompanhados das jubartes. O mar agitado, com ondas de cerca de 3 metros, tornava tudo um pouco mais difícil, mas nem por isso menos intenso. Saímos da expedição enjoados, cansados, mas sobretudo felizes e sabendo que não há nada mais fascinante do que passar o tempo com uma baleia jubarte. Absorvemos cada segundo, sabendo que o encontro foi um momento especial.

 

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